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“As cidades nasceram para conversarmos”, diz Daniela Sá. E é isso que se vai fazer neste fim de semana, 10 e 11 de maio, na edição deste ano da Open House Lisboa, que Daniela e João Carmo Simões, arquitectos, curaram. Conversar sobre arquitetura em Lisboa, na Open House Lisboa, em casas que se abrem ao público, lugares explicados por arquitetos e passeios que contam a cidade. Integrada na Trienal de Arquitetura, a OHL vai passar pelos lugares que permitem as conversas na cidade, da cidade, pela cidade.
Por isso a edição deste ano se chama A Invenção de Lisboa, e é um convite a pensar sobre o que faz a cidade, dos prédios e edifícios às infra-estruturas, espaços invisíveis, os que percorrem a cidade e a tornaram no que ela é.
Numa Lisboa em permanente mudança, o que constrói Lisboa? Como queremos vivê-la em conjunto? O que faz Lisboa ser Lisboa? Que peças são essas que constroem uma ideia de Lisboa? A resposta, ou as pistas para a resposta serão dadas em parte nas visitas que Daniela Sá e João Carmo Simões imaginaram. Os dois curadores são arquitetos e fundadores da editora Monade.
“É nestas ligações que está a base da invenção da arquitectura da cidade, esse sistema complexo de camadas de que nem sempre existe uma consciência, mas que determina o dia-a-dia de quem a habita e a forma como se vivem e se sentem os espaços.”
João dá um exemplo: uma cidade com colinas que tiveram de ser debeladas, ligadas, cortadas, para que a circulação se fizesse. Para que a conversa corresse fluída entre as ruas de cotas diferentes, os pátios, escorresse dos aquedutos.
A cidade, diz Daniela é “a maior invenção humana que construímos juntos”. E é também por isso que o texto da OHL lembra que “o modo como desenhamos uma cidade tem um impacto decisivo na qualidade de vida de quem a habita”.
Há 72 espaços para visitar, entre eles, em estreia, 23, como a Casa Ásia, o estúdio InSound, o Atelier RAR.STUDIO, o Apartamento T, a Casa no Castelo, o Instituto Marquês de Valle Flôr, o Centro de Congressos de Lisboa, ou a Igreja Italiana de Nossa Senhora do Loreto, no Chiado, o UNI Cocktail Bar, o Panteão Nacional, o Instituto Camões, a Torre Fontes Pereira de Melo 41, entre outros. Veja aqui a lista.
O programa inclui também os Percursos Urbanos:
- Aqueduto de Lisboa, por Mara Fava e Margarida Filipe, que são 3,5km, um mergulho nesta emblemática obra hidráulica.
Ponto de partida: Aqueduto das Águas Livres Sábado às 10h00 - A Ribeira de Lisboa por João Gomes da Silva e Inês Norton, sobre a convivência da cidade com o rio Tejo na frente ribeirinha.
Ponto de partida: Mosteiro de São Vicente de Fora, Sábado, 14h30 - A Colina Acessível por João Favila Menezes, onde se re-equaciona a acessibilidade entre a parte baixa da cidade e a colina do castelo.
Ponto de partida: Edifício na Rua dos Douradores, Domingo, 10h - Do Arco ao Rossio, uma viagem pela racionalidade Pombalina por Anísio Franco, no qual se analisa o complexo urbanístico da Baixa Pombalina, de Manuel da Maia e de Eugénio dos Santos, o seu presente e o seu futuro.
Ponto de partida: Supremo Tribunal de Justiça, Domingo, 15h
Além destes há também os Passeios Sonoros, com Daniel Blaufuks, Anabela Mota Ribeiro, Leonor Teles, Rui Tavares e Gonçalo M. Tavares, entre outras personalidades, estão disponíveis para escuta, o Programa Plus com atividades especiais e o Programa Júnior.
Daniela Sá e João Carmo Simões conversaram com a Mensagem no sotão da Igreja do Loreto, um dos locais escolhidos para a visita.

O tema da Open House é a invenção de Lisboa. Uma cidade inventa-se muitas vezes na sua história. É o que está a acontecer com muita força, agora. É sobre isto que é a Open House este ano?
