E de repente começaram a aparecer máquinas de lavar roupa coloridas em Lisboa. Em sítios inauditos. Em cima de paragens de transportes públicos. Parecem caídos do céu para o espaço público.

Surgem sempre pela calada da noite, especialmente ao domingo. E isso não acontece por acaso: não são alheias à ansiedade do que segunda trará. “Pelo menos sobrevivem domingo” – diz quem as faz, referindo-se ao sistema que atua de segunda a sexta, removendo peças de arte e toda a erva que destoa da calçada.

Artista sem nome, sem género e sem rosto, o que as deixa ali. É impossível não evocar o exemplo de Banksy, que faz o mesmo, mas em desenhos pelas paredes de todo o mundo.

Superlinox, (tanto o alter ego como as mãos que esculpem) até que surja um acontecimento com uma escultura que contrarie, despediu-se de Setúbal para se instalar, literalmente, em Lisboa. Desse outro lado, as “Botas Sadinas” anunciaram essa despedida, e foram um presságio da chegada à margem norte.

“Botas Sadinas”, Superlinox. Foto: @renato.vintem

Por cá, em Lisboa, não se demarca da vontade de “concretizar sonhos”, dos que só se esculpem nas metrópoles. No seu caso, sonha com tornar a arte que produz “real, possível e sustentável”. A escultura “Lilliana”, colocada no mês passado em Monsanto, é disso que trata, não fosse todas as peças terem uma parte de quem as cria:

– Quantas pessoas se mudam para Lisboa, Berlim ou Londres, atrás de uma carreira de sucesso? Quantas conseguem? Se calhar é tudo uma ilusão – remata, deixando-se seduzir pela mesma.

Considera que todos os artistas devem ter “noção da utilidade do trabalho”. Quanto ao seu, crê que “deambula entre a tragédia e a comédia”, com a ambição de mudar coisas, de unir a “erudição à diversão”, para todos. Um casamento artístico que, enquanto arte que toca cada um, provoca diferentes reações. Partilha que alguns “fartam-se de rir, outros fazem perguntas e há quem se aproprie das esculturas como se fossem um manifesto seu”.

Seja como for, as suas peças rompem com a vida quotidiana e, consequentemente, com o “piloto automático” – agora, dos lisboetas.

Há uma pista deste seu objetivo, da rotura dos quotidianos, com “Carlos” – o super-herói sonâmbulo, também descartável. Não é inocente, nada é, nem as cores warholianas que escolhe. Este herói, vermelho, caiu de pé próximo da linha de comboio, com o cuidado de não a transpor, e diz que pretende acordar quem passa, (embora, como muitos de nós, esteja a dormir):

– Quantos não andam a dormir em pé? Não existem pessoas que vivem uma vida inteira sem nunca acordar? Com o passar dos anos o sono não fica mais profundo? – faz perguntas como se fosse o Carlos (ou a sua legenda nos posts de Instagram).

Aparentemente, (e só na aparência), as suas obras terminam quando são retiradas do espaço público, mas tem a ideia romântica de que só cessarão se nos fugirem da memória. Por agora, o garante dessa memória tem sido o Instagram, “o monstro insaciável” e uma comunidade que se multiplica a cada dia que cai uma escultura tingida a tinta spray na cidade.

Enquanto ferramenta, reconhece que pode não ser “a mais adequada, mas é a mais eficiente nos nossos dias”.

A forma com a arte é tratada não muda com facilidade. Os artistas sim e, com isso, o modo como interagem com o público. Como interpretar as obras que aparecem no espaço público e, muitas vezes, passam por nós tão rápido como um olhar pela janela do autocarro? Será que além de nome têm legenda?

Sim, sempre no Instagram, quase em simultâneo. Nesta rede social não reside apenas a memória de Superlinox, estão as legendas das obras que estão no espaço público. São textos que esclarecem, ao mesmo tempo que inquirem, aprofundando o universo de uma arte sem cara.

 – Cada obra que instalo no espaço público é uma exposição. Cada publicação que faço no Instagram é uma apresentação dessas exposições de obra única – clarifica.

