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Ouvi dizer que Lisboa anda por aí num rebuliço a dar vivas à noite. Estes dias, tenho em crer, andam a desforrar fados que ficaram por cantar, a espantar fantasmas encostados às esplanadas entre o rés-do-chão e o décimo terceiro andar, a, para que se note o quanto de audácia corre nestes pioneiros dias de sol frio, exibir casas cheias cúmplices de um primeiro voltar.

E eu aqui, no cimo da Calçada do Galvão, dou caldo à voz apregoando ao Tejo quadras da redonda menina e moça, num prenúncio de que os bons tempos – «Ó Lisboa, acorda que é desta» – vieram para ficar.

Num destes dias inaugurais, prolonguei-me num chá vespertino na antiga Chique de Belém. Eu, que por rotina me entrego ao ócio na esplanada da pastelaria da minha calçada, esta terça tirei proveito da solenidade de uma carta postal para, vestida com aprumo, ir sentir o pulso ao passar dos finais de tardes na zona que outrora foi praia em plena cidade.

Perdida em lembranças dos anos em que ali se mantinha o polícia sinaleiro, pensei: «Este final da Junqueira sente certamente a falta dele», enquanto observava o circular desordenado de automóveis, táxis, autocarros guiados por quem cruza a Ajuda com Santa Maria de Belém e, um metro à frente, torneia o Jardim Afonso Albuquerque, seguindo em direção a Alcântara.

E enquanto vejo passar, colhe-me a certeza de que quem aqui chega logo sente os ventos de uma resistência vinda dos tempos do Grande Terramoto que os três bairros aguentaram, gravando neste mapa ocidental uma receita única pela qual deixa-se a marinar chegadas com partidas, abrigos com destinos, sonhos com construções, tudo arquitetado por um traço que, ao estilo manuelino, deve as suas grandezas ao Venturoso das navegações e dos encontros.

Dezanove horas e levantei-me. Paguei a conta à Chique e lembrei-me de que já Almeida Garrett confiava nos cafés a ponto de afirmar que bastava a um viajante entrar num deles para logo ali se lembrar, caso esquecido estivesse, da cidade a que entregava as suas rotineiras pausas.

Assim segui eu, nestes dias de São Martinho, observando à direita as paredes rosas e mais adiante os muros laranja. Uma nota para que não sigam em direções erradas, à Chique afrancesaram o nome. Agora chama-se Versalhes.

Sem olhar para trás, nem me perder em cumprimentos à Guarda Presidencial, encontro novamente os correios e repentinamente assalta-me o paladar daquela tosta quente no bar do Centro Cultural de Belém, o Este Oeste. Aventuro-me por mais um fim de tarde a lembrar-me de ti e, acomodada nos sofás da entrada do bar-esplanada, passo os olhos pela folha de sala.

Agora que cai a noite, antes que se abram as portas do espetáculo no rosa mármore do Centro Cultural de Belém, faço anotações de outros passeios e eis que dou por mim noutra memória pedonal, onde, extasiados, prostrámos no encanto do modernismo estampado no número 28 da Rua de Alcolena, o célebre edifício com vitrais desse artista maior que foi Almada Negreiros.

Olho para o relógio que se põe de acordo com o sofá e a meia chávena por tomar. Há ainda tempo para lembrar outras tardes de namoro. Neste espaço refaço arranjos, orquestro intervalos, procuro a perfeição desta didascália amorosa encenada à volta deste bairro mariano a concorrer com o beato da cidade.

E enquanto invento uma canção que entrone para sempre o nosso amor, irrompe por esta crónica o santo da Ermida, transformando em altar as palavras que te escrevo e em preces a serenata encomendada aos seres marinhos. Dando continuidade ao detalhe de cantar o nosso amor, peço ao Arcanjo São Miguel que confie a Santo António um serão só nosso, que nem os peixes ouvirão.

São recordações de ti que fazem que alguém como eu percorra a pé o bairro sem nunca atravessar a Avenida Torre de Belém sozinha. Encostados ao corrimão da escada que, como canta Camané, é a vida, em cada bairro desta cidade há um degrau que juntos subimos até que reencontremos a nossa rua, posta do nosso jeito, nesta Lisboa onde tudo é circular, fazendo-nos crer que, se nascido nela, em nós viverá sempre, que seja vestígios deste amor territorial.

Ser cidade multicultural, criativa, inteligente também é encontrar nas orações dos outros as nossas e deixar que a compaixão reze o que falta ao terço; depois, é esperar que o sagrado se revele nas ruas, à saída de cada marcha, nas quadras que trazem com elas, simultaneamente, a narração da chegada e a poesia da partida.

Pela segunda vez reluz a filha que sou de uma outra cidade, confiante de que Luanda resistirá sempre. Uma e outra vez desço este bairro de Santa Maria de Belém ao encontro dos teus sinais. Há uma luz em Lisboa que só é branca porque reúne todas as cores; hiperbólica, vigilante comunitária, Lisboa espera-nos na subida de cada rua.

Primeiro, dobro a meio o largo, depois, aumento o passo ao passeio. Olho para trás para me certificar de que ainda avisto o fontanário oitocentista Chafariz de Belém e dou por mim a imaginar que, no fundo, repousam todas as nossas lendas, e à tona, transparecem todos os nossos contos.

Faz-se tarde e cai-me mais um sorriso se de recordação dos nossos passeios, se de uma última lembrança de nós junto ao Jardim da Torre a ler nos bancos de pedra inscrições do poder desta cidade e o das suas inenarráveis glórias.

Volto aqui uma e outra vez. Vinte e uma e vinte e um. Salto do sofá. Mais uns minutos e o Camané começa a cantar o que tanto que ele sabe desse rio «Em que as únicas estrelas/ Nele sempre debruçadas/ São as luzes da cidade».


* Ulika da Paixão Franco é mulher, negra, filha de Angola e irmã de Portugal. Na infância lia alto as palavras que saltavam dos manuais de português e na adolescência trocava as matinés no Crazy Nights, em Lisboa, pelo sofá onde lia O Independente. Um dia, quando o Arco-Íris marchar, diz que será repórter para noticiar com o título: «Homem Pisa Planeta onde as Pessoas são todas Iguais».

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