Daniela Sá – Esta Open House dirige-se muito ao centro da arquitetura, como criação de um sistema que liga tudo. Como a possibilidade de podermos conversar em conjunto. A maneira como nós nos relacionamos uns com os outros está sempre a evoluir, muda tanto ao longo dos tempos, que a cidade também só pode mudar. E a cidade reinventa-se muito por isso. E nós reinventamos a cidade e a cidade também nos reinventa.
O desenho dos espaços que habitamos e por onde fazemos o nosso dia-a-dia determina muito e influencia muito a maneira como nós lidamos uns com os outros. As cidades nasceram para nós podermos conversar. E isso vai mudando muito e a cidade muda com essa conversa.
Como escolheram os lugares para explicar essa mudança? Imagino que não sejam só casas, ou não só edificios, e a arquitetura é tudo isso, mais o urbanismo…
João Carmo Simões – A arquitetura é tudo, não é só os edifícios, não é só entre outros edifícios, não é só uma parte do edifício, é a relação com o todo. E o todo extravasa para além do edifício. E a cidade também tem uma arquitetura. E é isso que nós reconhecemos como Lisboa. Há uma coerência na maneira como são construídos os edifícios, as pedras, a maneira como nós nos relacionamos com o território. Por exemplo, nós em Lisboa estamos em permanente desnível. E é ver como esta arquitetura pombalina, por exemplo, com uma racionalidade muito grande, conseguiu ligar cotas da cidade muito diferentes e articular sistemas de cotas muito diferentes, que são muito complexos de uma maneira que construiu a cidade! E isso é que nós gostávamos de tornar mais visível, de tornar essa consciência da importância de desenhar a cidade e de pensar a cidade. E a importância dos arquitetos conseguirem ter espaço para desenhar.
Por exemplo?
JCS – A Rua do Alecrim, aqui, mesmo ao pé de nós, é uma rua que resolve um problema de cota, de ligação. Nós agora descemos a Rua do Alecrim, chegamos ao Cais Sodré, a uma cota baixa. Mas existia ali uma escarpa, não é? Então construiu-se uma rua sobre arcos, que permite passar mais duas ruas por baixo e temos edifícios, por exemplo, no Largo do Corpo Santo, que entramos numa porta, subimos as escadas, chegamos ao quarto andar e saímos noutra rua do outro lado. Ou aqui o Metro da Baixa Chiado, que é uma intervenção mais próxima de nós no tempo, mas que ligou duas cotas da cidade, a Baixa ao Largo de Camões. De forma mecânica, não precisamos chegar cá acima a suar. Portanto, a arquitetura tem esta capacidade, se for pensada como um sistema, perante um problema, uma questão para resolver, resolver em articulação total e dando-nos um contributo para o nosso dia a dia muito importante.

DS – Todos os passeios urbanos da OHL são um excelente exemplo disso. A Racionalidade Pombalina, pelo Anísio Franco, é exatamente sobre esta invenção de um troço grande de cidade e de uma maneira de viver, nova na altura, e que ainda hoje nos influencia tanto. O passeio do João Gomes da Silva e da Inês Norton. sobre a ligação que a cidade tem com o rio Tejo, sobre toda essa mudança que é muito sistémica, que tem todas as disciplinas das ciências naturais e todas as disciplinas das ciências sociais a ligarem-se nessa fronteira, que foi sempre sendo alterada ao longo do tempo e às vezes nós não temos exata consciência disso. Outro exemplo é o passeio da colina acessível com o arquiteto João Favila, em que percorre estes sucessivos obstáculos naturais que Lisboa tem e como os ultrapassamos com mecânicas. O João Favila é autor de uma série de projetos que estabelecem uma ligação por elevador, por escada rolante… Mas também temos obras mais infraestruturais que são imagem da cidade, como o Aqueduto das Águas Livres.
JCS- Construir infraestrutura é uma oportunidade para fazer arquitetura e dar um contributo à cidade muito grande. E isso é que era importante ressaltar. E por isso este tema da invenção de Lisboa é para nos centrar nesta ideia de que tudo o que nós fazemos na cidade é um contributo. Podemos fazer um contributo pequeno, isolado, ou podemos fazer um contributo que ampara muita construção de cidade, que desenhe cidade.
Lisboa é uma cidade particularmente difícil de reinventar por causa dessas camadas todas que tem para trás, ou não?