Enquanto processo artístico, assim que tem os registos visuais da obra instalada, está terminado. Pela natureza efémera do sistema que se relaciona com a arte no espaço público, há uma necessidade de praticar o “desapego material” em relação a um objeto em que houve investimento financeiro, mas “sobretudo emocional”.

O registo fotográfico garante a vida das peças.

– A eternidade de uma obra depende da forma como as pessoas e o mundo se relacionam com ela, seja na memória individual ou coletiva – diz bem claro.

Como foram estes objetos parar à A5

A sua arte está cheia de subtilezas. Uma “Chaleira que pensava poder ser invisível” foi posta a oito metros do chão, no meio da autoestrada A5 que liga Lisboa a Cascais. Como a conseguiu ali colocar permanece um mistério. Não fala disso.

Mas é preciso refletir sobre as intenções e convicções que estão por detrás do que vemos. A chaleira é arte, não só pela transformação mas porque está fora da cozinha, àquela altura. Falhou redondamente em ser invisível, mas foi uma performance poderosa:

Os objetos aparentam surgir como por magia, mas não é verdade. Alguém tem de os colocar lá. Para o espectador, essas performances só podem existir na imaginação – explica.

O anonimato faz parte da identidade. Prefere que aquilo que é fique dentro de cada peça, que a figura do artista não distraia da obra, algo que costuma acontecer. Não dá rosto ao artista para que a obra possa falar sozinha, e ambos serem livres, com vidas próprias. Tão livres como a “Liliana” que, mal pôde, vacinada e sem restrições, foi reinaugurar a noite lisboeta.

Será Superlinox um homem, uma mulher ou ambos?

A imagem que vemos no círculo do perfil do Instagram é uma das suas peças. Lembra os contornos de uma barba, algo de que diz não se ter apercebido. No confronto entre a imagem ter uma conotação de masculino ou feminino, esquiva-se de responder: “Para mim sempre me pareceu uma criança de braços abertos, feliz da vida”. E fez bem. Tem um alter ego de ter um género, especialmente se quer trazer divertimento à arte?

Há um equívoco muito grande nas pessoas que acham que o meu trabalho se resume a objetos pintados de cores vivas – desabafa.

A aproximação a Banksy é incontornável. Embora a escultura e pintura sejam diferentes, têm em comum o ato irreverente de “intervir ilicitamente no espaço público/privado e o confronto constante acerca dos sistemas nele estabelecidos, sobretudo o capitalista”. Separa melhor as águas dizendo que têm linguagens diferentes, além da forma, no conteúdo. Banksy, apesar de ser uma “grande referência”, assume uma “linguagem literal”, considerando-se Superlinox, por seu turno, “mais conceptual”.

Pode não parecer, mas usar a rua para expor é algo ao alcance de todos. “Fazê-lo com o apoio financeiro e institucional é uma história diferente”. Ainda assim, os limites estão “na cabeça do artista”.  Dito isto, reflete que o espaço “público não é verdadeiramente público”. Apesar de exercer esta liberdade, não o faz levianamente. Expor no espaço que deve ser de todos é um ato refletido, a “única forma de existir e interagir positivamente com a comunidade”.

“Superlinox é essencialmente uma ideia”, que luta pela arte e só termina quando não der para acreditar nela. Por agora, choverão Monólitos (assim se chamam as suas peças) pelo centro da cidade, com tinta spray de tons vivos. Embora o sistema remova as suas peças, o incómodo que é inerente à arte faz parte:

Caso contrário, torna-se decoração ou uma palmadinha nas costas – afirma.

Imagina “Marcel Duchamp e Andy Warhol a descerem alegres a Avenida da Liberdade, ou sentados numa esplanada do Rossio para um pastel de nata com bica cheia, enquanto se questionam sobre a vida e o mundo. A certa altura, junta-se também Pessoa”.

Termina, assim, uma conversa onde foi dito muito mais, ficando em aberto o que poderão querer dizer estas palavras que, para Superlinox, nunca são irrefletidas ou sem consequências.


*Leonardo Rodrigues é aluno de Ciências de Comunicação, na Universidade Nova, e também autor do projeto Lisboa Quase Verde. É membro da Assembleia de Freguesia de Alvalade, eleito pelo Bloco de Esquerda, e autor do blog Leonismos.com

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