Showcase de Sara Correia, em 2023, em Chelas. Foto: Inês Leote
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Olá, vizinho/a

Pode saber-se o número do lote, a cor do reboco, a largura do pátio, e continuar a não saber-se nada sobre um lugar. Quando comecei a encostar o ouvido às paredes de Chelas para contar a história de Bruno Candé, que daria depois um livro, ouvia nomes de pessoas cujo apelido tinham saltado o bairro e marcado o país, até o mundo. Na música, sobretudo, eram donos de hinos que já todos conhecíamos. Era como se eles fossem ruas, a geografia do bairro.

Rasgam caminho, ligam o que o resto da cidade (por vício ou miopia) insiste em separar. Mostram o que não nos habituámos a ouvir ou ler sobre Chelas.

Na minha lista de gente que virou rua, o nome da Sara Correia esteve sempre lá, sublinhado a caneta grossa. “Há a Sara Correia. Ela é daqui”, diziam-me. “Aqui” era a rua Manuel Teixeira Gomes, na Zona I, atual Bairro das Amendoeiras. Entre os “prédios de todas as cores”, a “gente e os seus horrores”, a “pobreza” e “a noite escura”, a Sara vai acabando com a ideia de que o horizonte não tem de acabar no lote ao lado. No sábado passado, o horizonte dos prédios de Chelas foi a MEO Arena.

O antigo Pavilhão da Utopia, erguido há 28 anos para inventar uma cidade nova, recebeu a cidade que há muito existia do outro lado da linha do comboio. Ali, na maior sala do país, esgotada, milhares de pessoas gritaram o nome do bairro da Sara: “Chelas, Chelas, Chelas.”

Durante os primeiros anos da Mensagem de Lisboa, eu tinha esta designação estranha de “jornalista dos bairros”. Por defeito, cobria-os, os bairros de Lisboa, sobretudo os periféricos – mesmo os que não o eram realmente no mapa. Passava lá os meus dias, confrontada com o impacto da política local e nacional na vida destas periferias. Contei histórias “demasiado pequenas” para os media tradicionais, aprofundei todas os que foram apenas uma linha numa grande reportagem. Conheci-lhes as caras e casas. Então, numa visita oficial de Pedro Adão e Silva (então ministro da cultura) a Chelas (entre outros, como Cova da Moura, Pendão e Portugal Novo), alguém da comitiva ministerial, espantado com os abraços e com a minha familiaridade com as pessoas, perguntou-me: “Como é que conhece toda esta gente?”.

Podia ter levado a mal a pergunta.

O que levei a mal foi a constatação de que a cobertura destes sítios era tão rara, até então, que o meu conhecimento ali exigia uma explicação. Os jornalistas lá longe e os bairros do lado oposto, nunca juntos.

Trouxe essa bagagem comigo ao concerto da Sara Correia, no sábado passado, na MEO Arena. E por isso estava de olhos bem abertos para perceber que ali se fez história. Por isso lhe escrevo hoje, vizinho/a.

A história começa com uma miúda que, aos nove, já tinha a disciplina de uma operária da canção. Estava sentada à mesa dos mais velhos, nas casas de fado (uma delas ali mesmo, em Chelas: o Clube Lisboa Amigos do Fado), a beber o que antes de ser o orgulho das salas de veludo foi o dialeto dos porões e das margens. O fado cresceu com balanço africano, no corpo de marinheiros e de gente que a cidade empurrava para o cais. Antes da Sara, houve a Severa – cigana, descendente de escravos negros – a perceber que o fado não se canta para agradar, canta-se para sobreviver.

“A voz que veio antes de mim, não vive mais amordaçada.”

Ontem, na MEO Arena, essa árvore genealógica estava toda ali. Do lundu africano, à Mouraria do “fado dançado”… e à rua Manuel Teixeira Gomes. A linhagem é a mesma: a voz como única arma contra o esquecimento.

A Sara cresceu nesta espécie de ordem monástica. Mas com um detalhe: lá fora do Clube Lisboa Amigos do Fado, era o hip hop o que mais se ouvia, com a mesma urgência com que tocavam as guitarras lá dentro. E, por isso, ela nunca escolheu um lado. Ficou com os dois. O fado da Sara é a “igreja” dela, um lugar de acerto de contas. O hip hop a atitude de quem sabe que o fado, para ser de verdade, tem de ter o pó da rua.

No sábado, essa rua toda foi o centro da cidade. O Paço do Terreiro, a Liberdade da Avenida, o Sodré do Cais, a Sara de Chelas. “A miúda de Chelas chegou à MEO Arena”, disse ela. Frase curta. E todos entendemos: a constatação de quem fez o caminho todo a pé, do bairro ao palco.

Foi “o dia mais emotivo” da vida dela – desabou.

E gritou-se novamente “Chelas”.

Não foi um coro, foi um rugido. Gritou-se o nome do bairro como se se gritasse uma libertação. A Sara, generosa como quem partilha o pão, não se deu por satisfeita. Bisou a música. Cantou “Chelas” duas vezes, para que a marca ficasse bem funda no cimento do pavilhão. Para que ninguém se esquecesse de onde vinha aquele fôlego.

“Canto, canto, canto
Para calar o ruído ou só para existir
Canto, canto, canto, canto
Canções repetidas, para conseguir dormir”

Ao meu lado, dormia uma Alice, guardada na barriga de uma amiga que se estreava na plateia da maior sala do país. E pensei na sorte daquela miúda. A da Alice. Ela que ainda não sabe o que o estigma faz a um povo e que começa pelo lado certo, a ouvir o mundo através de um rugido de vitória. Ela que já sabe qual é o som de milhares a celebrar um lugar que está a perder o medo e a vergonha de falar dele próprio. Há batismos que não precisam de água: o da Alice foi feito de fado e de uma história que lhe servirá de chão, muito antes de aprender a andar.

Ao ver o pavilhão rendido a ela, percebi que a Sara já não é apenas um nome nas minhas notas de rodapé sobre o bairro. Ela tornou-se esta avenida larga de Chelas, de Lisboa, do mundo. E o fado dela uma ferramenta de demolição.

A obra continua.

Que os velhos muros murchem para sempre.

Até breve,

– Catarina Reis, editora da Mensagem de Lisboa


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