É pequena e ágil, a bicicleta. Leva “porta-a-porta” quem a conduz. A cada ano que passa, o número de lisboetas que opta por este meio para se deslocar na cidade cresce. Mas, e quando chega a altura de a guardar? No espaço que um automóvel ocupa cabem dez bicicletas, mas o estacionamento destes veículos pode ser um desafio.

Veja neste mapa a localização de todos os suportes para estacionamento de bicicletas em Lisboa. A verde, os suportes no espaço público. A azul, os atuais e futuros parques de estacionamento cobertos, de acesso restrito. Em dispositivos móveis, carregar aqui para abrir o mapa.

Primeiro: é preciso que a bicicleta ainda lá estejam quando é hora de voltar a pedalar. Quem vive ou trabalha em pisos térreos pode ser capaz de guardar a bicicleta dentro de portas. Assim como quem tem à disposição um elevador, um terraço ou uma área comum de acesso restrito. Mas na cidade, contudo, este é um luxo.

Ana Sousa Pereira é a presidente da câmara das bicicletas em Lisboa – a Bicycle Mayor, no inglês original deste cargo honorário, atribuído por uma rede global de embaixadores da bicicleta com o objetivo de promover este meio de transporte e de o tornar mais visível na cidade (é também membro do conselho editorial da Mensagem). E, claro, quando, há pouco tempo, procurou casa, fê-lo a pensar na bicicleta.

Na família há três bicicletas, duas de carga e uma convencional. A casa tinha de ser um rés do chão, para que as bicicletas de carga, maiores e mais pesadas que as convencionais, pudessem entrar e sair com facilidade. Encontrou uma onde dois degraus não deixaram de tornar “viável” a tarefa diária de as levar para fora, de manhã, e para dentro, ao final do dia. Com mais degraus seria mais complicado.

A questão do estacionamento das bicicletas é um pouco diferente da dos carros. É um “transporte porta-a-porta”, que se baseia na conveniência de utilização. “Se tenho de andar cinco a 10 minutos já não faz muito sentido. É por isso que o estacionamento deve ser o mais perto da porta possível”, explica Ana.

Onde estaciona um automóvel, estacionam dez bicicletas, como mostram estas novas estruturas lisboetas. Foto: Frederico Raposo

Uma tarefa que pode ser difícil. Era um desafio para Silke Jellen, perto do Campo Mártires da Pátria, e sê-lo-á diariamente para muitos outros lisboetas. “Às vezes, não há um buraco no meio dos carros estacionados” para fazer passar uma bicicleta, diz Ana Sousa Pereira. Paira sempre o risco. E se, no regresso, a bicicleta já lá não estiver?

A Polícia de Segurança Pública fala de “inexistência de dados estatísticos” sobre o furto de bicicletas, mas toda a gente sabe que existem, os relatos estão espalhados pelos grupos de utilizadores de bicicleta da cidade nas redes sociais – e até vão surgindo histórias com final feliz.

Estacionar a bicicleta na rua? E se lá não está quando voltar?

Quem não tem onde deixar a bicicleta, deixa-a na rua. Num poste de sinalização ou num suporte próprio ao estacionamento de bicicletas, quando existem. Ana tem vizinhos que deixam na rua bicicletas elétricas, habitualmente de valor superior às convencionais. São também os veículos que considera “a melhor alternativa para substituir o carro”. E são veículos nos quais os lisboetas têm apostado – aproveitando os valores patrocinados pela Câmara.

Através do Programa de Apoio à Aquisição de Bicicleta da Câmara Municipal de Lisboa, só em 2020 foram adquiridas 3304 bicicletas por pessoas que vivem, trabalham ou estudam no município. Destas, 1136 eram elétricas, 2157 convencionais e 11 eram bicicletas de carga. Entre as elétricas, e segundo dados do município, o valor médio de cada bicicleta adquirida com o apoio do programa municipal situou-se nos 1050 euros, superior aos 270 euros médios das bicicletas convencionais. Em média, o município apoiou a aquisição de cada uma das mais de três mil bicicletas em 181,9 euros.

