Mariana Marçal já não conseguia vestir a camisola como antes. No antigo clube, o insulto vindo da bancada era tolerado e uma tática de jogo cada vez mais presente. Jogava futsal federado desde a adolescência. Hoje, aos 33 anos, Mariana corre num campo onde o desporto é, antes de tudo, um manifesto. É uma das mulheres atletas da R’Elas, a equipa feminina de futsal da Associação Desportiva Recreativa O Relâmpago – e o rosto de um fenómeno que está a remar contra a maré do desaparecimento das coletividades em Lisboa.

Numa cidade onde os clubes de bairro perdem terreno, O Relâmpago joga com números invulgares: 558 sócios, dos quais 41% são mulheres. Dizem que o segredo está… em deixar a porta aberta. Aqui, não se exige currículo nem se transforma o desporto num segundo emprego. O que convoca esta comunidade é o amor pelo desporto popular e a vontade de criar um espaço seguro para quem nunca teve oportunidade de jogar.
“Quando conheci o Relâmpago, senti-me muito orgulhosa. Tudo é político, o desporto também é político e o Relâmpago tem essa consciência, o que é de valor”, conta Mariana.

Começar a jogar aos 30 ou 40
Ana Azevedo, 35 anos, está na equipa desde o primeiro treino. O Relâmpago nasceu em 2021, quando um grupo de amigos quis trazer de volta o desporto no contexto associativo, mas passado apenas um ano, quando a cidade começava a viver a vida após sucessivos confinamentos pela covid-19, “elas” começaram a jogar também.
Criaram a primeira equipa feminina de futsal em 2022.
Quando Ana entrou na equipa, não tinha qualquer experiência de futsal, ao contrário da colega Mariana Marçal. Mas, quatro anos depois, veste com orgulho o equipamento grená e azul celeste e reconhece a beleza de evoluir num desporto que começou a praticar… apenas aos 30 anos.
A relação de Ana com o clube tornou-se mais próxima: atualmente, integra os Órgãos Sociais d’O Relâmpago. Para ela, o que diferencia esta associação é o facto de ser “um clube pelo desporto popular e, dentro disso, inclui ser antifascista, antirracista, anti-xenofobia e anti-machismo”.

As R’Elas estavam então a dar os primeiros “passes”: participaram no 1.º Torneio Feminino de Futsal do INATEL, ainda sem uma equipa completa e sem jogadoras suficientes para fazer substituições. “Para nós foi uma loucura. Pensámos se teríamos cabedal para participar num torneio. Apesar de não ser federado, já tinha alguma exigência”, conta a atleta Susana Pinto, que se estreou no futsal aos 42 anos.
“Queriam criar uma equipa feminina e permitir que outras mulheres, independentemente do nível em que estavam, encontrassem um espaço onde pudessem praticar desporto e aprender”, recorda Susana.
Hoje, a equipa continua a marcar presença nas competições – e acredita que este é o ano em que vai conquistar a vitória.


Onde o grupo de WhatsApp tem 100 e o campo tem todas
O torneio do INATEL trouxe uma dimensão mais competitiva ao grupo e a necessidade de aumentar o número de treinos. Ainda assim, uma vez por semana, a equipa mantém um treino aberto a qualquer pessoa, sem compromisso. Por vezes, isso dificulta a gestão das atletas, mas é um esforço que as R’Elas estão dispostas a fazer, para dar oportunidade a quem quiser experimentar. Essa flexibilidade faz com que o grupo de Whatsapp da equipa conte com aproximadamente 100 membros, ainda que só 25 atletas treinem regularmente.
“Há um grupo de pessoas que não vive em Portugal, então, quando estão cá, vêm e treinam. Outras, no verão, quando o tempo melhora ou têm menos trabalho, aparecem para treinos, convívios e torneios”, explica Mariana Marçal, de 33 anos.
Também Rebeca, de 32 anos, já praticava a modalidade e conheceu o Relâmpago num torneio, enquanto competia pela equipa adversária. Desde o início, identificou-se com os valores do clube e com a forma como a equipa se posicionava, dentro e fora de campo.
Os jogos e momentos de convívio abertos à comunidade são também oportunidades de dar visibilidade a causas com as quais o clube se identifica.
“Nos jogos, o Relâmpago leva sempre cartazes e bandeiras. Há uma preocupação em afirmar certos valores e em ser vocal sobre os mesmos”, refere a atleta.

