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Olá, vizinho/a!

O meu nome é Mariana Vital, recém-chegada à Mensagem como estagiária e quem lhe escreve hoje, porque tenho uma história para ser contada. A minha chegada é, aliás, uma consequência natural desta história. Do imaginário desta Lisboa onde cresci, na Calçada do Combro.

Quando fecho os olhos, ainda tenho lembranças da Lisboa onde comecei a alimentar a minha curiosidade que me fez querer ser jornalista nesta cidade: lembro-me das tardes passadas nos recantos da Baixa de mão dada com a minha avó, costureira, à procura de tecidos para fazer fatos, botões de todas as cores e feitios, fechos para as calças…

A paragem seguinte era a Calçada do Combro, onde os meus avós iam cortar e costurar na sua alfaiataria.

A Calçada do Combro, há muitos anos. Foto: arquivo dos meus avós

Cresci em Santa Catarina, no rebuliço dos familiares, amigos e vizinhos que entravam na loja dos meus avós só para dizer “olá”, ou para contar as novidades da semana, passar o tempo, fazer conversa. “Olá” à Maria do Cabeleireiro, “olá” à Flávia do talho, “olá” ao senhor Ulisses do café Bijou. O atelier era um negócio de família, mas não era só isso: era casa de muitos, uma pequena cidade.

Foi nesta loja que espicacei a curiosidade nas histórias que os vizinhos e amigos contavam. Passava dias inteiros na loja, a brincar com botões e a falar com os meus botões também.

A Jovil Modas migrou do final da Calçada do Combro – onde o meu bisavô tinha a sua oficina, em casa – para o cimo rua. Abriu em 1977, numa parceria entre o meu bisavô – o pai da minha avó – e o meu avô – o genro.

A fachada da Jovil Modas. Foto: arquivo dos meus avós
O meu avô. Foto: arquivo dos meus avós

A minha avó nascera nessa mesma rua, na Calçada do Combro. Há 75 anos vive aqui. 

Desde pequena que ouço histórias da rua das sapatarias, que era vizinha de um bairro de jornais, ao lado dos cafés onde se sentavam a escrever Fernando Pessoa e Almada Negreiros. Nas mesmas ruas onde passaram os tanques em direção ao Carmo, no 25 de Abril de 1974. Nessa rua do Mundo e da História, todos eram vizinhos, todos se conheciam e sabiam os nomes das mães e dos irmãos.

À porta da Jovil Modas. Foto: arquivo dos meus avós

Apesar de não ter vivido 75 anos na Calçada do Combro, vivi o suficiente para ter assistido à mutação desta zona histórica de Lisboa, da Baixa-Chiado, da rua onde cresci e, com ela, de toda a comunidade que ali vivia. Vi o talho da Flávia tornar-se numa loja de souvenirs, o cabeleireiro da Maria desaparecer para os ímanes e outros pechisbeques, o café Bijou tornar-se em mais um café de brunches. E vi as casas dos vizinhos a serem substituídos pelo vai e vem do Alojamento Local.

O barulho dos tróleis nas pedras da calçada acabou por se sobrepor ao dos “olás” que se ouviam ao longo da rua.

A loja do meu bisavô e do meu avô, onde cresceu toda a minha família, fechou.

Os meus avós, nos últimos tempos deles na Jovil Modas. Foto: arquivo dos meus avós

No lugar das gravatas e camisas, dos vizinhos e amigos, está um estabelecimento de brindes e recordações vazias. Nesta cidade que se vê, dia após dia, despida dos laços comunitários. Na Calçada do Combro, uma comunidade muito mais pequena tenta sobreviver à gentrificação.

Na minha memória, a Calçada continua a viver como casa. A rua onde posso sempre encontrar um “olá” ao virar da esquina.

A minha avó, eu e o meu avô. Foto: arquivo dos meus avós

É sobre os “olás” que restam, mas também os novos, que venho escrever na Mensagem. Lemo-nos por aí?

– Mariana Vital