O nível de proteção necessário a proteger uma bicicleta nas ruas da cidade “depende do contexto da rua e do [valor] investido na bicicleta”, diz Ana. Os cadeados, os bons, podem ajudar, mas “com as ferramentas certas e tempo, vence-se 99%” dos equipamentos de segurança.

Bicicleta estacionada num poste de sinalização da Praça da Figueira, Lisboa. Foto: Frederico Raposo

Para Hugo Mendes, utilizador de bicicleta em Lisboa há 10 anos, “nada é 100% inviolável, nada é 100% seguro, há sempre um risco quando deixamos a bicicleta na rua”. Nem sempre é preciso o cadeado mais caro: “Pode-se falar sempre com os seguranças das garagens ao pé dos locais, ou porteiros”, no caso de edifícios de escritórios, é o conselho que deixa. “Acabam por compreender” e há uma “camaradagem” a desbloquear. “Há também esta parte”, a do contacto com as pessoas que podem ficar de olho na bicicleta. “Foi assim que fui saltando de empresa em empresa a usar a bicicleta para me deslocar”, conta.

Estacionar em vários tipos de suporte

Numa garagem “onde há lugar para motas, há lugar para bicicletas”. Quando trabalhava numa instituição bancária, Hugo prendia, com o seu cadeado, a bicicleta a um cano. Mas depois “fez por ter” melhores condições.  Foi falar com os recursos humanos e deixou o seu pedido.

Inicialmente pediu um entorta-rodas – é assim que são conhecidos os suportes de estacionamento mais rudimentares, menos seguros, já que só permitem prender uma roda e são conhecidos por poderem deformar as rodas sob o peso da bicicleta. Sabia que era uma “solução temporária”. Começou por pedir pouco, já era qualquer coisa e os melhores suportes “são muito caros”.

Depois, pediu que fossem instalados suportes Sheffield, diz – um modelo em forma de U invertido que permite “prender o quadro à barra de aço”, ao mesmo tempo que permite também prender as rodas. Estes são aqueles que considera os melhores e são também aqueles que a câmara municipal tem vindo a instalar pela cidade. Hugo acabou por conseguir que fossem instalados no banco e depois também no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), onde hoje trabalha.

Antes de conseguir estas vitórias, Hugo utilizava uma bicicleta dobrável para as suas deslocações. Ao chegar, dobrava-a, levava-a para o escritório e deixava-a ao lado da secretária. Esta é uma solução que não serve só para o local de trabalho. “Para os que não têm possibilidade, o que faria, era adaptar-me, era comprar uma dobrável e levá-la para casa”, diz. Quando levar uma bicicleta para casa ou deixá-la na rua não são alternativas, as bicicletas partilhadas são a possibilidade.

Que cadeado devo usar?

Os cadeados de cabo, em espiral, devem ser evitados. Foto: Unsplash

Devem evitar-se cadeados de cabo, aqueles que “parecem uma espiral”. Podem até parecer robustos, mas “cortam-se muito bem”, avisa Ana. Para estadias da bicicleta na rua, a Bicycle Mayor de Lisboa aconselha a utilização de “correntes, cadeados em [formato] U ou articulados”.

Hugo Mendes usa um articulado, “é uma questão prática”, apesar de reconhecer que o seu não é um dos mais fortes. Tem onde deixar a bicicleta em casa e o mesmo acontece no seu local de trabalho, pelo que investir mais em segurança não é um imperativo pessoal. “As pessoas devem adaptar-se” às condições que têm, diz.

Apesar de haver cada vez mais suportes para estacionar a bicicleta em Lisboa, não estão ainda à porta de todas as pessoas da cidade. Os postes de sinalização vão servindo, mas antes de prender a bicicleta a um, Ana Sousa Pereira deixa conselhos:

  • Garantir que o poste escolhido “não se arranca bem do chão” e “não permite que se levante [a bicicleta] por cima”
  • “Garantir que não fica a atrapalhar ninguém”, sobretudo que não se prejudica a mobilidade de quem se desloca a pé
Na sua bicicleta, Hugo Mendes utiliza um cadeado articulado. Não é aconselhado para lugares mais inseguros. Foto: Frederico Raposo

Muito importante: “não confiar cegamente” mesmo quando há suportes próprios para o estacionamento de bicicletas, avisa Ana. Antes de prender a bicicleta ao suporte, há um gesto importante, tal como no caso do poste: “ver se estão bem chumbados ao chão”.