Dentro de campo, reúnem-se mulheres e pessoas não binárias, com diferentes profissões e origens variadas, a maioria a partir dos 30 anos. Chegaram ao clube por motivos diferentes, mas ficaram pelo mesmo – um ambiente de aprendizagem e uma comunidade ativa.
Para algumas, os treinos são um momento para “descomprimir” no meio da semana, para outras, como Mariana Carvalho, de 32 anos, são também um lugar de pertença:
“Há muitas mulheres e pessoas não binárias com vontade de praticar desporto e muitas vezes só falta um espaço, só falta alguém que aglutine essas pessoas. O Relâmpago está a tentar fazer o seu papel, numa era em que estamos todos voltados para os nossos umbigos. O objetivo é precisamente o oposto, é contrariar isso e juntarmos a comunidade, porque a comunidade tem muita força e está a esquecer-se disso.”
Depois de passar por várias equipas, algumas federadas, Mariana sente, finalmente, que encontrou um clube no qual “encaixa”. Passou a jogar pelo Relâmpago há cerca de um ano e acredita que está a contribuir para dar mais visibilidade ao futsal feminino, que ainda se encontra “a anos-luz” do masculino.

A “conquista” de um espaço
Apesar de ser a única equipa exclusivamente feminina do clube, a ADR O Relâmpago oferece ainda outras modalidades mistas – voleibol, basquete, atletismo, ciclismo, boxe e xadrez -, em que a participação feminina é significativa.
O facto de as mulheres representarem 41% da massa associativa do clube não surpreende as atletas. Para Ana Azevedo, sempre houve interesse no desporto e “muita vontade de jogar”, mas a falta de espaços para o fazer e “o machismo estrutural associado ao desporto” dificultavam a participação.
Atualmente, a equipa é um lugar que não só permite às mulheres jogar, como também contrariar estereótipos, aponta Rebeca:
“Somos mulheres com mais de 30 anos, mas fazemos coisas que não são só voltadas para o cuidado ou para a reprodução. A gente se dedica a uma atividade que gosta, com um objetivo comum, contrariando também a ideia de que existe uma competitividade entre as mulheres.”

Ana Azevedo reforça a importância de espaços como este: “No contexto feminino, é muito importante, porque as mulheres estiveram durante muito tempo afastadas do desporto e das coletividades. Há pessoas que já se esqueceram que isto é uma conquista, mas é uma conquista.”
E as conquistas são para ser celebradas. Este domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, O Relâmpago vai assinalar a data com uma festa aberta a toda a comunidade.
O Encontro Intersecções promete convívio, uma volta de bicicleta por locais simbólicos da história feminista, e, ainda, a possibilidade de experimentar as diferentes modalidades do clube.
Mais do que comemorar este dia, a iniciativa quer lembrar que o desporto também pode ser “uma ferramenta de celebração, integração e empoderamento feminista”.
A resistência de uma coletividade em Lisboa
O Relâmpago continua em busca de uma sede própria, mas o caráter itinerante do clube tem permitido fortalecer laços com outras associações, que cedem os espaços e envolvem-se em iniciativas comuns.
É o caso da Subida da Rampa do Vale de Santo António, um dos eventos mais populares, organizado em conjunto com o Mirantense Futebol Clube. Esta prova, em que os participantes percorrem 600 metros em bicicleta, com inclinações que chegam aos 22%, também tem vindo a registar uma participação feminina cada vez maior.
Apesar de ser uma equipa de futsal, os treinos das R’Elas decorrem no campo de futebol do Centro de Cultura Popular de Santa Engrácia. Encontrar um espaço adequado para praticar tem sido um dos maiores desafios. E, nos últimos meses, com vários dias consecutivos de chuva, a equipa viu-se mesmo obrigada a suspender alguns treinos.
No final do dia, a revolução destas mulheres não depende de quatro paredes ou de um relvado perfeito. Alimenta-se da insistência de quem, aos 30 ou 40 anos, decidiu que o desporto também lhe pertence. Entre o grená e o azul celeste, as R’Elas provam que, em Lisboa, a comunidade ainda é o melhor campo de jogo. E que, enquanto houver uma bola e uma causa, o jogo está longe de terminar.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
