Perdeu a conta às horas que passou fechado em aviões, chegou até a ir para o Brasil e voltar duas vezes numa semana, enquanto empresário. Hoje, contra todas as expectativas que traçou para a vida, Nuno Colaço é hoje dono do restaurante Mixed Martial Rice, no mercado de São Domingos de Benfica, em Lisboa. Um lugar que nasceu de uma prova de amor, onde a comida tailandesa prova que pode ser de bairro, em Lisboa. E que ficou mais conhecido nos últimos dias, à conta de um humorista português: António Raminhos.

Na segunda-feira, António Raminhos, amigo e cliente habitual, dedicou um post nas redes sociais a este mesmo restaurante. Lá, contava a história de Nuno e lançava um movimento com uma frase: “esta semana e as próximas, façam-no trabalhar como um louco… é só isso que ele quer”.

Por trás, está a história de um homem viúvo há dois anos e com um dos dois filhos no espetro do autismo. E que, por força da inflação, com a subida dos preços os produtos, arrisca-se a perder o negócio.

O movimento lançado por Raminhos resultou numa avalanche de clientes, poucas horas depois da publicação: de uma hora para a outra, o restaurante encheu. Formaram-se filas à porta e alguns nem chegaram a conseguir provar os pratos tão elogiados. Nuno terminou os jantares de segunda-feira exausto, tanto que planeava não vir aos almoços no dia seguinte.

Mas veio. Para outra dor de cabeça.

No dia seguinte, chegou ao restaurante às 11:00 apenas para fazer uma sopa Tom Yum para ser servida ao almoço. O cozinheiro já lá estava, mas saiu para atender uma chamada e, quando voltou, disse que se ia embora. Tinha recebido uma oferta de emprego melhor e foi, de facto, embora. Nuno nem teve palavras.

A empregada que o ajudava nas mesas e no balcão também já estava atrasada. Não atendia as chamadas, nem respondia às mensagens. Nuno percebeu que tinha ficado sozinho para o dia.

“Eu tinha duas opções: ou fechava o restaurante e perdia estes clientes, ou arregaçava as mangas e tentava dar o meu melhor.” Escolheu a segunda opção.

O restaurante tailandês que nasceu de uma teimosia de amor

Era atrás das câmaras, como diretor de produção de cinema e televisão, que Nuno Colaço fazia carreira. Mas também já teve uma empresa tecnológica ligada às companhias aéreas, viagens e marketing criativo em São Paulo.

Foi quando a mulher, Marisa, adoeceu, que Nuno decidiu largar tudo para ficar próximo dela, mais presente. E perseguir um sonho antigo, que ela teimou em vê-lo concretizar.

Desde 2021, no Mixed Martial Rice, serve comida tailandesa, mas nunca pisou terra tailandesa nesta vida. Ganhou o gosto pela cozinha asiática quando, enquanto visitava Macau, em 1993, acabou num restaurante onde as prostitutas iam comer quando os bordéis fechavam. Lá o arroz era feito dentro de um ananás.

Quando regressou, começou a experimentar receitas em casa. Copiou ao mais pequeno pormenor e criou outras novas.

Nuno diz que os pratos já foram elogiados por chefs de cozinha e por pessoas que, ao prová-los, dizem ser transportados para casa.

Marisa não sobreviveu, Nuno ficou viúvo há dois anos com dois filhos, um com 25 anos, já fora de casa, e outro ainda por crescer e no espectro do autismo que está à sua responsabilidade. “Somos só nós, não temos mais família”. A isto, junta uma inflação que pôs o negócio à beira do fim – poderá o “efeito Raminhos” mudar a sina?

Veja aqui a localização do restaurante:

Os vizinhos solidários

O espaço tem quatro mesas no interior e quatro na rua. O que começou por ser apenas um grupo de cinco pessoas, só por si um desafio para um cozinheiro que está sozinho, rapidamente se transformou numa casa cheia.

Todos os clientes, ao entrar, foram avisados de que a comida ia demorar a chegar: “Estou sozinho. Mesa tenho, se forem pacientes” ou “comida eu faço, mas tenho de me desenrascar.” Alguns decidiram-se por voltar noutro dia, pois tinham pouco tempo para almoçar.

Nuno atarefado, mas prestes a entregar mais uma taça de comida a um cliente. Foto: Inês Leote

Para recolher os pedidos de toda a gente, Nuno foi para o centro da sala, com o bloco numa mão e uma caneta noutra. Reuniu a atenção de todos nele, como se estivesse prestes a iniciar um leilão, e começou a apontar o que cada um queria. Talvez por solidariedade, quase pediram o mesmo prato: o arroz com gambas e caril amarelo – um alívio para Nuno.

