Nas Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos, fez-se história: por aqui, passaram os refugiados da Segunda Guerra, como o fotógrafo Roger Kahan, que documentou um Porto de Lisboa como porto de abrigo (e que a APL e a Mensagem imortalizaram num mural de Vhils); embarcaram os soldados para a guerra colonial, chegaram os portugueses de África depois do 25 de Abril. Criadas nos anos de 1940, estas docas e estas gares foram testemunhas da História de Lisboa e também guardiãs de um tesouro: os polémicos murais de Almada Negreiros.
Almada Negreiros foi encarregado pelo regime de Salazar de fazer “pinturas que mostrassem a grandiosidade da nação portuguesa e as suas conquistas” – sobretudo destinadas aos turistas que haviam de passar nestas gares.
Acabou por pintar sobre “as agruras do comércio marítimo, a emigração, as comunidades africanas (Almada era da ilha de São Tomé) e as atividades duras do porto, em cores vibrantes com inspiração cubista e futurista”, explica o World Monuments Fund.
Mas os painéis acabariam por ser executados numa altura em que poucos turistas havia por estas bandas, tendo em conta a Segunda Guerra Mundial. E foram considerados tão provocadores – sobretudo as pinturas da Rocha do Conde d’Óbidos – que quase foram destruídas pelo Estado, tendo havido mesmo essa intenção, que só foi revogada pela intervenção de António Ferro (diretor do SPN) e Porfírio Pardal Monteiro (o brilhante arquiteto das Gares que tinha convocado o artista).
E o acesso a este património, que o tempo foi desgastando, permaneceu restrito durante anos – apenas aberto para algumas visitas específicas. Ou, como diz o presidente adjunto da Associação Turismo de Lisboa, José Luís Arnaut, permaneceu como um “tesouro escondido” nestas gares.
Agora, a Administração do Porto de Lisboa (APL) com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Associação do Turismo de Lisboa (ATL) apresentam um novo projeto para as Gares de Alcântara: o Centro Interpretativo dos Murais de Almada nas Gares Marítimas, a ser inaugurado em fevereiro de 2025.
Depois do restauro dos murais – apoiado pelo World Monuments Fund – o objetivo agora é criar um pólo turístico e cultural e permitir, finalmente, o acesso ao público às gares projetadas pelo arquiteto Porfírio Pardal Monteiro e aos painéis de Almada Negreiros.



“Este centro interpretativo é também uma janela única do Porto de Lisboa e da cidade para o mundo, conectando o seu passado ao seu presente e inspirando as futuras gerações a valorizar e proteger este legado inestimável”, diz o Presidente da APL, Carlos Correia, acrescentando o “papel crucial do Porto de Lisboa na sensibilização para a importância da conservação do património histórico, cultural e marítimo e na promoção do desenvolvimento sustentável”.
Como explicava o crítico José Augusto-França, para quem estes painéis eram a obra prima da primeira metade do século XX português, num dos quadros “vemos o drama da emigração, o partir do porto num velho navio, em que cheiramos o suor e a graxa”, e no outro “a Lisboa que fica nos seus prazeres domingueiros, numa tristeza modesta, pousando em aborrecimento e fantasia, num tempo que parou”.
Na plateia que assistia à apresentação do novo projeto, esta segunda-feira, 8 de julho, estavam Catarina e Rita Almada Negreiros, as netas do artista. “Desde pequenas que associamos a história da Nau Catrineta ao painel. Foram as nossas histórias de embalar. Ainda descobrimos coisas novas na obra do nosso avô e vamos continuar a descobrir.”
A história pode ser consultada neste museu virtual da Google Arts&Culture.
O cais dos anos 40 e um tuk-tuk para o passado
O projeto começou com um protocolo entre a Administração do Porto de Lisboa e a World Monuments Fund – que em 2022 selecionou as gares como um dos 25 lugares do mundo a preservar – para a realização de trabalhos de restauro e conservação dos edifícios (as obras já se encontram em execução na Gare da Rocha do Conde de Óbidos). O protocolo pressupunha ainda impactos na comunidade, tais como:
- A abertura das gares à população, integrando-as em roteiros turístico e culturais, como o eixo Alcântara-Belém;
- O desenvolvimento de atividades pedagógicas para a comunidade escolar;
- A criação do Centro Interpretativo.
Foi assim que o Porto de Lisboa, a ATL e a CML uniram esforços para a criação deste Centro Interpretativo, com dois objetivos: a reflexão histórica sobre a importância das gares ao longo do século XX e os 14 painéis pintados por Almada Negreiros.
A abertura do Centro Interpretativo também é uma forma de reforçar a relação entre o Porto de Lisboa e a cidade, cuja história se entretece há mais de 500 anos.
“A ideia é contribuir para que um dos nossos ativos culturais se torne acessível, seja divulgado e valorizado”, explica Vítor Costa, diretor da ATL. “Temos uma função de gestão do turismo e consideramos que é importante esta ligação do turismo à cultura”.
“Não estamos a falar de um museu”, adverte o diretor da ATL. “Mas antes de um Centro de Interpretação que explica, de forma acessível, a história da construção das gares e dos painéis de Almada.”
Para tal, serão criados diferentes espaços, tais como:

