O quartel fechou. Mas quem o ocupou sempre soube que a estadia era temporária – porque outras prioridades da cidade se levantavam. Foi em 2022 que a cooperativa LARGO Residências deixou o Largo do Intendente, em Arroios, para ocupar um velho quartel da GNR: o Quartel do Largo do Cabeço da Bola – também conhecido como Quartel de Santa Bárbara. Meio habitado por pessoas em situação de sem-abrigo, de um lado; e, do outro, separados por um muro, meio habitado por centenas de artistas culturais e projetos sociais, incluindo a cooperativa, que não encontraram outra casa na cidade.
De repente, os portões do século XIX, há tantos anos vedados, de onde se viam por frinchas os homens fardados lá dentro, lá ao fundo, abriram finalmente à comunidade. O quartel deixou de ser um monumento do passado, para ser um ator vivo na cidade.




Lá dentro, já não era a GNR que víamos em ação, mas atores, artistas plásticos, músicos, dramaturgos, arquitetos, bailarinos, mediadores sociais e culturais, cozinheiros… ao lado de uma querida mascote: o gato Capitão. Houve espaço para lisboetas e outros, os que chegavam fugidos de uma guerra num outro país.
Viraram pequenos e grandes soldados na luta por uma cidade de todos, vibrante e sem lugares mortos. Com eles, trouxeram um debate: por que não podem os vazios de Lisboa ser ocupados por quem sonha transformá-los?
E, ao final de dois anos, o que construíram neste quartel tornou-se exemplo urbano, social e cultural em Lisboa.
Mas e agora? Agora que estão de partida para uma outra morada: os jardins do Hospital Miguel Bombarda, para que o quartel sirva a habitação acessível numa cidade onde ela faz falta – bem como espaços comerciais, culturais e serviços. O que aprendemos com este sonho que eles criaram para Lisboa?
É com esta pergunta que a Mensagem estreia um novo podcast: “O Quartel”, com narração de Catarina Reis, Tomás Delfim e Pedro Saavedra. Ouça aqui o trailer:
“O que cá entrou não pode cá estar”
Parece um labirinto lá dentro: edifícios e edifícios, que durante anos testemunharam várias vidas ao serviço da GNR, desde o século XIX. Aqui dormiam, aqui treinavam. E, num grande hangar, viu-se o passar dos tempos, que terminou em próximas linhas amarelas pintadas no chão a marcar o lugar de motociclos, onde antes estiveram cavalos.
Os antigos guardas contam histórias de fantasmas, de paixões e tantos outros mistérios e histórias que prometeram guardar entre eles. “O que cá entrou não pode cá estar”, disse um GNR, durante uma visita recente ao quartel onde operou, a propósito de uma dessas histórias.
E a frase soou como um resumo da nova história que a LARGO Residências e outros projetos ali estavam a construir.
Em 2015, este lugar deixa oficialmente de se cruzar com a atividade da GNR. “Diz-se que cá ficou a viver um GNR sozinho, durante mais uns tempos, só para que não ficasse tudo ao abandono”, conta Marta Silva, representante da LARGO.
Até que, cinco anos depois, em 2020, uma alteração do PDM dá-o como integrado no Fundo Nacional de Recuperação do Edificado. O novo dono? A Estamo, a empresa responsável pelo património imobiliário público.
A LARGO Residências – uma cooperativa cultural, comunitária e social que desde 2011 atua na área de Arroios – chega em 2022. Ali, comprometeram-se a fazer o mesmo de sempre, mas com mais companhia e sinergia: promover a cultura, a inclusão social e o desenvolvimento local através de debates, angariações de fundos e residências artísticas em fotografia, artes plásticas, cinema, artes visuais, música, entre outras artes.











Naquele lugar desconhecido, esperava-os as histórias de fantasmas… e de polícia. Nos primeiros tempos, Marta Silva trocou bilhetes com o que sabia ser um grupo de ladrões de cobre que lá parava de vez em quando. Queria tréguas e que os deixassem lá entrar sem problemas. Assim foi – essa é uma história contado num dos episódios deste podcast.
À semelhança de outras associações socioculturais lisboetas, a cooperativa tem tido dificuldades em criar raízes num só espaço por conta da pressão imobiliária, desde que saíram do lugar onde nasceram: o Largo do Intendente. E encontraram no quartel a solução.
No ano em que estiveram no Quartel de Santa Bárbara, promoveram mais de 900 eventos de programação e formação sociocultural e tiveram cerca de 50 mil visitantes. Contam ter contribuído para “um impacto económico estimado em 1,3 milhões de euros, de acordo com o volume de negócios das entidades residentes“, lê-se no documento enviado pela cooperativa.
De saída do Quartel
“Em apenas um ano de abertura ao público mostrámos que os edifícios públicos, mesmo a aguardar novos futuros, não podem estar vazios e podem ser preservados e mantidos pelas pessoas da vizinhança”, dizem.
E levam a mesma missão para um outro lugar da cidade, a partir do segundo trimestre do ano: o hospital Miguel Bombarda, o primeiro hospital psiquiátrico do país, fechado há 13 anos.
Mais propriamente para os jardins do hospital, para onde transitam com outros projetos do quartel.
Fique atento aos próximos episódios do podcast, que contam a vida e a missão de alguns deles.

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Um edifício desses custa uma fortuna atual ,,, em impostos e obras … não tarda está como o país ,,, sem futuro