DS – Eu acho que talvez seja mais fácil por isso. É muito sugestivo e tem sempre muitos estímulos. A invenção é também um fenómeno cultural que nasce de si próprio. Brota essa instabilidade, essa insatisfação que faz girar e que faz inventar de novo. Por isso eu acho que não é mais difícil por isso. Porque temos sempre um contexto. Não há desertos. Temos sempre um contexto. Maior, menor, mas ele está lá sempre. E realmente esta passagem, esta transição entre um passado e um futuro, essa tensão, que é uma tensão, e a tensão projetual também, como arquitetos, ela é um dado da questão, é a natureza da invenção da arquitetura, essa tensão entre o passado e o futuro.
JCS – E há um legado de fazer arquitetura, que construiu a cidade e que nós reconhecemos em Lisboa, que nos ajuda a projetar hoje em dia. Estas ligações de cota, estas relações, tudo isto permite, dá-nos ideias, dá-nos forma, nós temos de continuar este projeto comum que é a cidade.

Há bocado a Daniela falou de cidade construiu-se para que as pessoas conversassem. E uma das coisas que nós não podemos deixar de falar é a parte social da cidade, que está em muito acelerada modificação desde há uns anos para cá. A cidade hoje é completamente diferente daquela que nós conhecemos há 20 anos. Que efeito é que isso tem depois em quem constrói? É arriscado?
DS – Estes atos são sempre muito arriscados para o bem ou para o mal. Fazer projeto, fazer arquitetura é uma tarefa de risco. E por isso é preciso estar sempre muito atento ao que se está a fazer e quais são os impactos. Eu acho que a arquitetura se calhar não mudou assim tanto. Uma vez que nós habitamos bem e alegremente edifícios que são do século XVII ou XVIII.
Porquê?
DS – Porque os problemas principais da arquitetura são os da natureza humana. Apesar de realmente as alterações serem cada vez mais velozes, há ali um corpo da natureza humana que é relativamente imutável a longo dos séculos. E a arquitetura estabelece muito aí, as suas raízes estão aí. Como vivemos, o que é que queremos viver, como é que encaramos a nossa vida. É sempre um campo de estabilidade, mas as raízes são sempre, teremos as mesmas. E é por isso que podemos usar bem edifícios muito antigos, mas a tecnologia não. A tarefa dos arquitetos é estar atentos a essas transformações sociais e conseguir no seu campo dar um contributo para isso. Eu acho que essa também é um pouco a razão pela qual nós pusemos este tema agora, a Invenção de Lisboa, para perceber que a cidade é um problema de todos, que impacta todos. É um sistema e que não pode ser visto às partes, nem pode ser visto com impactos apenas particulares, porque eles nunca o são, apenas são isso. Por mais que a nossa ação até possa achar que sim, todas as consequências são sistémicas grandes. Por isso é que trazemos um bocadinho também este tema, para trazer a atenção das pessoas aos espaços onde estamos todos os dias, mas que raramente olhamos. A inteligência das coisas, o desenho, porque é que está lá, o que é que quer dizer, e isso também é para nos informar a estas transformações futuras.
Os estrangeiros que nos visitam conhecem melhor Lisboa do que os próprios lisboetas?
DS – Acho difícil. Mas isso é uma daquelas perguntas como conhecer a família. Às vezes estando dentro é difícil ter essa visão exterior que um estrangeiro terá. Mas parece-me difícil que alguém de fora conheça bem o sistema tão bem como nós, quem está.
Porque escolheram o sotão da Igreja do Loreto para esta entrevista?
JCS – Estamos num sítio que não é acessível, normalmente. Estamos nas costas de uma estátua, que também não se vê da rua, ninguém dá por ela, é muito difícil. Precisa de uma atenção muito grande, de uma paragem no tempo para conseguirmos ver. Conseguimos antever o rio, um pouco, e estamos num sítio nevrálgico da cidade. E de repente conseguimos perceber a cobertura do edifício como é uma igreja, a estrutura, tudo o que está aqui à volta, mostra-nos a complexidade que custa construir e a importância de construir com cabeça e com sentido.
Para muito tempo.
DS – Para muito tempo. Decidimos colocar-nos aqui, é um sítio um pouco improvável para uma entrevista, mas no fundo tem tudo a ver com o tema, que é lançar luz sobre os espaços menos vistos, mas que são aqueles que possibilitam os espaços principais.
