Filipa Taipina é terapeuta e professora de canto e mudou-se há 20 anos para a Avenida Dom João II, no Parque das Nações. Era tudo novo, e durante muito tempo ela esperou pelo crescimento das árvores que havia à frente do seu prédio. “Com a fachada virada a poente, os verões eram realmente difíceis de suportar. A minha irmã, que é arquiteta, dizia-me: espera e verás.”

E tinha razão. As árvores cresceram. E não só a temperatura se tornou mais amena, como a qualidade do ar melhorou muito, é o que garante Filipa. Uma espécie de aula de ambientalismo, em direto e na vida real.

Devia ser um sentimento unânime, este. Mas não é. Nem todos os moradores deste quarteirão na zona sul do Parque das Nações partilharam da alegria de Filipa com o crescimento das árvores em frente aos prédios. Há aproximadamente um ano, conta a própria, uma vizinha chegou a abordá-la no sentido de, juntas, organizarem um grupo que solicitasse à junta de freguesia nada mais, nada menos do que o abate destas mesmas árvores. As que tinham levado anos a crescer.

E porquê?, perguntou Filipa, certamente com ar de escândalo. A queixosa explicou que não só se sentia prejudicada no seu direito ao acesso à luz natural e à paisagem como temia pela segurança da sua casa. E se um intruso trepasse uma das árvores e entrasse por uma janela?, perguntava. “Isso é um completo absurdo”, contrapôs Filipa. “As árvores estão tão afastadas dos prédios que tornam impossível qualquer tentativa de intrusão deste tipo.”

Filipa esperava que o assunto tivesse morrido por ali, na tentativa falhada de recrutamento para uma causa, não só injusta, como anti-ambiental. E este ano, à semelhança do que acontecera em anos anteriores, quando a Junta de Freguesia mandou proceder às podas sazonais, através de uma empresa contratada para o efeito, achou que estava tudo normal.

Podas mais que sazonais

Mas uma conversa ocasional com um dos trabalhadores envolvidos nos trabalhos despertou-a para que algo podia correr mal. Pelos vistos, a vizinha queixosa não estava sozinha, e havia centenas de e-mails recebidos pela Junta a solicitar o abate das árvores em causa. A confirmar esta informação, poucos dias antes da Páscoa, Filipa e os demais condóminos do prédio receberam um e-mail da administração a informar sobre uma tal poda “muito invasiva” que estaria agendada para a 2ª feira seguinte. Na origem da intervenção lá estavam os tais protestos de alguns moradores, incomodados pela diminuição da luz e níveis de segurança. 

O que fazer? Filipa, o marido e os vizinhos que pensam como eles contactaram as administrações dos condomínios em questão e a Junta de Freguesia do Parque das Nações, mas, em pleno fim-de-semana da Páscoa, “era certo e sabido que nada se decidiria e que na 2ªfeira, às 8 da manhã, lá estaria a equipa de trabalhadores pronta a intervir”. O que se confirmou, mas com uma surpresa para quem chegava munido de escadotes e serras elétricas: sentados nas árvores estavam já, apesar da hora matinal, vários manifestantes, entre os quais Filipa. Para subir, usaram um simples escadote, que as árvores, apesar de tudo, não estão assim tão altas.

Veio a chefe da equipa, que disse compreender as razões mas não podia garantir que a equipa não voltasse ao local para concluir o serviço. O que veio a acontecer pouco depois, mas já com o compromisso da própria Câmara Municipal de Lisboa de que as árvores continuariam a ser podadas, mas jamais seriam abatidas.

Defesa das árvores nas mãos dos cidadãos

Mais uma vez, como recentemente tem acontecido, um grupo de moradores toma nas suas mãos o destino do património verde que o rodeia. E ganha a batalha. Este caso do Parque das Nações é o episódio mais recente da defesa do património arbóreo de Lisboa por iniciativa de um movimento de cidadãos. Foi, por exemplo, o inconformismo dos moradores das escadinhas da Rua de Manchester, no Bairro de Inglaterra, impediu a destruição de várias tílias e uma olaia que estavam já sinalizadas para abate.

Para Rosa Casimiro, da Plataforma pela Defesa das Árvores, estes movimentos localizados, independentemente dos resultado obtidos, demonstram que as atitudes da população estão a mudar. “Claro que ainda há grupos de moradores que se insurgem contra a existência de árvores que supostamente lhes sujam os automóveis ou que lhes retiram, dizem, um lugar de estacionamento, mas a maioria não é assim. Há uns 30 anos o abate de uma árvore com décadas de vida era encarado com indiferença. Hoje não é assim e decerto sê-lo-á cada vez menos.” 

Salvar também os pássaros

Para Filipa Taipina, ações como esta “ainda são poucas para as muitas necessidades que há em Lisboa e no país.” E conclui: “Infelizmente sinto que a consciência do bem comum ainda não está generalizada. Se falamos de ambiente ainda há quem coloque os seus interesses particulares à frente dos da comunidade.”

No caso do prédio do Parque das Nações, as árvores foram salvas, e a qualidade de vida dos moradores ficou assegurada. Mas também, como tantas vezes acontece em casos como este, a de um bando de pássaros, verdilhões, que habitualmente nidificam nestas árvores. E vão, graças à coragem dos habitantes, continuar.


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.


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6 Comentários

  1. Parabéns para quem se manifestou e salvou as árvores!! Neste caso nao havia nenhuma razao que justificasse o abate.
    Como morador no parque das nacoes, têm o meu total apoio!

  2. O episódio na Rua Cidade de Manchester remonta a novembro de 2016, não é recente.

  3. Durante o alargamento da Av Marechal Gomes da Costa, todos os Plátanos do separador central então existente, foram Eliminados de forma violenta, tendo merecido alguns Comentários internos dentro da Parque EXPO’98, por alguns trabalhadores mais sensíveis, chocados com a forma violenta como aquelas árvores estavam sendo mortas, e mereceram então uma repreensão oficial dos altos responsáveis das Áreas envolvidas nas obras então chamadas de requalificação da Avenida

  4. No Bairro das Caixas em Alvalade, onde o poder local continua a destruir o património ambiental e arquitectónico dos seus logradouros verdes e comunitários, foram e estão para abater árvores de fruto e outras plantadas pelos moradores. Estas árvores são apresentadas em projecto como não existentes, sendo abatidas à revelia da lei. Todas árvores abatidas até ao momento, foram-no antes da chegada do estudo técnico-científico do ISA.
    Continuo a aguardar pelo interesse da Mensagem de Lisboa na destruição dos logradouros verdes de Alvalade para parqueamento EMEL. A escavadora voltou…

  5. AS ÁRVORES SÃO O NOSSO PULMÃO E COM A PANDEMIA MAIS FALTA NÓS FAZEM.
    PRECISAMOS DE RESPIRAR E PROTEGER! OS PASSARINHOS AGRADECEM… TOMAR CONSCIÊNCIA, É PRECISO!

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