Na altura de escolher uma rua, um poste, “não há uma ciência”, é “mais arte”, assegura a Bicycle Mayor. “Tem que se medir” e “nem sempre é melhor” colocar a bicicleta em lugares onde passam muitas pessoas, porque, explica, nesses casos “há uma difusão de responsabilidade” pelos transeuntes, as pessoas veem mas esperam que seja o outro a agir.

Ana Sousa Pereira recomenda a utilização de cadeados em U, como o da imagem. Foto: Frederico Raposo

Escolhido o lugar para prender a bicicleta, importa prender o quadro da bicicleta ao suporte escolhido. Aqui, uma das prioridades deve ser “minimizar-se o espaço que fica dentro do cadeado, para que não seja possível pôr lá ferramentas para o quebrar”, explica. Do mesmo modo, deve “evitar[-se] prender a bicicleta e o cadeado de forma a que esta possa ser usada como alavanca para torcer o cadeado”.

Se o cadeado não chegar também a outros componentes, Ana aconselha a utilização de porcas especiais para trancar as rodas e selim. Neste caso, a probabilidade do furto destes componentes é minimizada pela necessidade de uma ferramenta especial. Foi o que fez. Desta forma, conta, “tenho que levar menos cadeados comigo”.

1400 novos estacionamentos em 2021

Se, durante muito tempo, os postes da cidade foram a única solução para o estacionamento de bicicletas, hoje o cenário está a mudar. Pela cidade de Lisboa estão espalhados 1067 locais destinados ao estacionamento de velocípedes.

Isto significa lugar para 8517 bicicletas. Segundo fonte do gabinete do vereador Miguel Gaspar, responsável pelo pelouro da mobilidade, só em 2020 foram instalados 880 suportes de estacionamento em 350 locais distintos.

Para este ano está prevista a instalação de “pelo menos” 1400 suportes. Cada um destes suportes permite o estacionamento de duas bicicletas, o que significa um acréscimo de capacidade de estacionamento de 2800 lugares destinados a estes veículos em 2021. Quem não tem um suporte de estacionamento para bicicletas na sua rua, pode solicitar a sua instalação através da plataforma do município Na Minha Rua ou ainda através do portal Cidade Ciclável, da MUBi – Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta.

Está ainda prevista para 2021 a instalação de suportes de bicicleta em 11 interfaces de transporte público da cidade: Alcântara, Gare do Oriente, Cais do Sodré, Santa Apolónia, Terreiro do Paço, Sete Rios, Campo Grande, Entrecampos, Benfica, Pontinha e Restauradores-Rossio.

Serão criados, no total, 1700 lugares. Para já, serão instalados nestes locais 170 suportes de estacionamento e encontra-se “em análise” a implementação de “biciparques cobertos e de acesso restrito” em interfaces.

Novos parques debaixo de terra

A Emel, empresa municipal de mobilidade, acabou de apresentar o primeiro Bicipark da cidade, no Lumiar – uma estrutura de “estacionamento seguro de bicicletas”. Já funciona desde novembro de 2020, mas apenas agora foi tornado público.

A este seguir-se-á a abertura progressiva de uma rede de estacionamentos de acesso limitado e que, numa primeira fase, será constituída por 13 parques cobertos Emel, com uma capacidade total para “cerca de 200 bicicletas”.

Há um sistema de videovigilância que permite o controlo das entradas e saídas e o interior de cada parque conta com suportes para bicicletas convencionais e bicicletas de carga. O acesso a estes parques faz-se mediante inscrição e através do cartão de transportes da cidade, o Lisboa Viva. “Para quem não tem dístico ou alguma avença num parque Emel”, a utilização destes parques é gratuita, conta Sofia Taborda, diretora de inovação e soluções de mobilidade da empresa municipal. Para quem tem dístico, o valor de utilização dos parques é de sete euros mensais.