A igreja de Loureto, em baixo, é uma igreja de nave-salão, que tem um vão livre muito grande. Isso só é possível por causa desta estrutura em madeira e asnas, que realmente é do século XVIII. E que tem este lado infraestrutural que permite o espaço. Por isso decidimos prestar atenção para este lado, esta parte da arquitetura, que torna as coisas possíveis. E este espaço é muito visível nisso.
O que é que Lisboa pode ensinar a um arquiteto que a escola não ensina?
JCS – Tudo, a nossa profissão é feita pelo olhar, não é? Temos constantemente de olhar para o nosso objeto de estudo e a construção. Portanto, nós estamos sempre a aprender. Eu estou a falar consigo, estou a reparar no remate do pilar atrás, da pilastra, de como é que remata nas curvas, etc. E Lisboa tem soluções muito engenhosas que são próprias da cidade.
DS – Também porque a cidade é a expressão máxima da arquitetura. E são os maiores confrontos, as maiores tensões, mas é também o maior almejo, a maior ambição da arquitetura. Construir cidade é construir comunidade, hipótese de relação. E por isso andar pela cidade não há exercício mais interessante para um arquiteto.
Há uma discussão sempre presente em Lisboa, sobre o velho e o novo, o que preservar e o que mudar? Qual é o velho que é referencial? E qual é o novo que devíamos fazer para criar nova cidade e fazer coisas que, de facto, marquem a cidade no futuro, para o futuro, de hoje para o futuro? Como é que vocês vêem isto?
JCS – Cada intervenção que se faz na cidade devia, sobretudo em partes históricas, em edifícios antigos, devia ser um destapar das camadas que existiram e conseguirmos interpretar a cidade e porque é que chegámos àquele ponto, porque é que estamos àquela cota, como é que chegámos até ali. E isso é tornar a cidade inteligível. Isso é muito importante. E depois é a partir daí, dessa inteligibilidade que damos aos edifícios, às partes de cidade, que vamos conseguir dar um contributo também maior no desenho e nas intervenções que se fizerem. Mais do que preservarmos elementos decorativos, partes, interessa perceber como é que um edifício, na sua origem, se relacionava com o território mais amplo e perceber como é que ele contribuía para a cidade. Qual foi o objetivo dele e como é que esse objetivo pode nos servir e ajudar-nos a potenciar aquele edifício. Mas uma intervenção que se faz hoje não pode ser, sobretudo com esta riqueza que nós temos de arquitetura, não pode ser uma intervenção autista. Entra-se naquele espaço e de repente podia-se estar no Japão, na China, nos Estados Unidos. Há um contexto, e esse contexto é importante. É preciso haver uma relação. É interessante essa relação continuar a existir, porque é o que dá o caráter à cidade, aos espaços, e o que nos faz sentir Lisboa um espaço tão único e que traz muita gente. Por esse caráter muito forte.
DS – Sim, há uma espécie de inteligência por trás de todas as coisas bonitas e que funcionam bem. E que nem sempre é facilmente captada. É muito trabalhoso percebê-la, é muito trabalhoso destapá-la. E por isso é que muitas vezes esse critério de preservar ou não, normalmente é pela via fácil, preguiçosa, que é pela via estilística. Ou quanto mais velho melhor, ou se é deste estilo que interessa, se não é. E isso é matar, é não ver a arquitetura. Realmente é este esforço que exige muito de perceber o que é que dali tem de raciocínio inteligente de solução para os problemas da vida, não só técnica.
JCS – Temos um exemplo disto que é o projeto da Ribeira das Naus do arquiteto João Gomes da Silva e do arquiteto João Nunes, que traz a história daquele lugar para a cidade e nas rampas de lançamento dos barcos permite-se fazer uma bancada verde para as pessoas poderem estar a olhar para o rio.
DS – E um espaço de estar.
JCS – E vai destapando uma série de layers que existiram de construções e a partir daí constrói projetos. Devolve a cidade com outro potencial, já não são os barcos, já não se constroem barcos ali, mas a partir daquele desenho do existente, da história.
Porque é que Lisboa é uma cidade cheia de muros.
DS – Não esquecer que a ditadura é muito recente, foi muito longa.
JCS – Há um exemplo gigante, muito recente da cidade, que é o Parque Eduardo VII. Podia ser um central park, um espaço de estar para toda a gente conviver, e é um espaço de representação. De aparato e para as pessoas não se encontrarem, não estarem.
