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Olá, vizinho/a!

Vésperas de derby em Lisboa, título em jogo, a sombra de um homem com asas paira sobre a rotunda do Santo António. É um pássaro? Um avião? Não, é o Homem Águia de Alvalade, esfinge mitológica, parte humana, parte águia, parte leão, parte dragão, tragédia grega lisboeta, o enigma na ponta da língua: decifra-me ou devoro-te. Vi-o com os meus olhos – eu, quem lhe escreve hoje, Álvaro Filho.

A diferença é que em Lisboa sai Édipo e entram os pombos, altera-se também o aviso, surge uma nova ameaça: decifra-me ou devoro o teu almoço.

Todo santo dia Pedro circula pelo Centro Comercial Alvalade, bem em frente ao Santo António de pedra na rotunda, desfila sereno, a águia imponente pousada no braço, Pedro para lá e para cá em frente ao santo, funcionário modesto, silencioso, um franciscano diferente, sem sandálias, sem pombos, a águia nos braços para espantar justamente os pombos dos pratos dos clientes.

É assim que Pedro e a águia ganham a vida, garantindo a paz no almoço dos clientes do centro comercial, o prato cheio, a esplanada vazia dos pombos, temerosos da águia.

Mas criança não tem medo de nada, nem de águia. O menino aproxima-se, telemóvel em punho: “senhor, senhor, uma fotografia”. Pedro sorri: “claro que sim”. A águia, se tivesse dentes, também iria sorrir para a foto. O menino afasta-se, não sem antes perguntar: “a águia é por causa do Benfica?”

Pedro balança a cabeça, nem que sim nem que não. A águia concorda.

Mas por quem, afinal, o Homem Águia de Alvalade torce?

A horas do derby em Lisboa, a pergunta que se impõe: por que clube torce este Homem Águia: Benfica ou Sporting? Foto: Álvaro Filho.

Pedro não se permite muita conversa, o patrão não gosta de entrevistas, a águia aparentemente também não, eriça as penas, agita as asas diante do cronista, o ameaçador flash do telemóvel, Pedro controla a fera alada nos braços e o pássaro, impávido, volta à paz, sempre pronto para a guerra.

Insisto na conversa, Pedro é uma boa história para se desistir tão fácil, Pedro uma releitura do mito helênico, um Prometeu agrilhoado não à árvore, mas acorrentado à ave de rapina, o castigo como metáfora do destino de todo trabalhador, preso aos elos da corrente do trabalho por toda a eternidade.

Em matéria de castigo, os gregos nunca brincaram em serviço.

No caso de Pedro, a eternidade dura há dois anos, tempo em que circula por Alvalade na companhia da ave, da águia, o pássaro ostentando um nome que sugere outras paragens, outras latitudes, outros clubes, a águia chamada Nortenha.

Benfica, Sporting, Porto?

Por quem, afinal, o Homem Águia de Alvalade torce?

Pedro e a águia são o trabalhador ideal para os dias de hoje, funcionário do mês, fotografia na parede, operários à prova de apagão – Pedro não funciona à eletricidade, a águia dispensa a internet, ciborgues analógicos, sincronia perfeita, falta a luz, cai a rede em Alvalade e os dois lá, firmes, para sorte dos clientes (azar dos pombos).

Mas, falando em luz, falando em Alvalade, por quem, afinal, o Homem Águia de Alvalade torce?

Pedro, uma águia, a águia é Nortenha, os dois em Alvalade, Pedro disfarça, o patrão não gosta de entrevistas, a águia já ressabiada perante a presença do cronista, diante da insistência do homem metido no fato de ginástica, duas sacolas do Pingo Doce nos braços, a águia olhos nos olhos do cronista.

A águia, um homem, um clube, um enigma, decifra-me ou devoro-te.

Os pombos farejam a tensão no ar e batem as asas, afastam-se, mais seguro é a cabeça do santo de pedra na rotunda.

O cronista insiste, a história é boa, vésperas de derby em Lisboa, vésperas de decisão de título, os leitores vão gostar de saber por quem o homem e a águia pousada no braço torcem, a águia parece torcer mesmo para que o cronista vá embora, já não quer saber de conversa, irritada, olhos de águia nos olhos do cronista.

A insistência do cronista persiste, muda-se o esquema tático, perguntas banais para driblar a defesa ferrenha, finge-se que vai, não vai.

Mas Pedro é defensor das antigas, não cai fácil em finta de avançado de araque, rechaça a ameaça, chuta a bola para a bancada, a regra é clara, o patrão não gosta de entrevistas, nem que seja entrevista que vale uma boa história, que vale título, que vale volta olímpica no Marquês, a dúvida então persiste, a resposta vai ter de esperar. 

É o jeito, na segunda volto lá para ver se há uma faixa no peito de Pedro.

E se há ou não um sorriso no rosto da águia.

É que estamos a poucas horas do derby em Lisboa.

Até breve.

– Álvaro Filho