Basta de mendigar acessos: a acessibilidade não é um favor, é um direito. Estou cansada de ter de implorar. Cansada de pedir o mínimo, como se fosse um luxo. Cansada de ver uma sociedade que continua a ignorar as necessidades de milhões, como se a acessibilidade fosse um tema que só diz respeito aos outros.
Sou uma entre mais de um milhão de portugueses com deficiência. Muitos de nós trabalham, pagam impostos e contribuem todos os dias para o país. E se grande parte dos outros não o faz, é porque sair de casa é uma missão praticamente impossível. Ou isso, ou porque ninguém lhes dá trabalho, mas isso será tema para outra crónica.
Obras sem fiscalização, passeios mal rebaixados, sinais de trânsito no meio do caminho. Paragens de autocarro colocadas de forma absurda a bloquear passeios estreitos. Casas de banho que, quando existem, estão imundas ou servem de armazém para esfregonas e vassouras.
Estamos fartinhos de pedir o que deveria estar garantido por lei.
Vamos a um restaurante e já sabemos o que nos espera: entradas com degraus, mesas coladas umas às outras e onde não cabe uma cadeira de rodas (ah, espera…mas cabem muitos mais clientes!), casas de banho inacessíveis e sem adaptações, menus que não consideram quem não vê. E isto só para começar.
Inclusão? Sim, sim, pois claro.
Se vamos a um concerto, colocam-nos todos juntos, num “cantinho”, porque é “mais fácil assim, caso aconteça algo”. Mais fácil para quem? Inclusão não é ser separado — é poder escolher, poder circular, poder estar onde nos apetecer, com quem quisermos.
Falemos dos transportes públicos, que continuam a falhar redondamente. Falta formação, falta planeamento, falta vontade política. E, em tudo, falta empatia. Porque enquanto as pessoas continuarem a olhar apenas para os seus próprios umbigos, achando que a acessibilidade não lhes diz respeito, vai continuar tudo igual.
“E queixam-se?” Se nos queixamos! Enviamos relatórios. Escrevemos e mails. Apontamos o problema. Às vezes até a solução. E o que acontece? Quase nada.
Há leis, mas não há fiscalização. Há direitos, mas não há garantias. E nós, pessoas com deficiência, continuamos a viver numa espécie de exílio invisível, onde o mundo foi construído sem nos ter em conta.
Não queremos favores. Não queremos ser “mimados”. Não somos os eternos frágeis, nem os “coitados, pá!”. Somos cidadãos de pleno direito e queremos os mesmos direitos que todas as outras pessoas. Queremos circular, consumir, trabalhar, divertir-nos. Existir — sem obstáculos, sem desculpas, sem tretas.
A acessibilidade não é um extra. É uma condição básica para a igualdade. É um compromisso. E, enquanto continuarem a tratar este tema como secundário, estaremos a falhar — todos, relembro.
Chega de adiar. Chega de ignorar. Chega de “ter muita pena”. Chega de “ah, pois é, tens razão, Marta, não desistas!” e continuar a assistir a isto tudo confortavelmente sentados no sofá a mandar uns bitaites, como quem assiste a um Sporting–Benfica com a mania que faz parte da equipa de arbitragem. Saltem para o campo e joguem este jogo. Ele é mesmo de todos.
E lembrem-se sempre disto: se não é acessível, não é aceitável.

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