O preçário para o acesso aos Bicipark tem o objetivo de “posicionar o utilizador de bicicleta a par com o utilizador de automóvel no acesso ao estacionamento”, conta a responsável da Emel, já que o novo Regulamento Geral de Estacionamento da cidade determina que o primeiro dístico de residente passa a ser gratuito.

A rede de Bicipark da Emel. O único a funcionar é o do Lumiar. Fonte: Emel

Para já, serão treze. “Depois, logo se vê”, diz Sofia Taborda. Certo é que existem “acordos de cooperação” com outros parques, concessionados a entidades privadas, que permitem uma expansão futura da rede. Decorre agora um “período de seis meses de monitorização e avaliação”, à procura de “afinar” o produto e os tarifários de acordo com a experiência de utilização e a avaliação dos utilizadores.

Estas estruturas destinam-se ao estacionamento prolongado de bicicletas, apresentando-se como solução para quem não consegue guardá-las em casa. O alcance, contudo, é ainda limitado. “Só chegam a uma porção de pessoas que moram nas imediações”, sublinha Ana Sousa Pereira.

E ideias para mais soluções?

A embaixadora para a utilização da bicicleta em Lisboa avança com uma, muito concreta: considera “fundamental” a implementação de “cacifos na rua”, para “quem já está à procura” deste tipo de soluções de estacionamento. Fonte da vereação da mobilidade confirma que está em “análise” a “instalação de biciparques em zonas residenciais”.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 28 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta – , o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.


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4 Comentários

  1. “Saber estacionar”… Já não é mau que saibam estacionar. Talvez devessem aprender também a respeitar alguns códigos: O da estrada. O do civismo. O do respeito…
    Quando é que começam a ver que os semáforos não estão lá apenas para dar cor às ruas? Que aquilo de “sentido proibido” não é só pra carros? Que os peões não são pinos pra fazer slalon pelos passeios? Quem vê as ruas da Lisboa no séc XXI só pode pensar nas imagens da cidade nos princípios do XX. É o vale tudo!
    Senhores ciclistas, querem mostrar que a bicicleta é uma forma evoluída de locomoção? Mostrem-se mais civilizados que os automobilistas! Qualquer um que circule em Lisboa sabe que isso não deveria ser difícil!
    Já agora, permitam-me uma pergunta: os vereadores que todos os dias espalham ciclovias pelas ruas e vão paulatinamente interditando o estacionamento, como é que se deslocam para o trabalho? Outra pergunta: quantas viaturas tem atribuída a CML para deslocação dos seus quadros superiores? Quantos lugares de estacionamento reservados? E, queiram perdoar a curiosidade: Quanto gasta só em publicidade, a CML a promover a disseminação de bicicletas?

  2. Eu investi numa boa bicicleta eléctrica mas que acabou por ser muito pesada (30kg) para a levar até a um 3º andar sem elevador (para além de que não tenho muito espaço para ela) e portanto a ideia de ter um cacifo de rua é maravilhosa.

  3. Bicla eléctrica? Amigo Luis, há 2 mil anos o JC arrastou-se pelas ruas de Jerusalém com uma cruz aos costados, supostamente pra pagar os nossos (muitos e horrendos) pecados. Comparado com isso o que é suar a subir 3 andares com a boa bicicleta eléctrica às costas? Até serve de penitência, por estar a contribuir para as minas de lítio! Vá! Força! Toca a pagar em suor a falta de coragem de comprar uma bicicleta verdadeira! Só custam as primeiras 5 mil subidas, depois vai ver que esses três andares até sabem a pouco!
    PS – Já nem precisa de ir ao ginásio!
    PPS – Assim, os tais cacifos de rua até podem servir pra armazenar os bens dos sem abrigo! Tá a ver? Um concentrado de boas acções!

  4. a mobilidade está na moda, é certo,no entanto do meu ponto de vista não faz sentido investir tanto dinheiro em infraestruturas dessas,se virem bem,nunca estão colocados nos sítios que interessa às pessoas….se compararem,por ex com os parques,nunca estão onde gostaríamos que fossem. Supostamente as pessoas é que escolhem os caminhos e não o contrário…

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