Numa das mesas estava uma família grande, de cinco pessoas, os primeiros a chegar: mãe, pai e três filhas. Têm um restaurante e as filhas, aproveitando o dia de folga, decidiram que queriam ir pagar o almoço ao pai. Enquanto não se decidiam sobre que restaurante escolher, a esposa passou pela publicação do Raminhos no Facebook. Ficou escolhido: passaram o rio, da Fonte da Telha para São Domingos de Benfica.

O “grupo dos cinco”, como foram apelidados naquelas horas em que estiveram no restaurante. Foto: Inês Leote

José Silva, o pai e também ele cozinheiro, de cinco em cinco minutos levantava-se da mesa e ficava ao balcão. Parecia estar impaciente pelo tempo que já tinha passado, mas depois de o ouvirmos falar percebemos que estava antes a tentar controlar o impulso de ir “dar uma mãozinha” ao seu colega de profissão.

Explicou que sabia perfeitamente o que Nuno estava a passar naquele momento. Trabalhando no ramo há mais de 40 anos, já tinha visto isto a acontecer tantas outras vezes. Cada vez que Nuno se desculpava pelo tempo, José repetia: “Não se preocupe! Nesta mesa estamos todos de folga hoje.”

Entretanto, até uma mesa de esplanada passou da rua para o interior do restaurante. Tudo pela mão dos clientes. O restaurante, que habitualmente não é de self service, mudou de sistema nesse dia: se um cliente queria uma cerveja, ia ao frigorifico, que ficava na sala, buscar uma. Não foi o Nuno quem pediu que assim fosse, foram as próprias pessoas que o sugeriram para tentar ajudar no que podiam. Havia apenas o compromisso de honra, não-verbal, de deixar as garrafas vazias em cima da mesa para depois ser mais fácil contá-las.

No final da refeição, até as mesas ajudaram a levantar para dar vez a outro.

A espera prolongou-se por mais do que os clientes esperavam quando decidiram ir naquele dia almoçar comida tailandesa. Contudo, o sol ajudou a tornar todo o momento mais agradável. Foto: Inês Leote

Entretanto, o restaurante foi esvaziando. Já passava das 14:30 quando as últimas duas clientes chegaram. Confirmaram o que já se esperava: tinham vindo por causa da publicação de Raminhos. Trabalhavam na rua de cima e não sabiam que o restaurante estava aqui. Naquele momento o movimento já estava mais calmo, faltavam apenas servir seis pessoas.

Mesmo inserido no mercado, isso não se traduz em movimento no dia a dia. No mercado de São Domingos de Benfica, a última sobrevivente é a Dona Augusta, com a sua bancada de legumes. Nuno explica que quer apostar na economia circular e de bairro, mas a banca da Dona Augusta não tem tudo. Faltava um mercado mais composto.

Compra a carne no talho que fica ao lado da sua casa, também ali no bairro. Já os produtos mais específicos da culinária tailandesa, encontra no Martim Moniz ou encomenda diretamente da Tailândia, através de uma fornecedora.

Numa entrevista à Mensagem em 2022, Nuno já tinha falado sobre as mudanças no mercado de São Domingos de Benfica. Escolheu abrir o restaurante ali por ser perto de casa, mas também para trazer uma nova vida ao mercado: “Sinto que dei um contributo enorme, revitalizei um edifício morto”, disse em 2022.

Quando as últimas tigelas pousaram nas mesas respetivas, ouvimos o Nuno a respirar fundo.

“Feito!”

À noite não deu para repetir o jogo sozinho. “É que eu tenho outra profissão. Hoje saio daqui duas horas depois do habitual, vou buscar o meu filho à escola e começo um turno novo, o de pai.”

A última tarefa do dia, recolher os toldos, chegou mais cedo do que esperava. Foto: Inês Leote

Antes dos últimos clientes irem embora, todos ajudaram a limpar as mesas, a deitar o lixo fora e a deixar os pratos a jeito de Nuno os meter na máquina. As mesas e as cadeiras vieram para dentro enquanto Nuno tratava de fechar o toldo da rua.

A hora de almoço que devia ter acabado às 15:00 estendeu-se até perto das 17:00. Num dia normal, voltaria a abrir às 19:00. Em quatro horas, Nuno fez e serviu mais de 26 pratos, sozinho.

No dia seguinte, a pessoa que servia às mesas e ajudava ao balcão reapareceu e Nuno acordou em dar-lhe outra oportunidade. Já a tarefa de encontrar um cozinheiro novo é a que se tem revelado um desafio maior. Até lá, Nuno vai continuar sozinho na cozinha.


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Ana Narciso

Ana Narciso tem 25 anos, vem de Rio Maior, mas vive em Lisboa desde os 18. Foi pelas histórias por contar que escolheu licenciar-se em Jornalismo. Durante o curso passou muitas horas na rádio e no jornal, que coordenou.


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