Há mais de um ano, Rafael Gomes, 24 anos e copywriter de profissão, ligou ao amigo André Coelho, 24 anos e designer, com uma ideia inusitada. Um precisava de uma casa porque o senhorio ia aumentar a renda. O outro porque morava em Sesimbra, fazendo quase três horas até Lisboa quando em transportes públicos. Mas o mercado de arrendamento na capital “é doido”, alugar ou comprar está cada vez mais difícil. Então, tiveram esta ideia: “Olha lá, e se fizéssemos uma fonte tipográfica baseada num T2 em Lisboa?”. E vendessem, precisamente, ao preço possível de um T2 na cidade: 486 mil euros.

Ao lado da Times New Roman ou da Comic Sans, lá estaria ela, a T2 Lx. O “ok”, simples e direto, de André naquela chamada fez o projeto arrancar.

Um exemplo de um texto com a fonte tipográfica T2 Lx

Através de um link da plataforma Go fund me, cada pessoa pode doar no mínimo 5 euros e no máximo 100 mil euros. Até agora, os dois amigos angariaram 119 euros.

Imagem do site do projeto T2 Lx

Um T2 que é uma “revolta criativa”

Rafael e André conheceram-se na Avenida da Liberdade, como colegas de trabalho. Foi exatamente aqui que propusemos que se voltassem a juntar, anos depois, para falarem deste projeto que os une e que é uma luta contra a crise da habitação. Numa freguesia, a de Santo António, onde os dados do INE (Instituto Nacional de Estatística) de 2024 revelam que o preço mediano das casas era o mais elevado de Lisboa (5 879 euros/m2).

Bem acima da média da cidade, a mais alta do país (4 340 euros/m2).

Lisboa, para Rafael Gomes e André Coelho, tem sido sinónimo de revolta. “Lisboa não nos recebe assim tão bem, parece que não somos bem recebidos aqui, então, surge a fonte como uma quase revolta criativa”, defende Rafael. 

Foto: Rita Ansone

Um projeto que dizem ser apolítico, embora aborde uma temática presente em todas as agendas políticas deste ano. “Queríamos falar de habitação de um ângulo neutro”, defende André.

A fonte não é apenas uma fonte tipográfica, acreditam. “O T2 LX é uma fonte de informação e uma fonte de rendimento”. Fonte de informação porque pretendem ser “um elo de ligação”, partilhando informações nas redes sociais, “entre quem procura casa e quem tem” casas para arrendar ou vender, partilha Rafael. Mas também uma fonte de rendimento, porque esse é o objetivo último: conseguirem angariar dinheiro para um T2.

E se não conseguirem alcançar os 486 mil euros? “Pensamos que vai acontecer, nós acreditamos no projeto”, manifesta Rafael, otimista. André tenta ver todos os cenários: “Partindo do princípio que não chegaremos a esse montante, disponibilizaríamos a fonte a todas as pessoas que já contribuíram”.

Foto: Rita Ansone

Entretanto, a procura por uma casa em Lisboa destes dois amigos tornou-se igualmente um cartão de visita profissional: “De repente, dentro da área em que trabalhamos [Publicidade], toda a gente começa a conhecer o projeto”.

Rafael lembra que “um objetivo giro de fonte é vê-la a ser utilizada em outros tantos meios, por outras tantas pessoas e, de repente, ser uma fonte que é realmente reconhecida”. Como a velhinha Comic Sans.

Imagem do site do projeto T2 Lx

*Texto editado por Catarina Reis


Gonçalo da Silva Amaral

Nascido em Lisboa, mas criado na Margem Sul do Tejo, apaixonou-se por contar histórias na Avenida de Berna ao estudar Jornalismo. Veio para a Mensagem de Lisboa fazer o que mais gosta: conhecer e contar as histórias.

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2 Comments

  1. Sesimbra fica a 3 horas de Lisboa? Epá, please…
    Tenho este incrível site em muito boa conta, mas esta é de+…

    Obrigado!

  2. Olá, Nuno
    Obrigada pelo comentário!
    De carro, Sesimbra parece bastante mais perto. Mas de transportes, que é o caso, a viagem pode chegar às três horas. Vamos clarificar no artigo.
    Boa semana!

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