- Uma sala onde se evoca o tumulto do cais na década de 40 do século passado, contando-se a história por detrás da construção das gares e da pintura dos painéis;
- Um espaço dedicado aos estudos, à técnica e à geometria do trabalho de Almada Negreiros;
- Um roteiro pelas principais paragens de Almada Negreiros em Lisboa, no que muitas se cruzam com o modernismo da arquitetura de Pardal Monteiro (Grémio Literário, A Brasileira do Chiado, Martinho da Arcada, edifício do Diário de Notícias);
- Uma passagem pela época que Roger Kahan eternizou numa fotografia – a função de único porto de abrigo e passagem na Europa da Segunda Guerra Mundial.
- Um espaço dedicado à saída dos soldados portugueses durante as Guerras do Ultramar – e a consequente chegada dos retornados depois das Independências.
As viagem entre a Gare Marítima de Alcântara e a Gare da Rocha do Conde de Óbidos serão feitas em tuk-tuk, inspirados nos antigos carrinhos de transporte de passageiros e bagagens.
“A partir do momento em que o Centro abrir, a população terá uma melhor compreensão das obras de arte, do seu contexto, da criação das próprias estações. As pessoas sabem que este património existe, mas não tinham acesso ao mesmo”, resume Vítor Costa.

As visitas às gares eram feitas por marcação, uma vez por mês, mas mesmo assim havia muitos interessados que vinham, nomeadamente, do estrangeiro, como testemunham os guias que recordam sobretudo famílias judias.
A sessão de apresentação do Centro, com a assinatura do contrato entre o Porto de Lisboa e a Associação do Turismo de Lisboa, contou com as intervenções do ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, do presidente do Conselho de Administração do Porto de Lisboa, Carlos Correia, e do presidente adjunto da Associação Turismo de Lisboa, José Luís Arnaut.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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Que boa notícia!
Os murais sempre despertaram a minha curiosidade, e a ideia de os visitar quase que parecia uma missão impossível.
Fico a aguardar a possibilidade de os visitar, tal como se fosse um museu.
A estação de metro Saldanha II está relacionada com Almada Negreiros, parecendo uma mini-galeria. Só um aparte, já repararam nos painéis das plataformas e nos que estão junto às escadas?
Li com muita atenção tudo o que se refere a estas gares e suas obras artísticas. Tentei visitar a obra de Vhils e nem se consegue lá chegar. Existem várias barreiras impossíveis de atravessar. Após ler estas notícias fico a aguardar a publicação da data de abertura ao público.
A obra de Vhils está acessível através da Ponte Móvel – fica exatamente do outro lado – e da estrada vinda de Alcântara.