Foto: Daisy Anderson/Pexels

O mais velho até conseguiu renovar a autorização de residência, mas é o mesmo que não tivesse conseguido, pois meses depois de tudo acertado e bem pago, o cartão ainda não chegou pelo correio e nós andamos por aqui feito um cão rafeiro a correr atrás dos carteiros pela rua à espera de uma boa nova que não se anuncia. 

O mais novo, nem isso. 

Agora em setembro, completou um ano irregular em Portugal. Já estive frente a frente com um funcionário num balcão dos serviços de imigração, passei horas no telefone, enviei dezenas de e-mail e nada, não consigo renovar a sua autorização, nem agendá-la. E assim, o mais novo segue irregular.

Irregular ou ilegal, como insistem em frisar os lá para a direita, os mesmos que ressuscitaram uma polícia de fronteira, menos para controlar a fronteira e mais para sublinhar que o imigrante é um sinal de perigo.

A política é feita de gestos.

O mais novo tem nove anos, o último deles na clandestinidade, como os perigosos conspiradores de outrora, sujeito agora que a nova polícia de imigração lhe pare numa blitz numa esquina e cobre-lhe os papéis que comprove a sua existência, pois sem o rostinho lindo dele impresso num pedaço de plástico ele não existe, não conta, não é nada.

Pode não ser nada para eles, atenção lá, mas é tudo para mim. Ele é o meu pequeno.

O meu pequeno ilegal.

Não há seres-humanos ilegais. Foto: Daisy Anderson/Pexels.

O meu pequeno ilegal tem nove anos, oito a viver em Portugal. As memórias que têm do Brasil são embaciadas, do cão da família já velho e do avô mais velho ainda, com as memórias mais embaciadas que a do neto, um avô que provavelmente não irá reconhecê-lo, como não mais reconhece a mim o seu filho, quando um dia o neto puder ir visitá-lo.

Quando enfim tiver autorização para deixar o país, lá irá, se der tempo, se ver o avô ainda for uma possibilidade e o avô não tiver se tornado apenas memória.

O meu pequeno ilegal viveu noventa por cento da vida dele em Portugal. É filho de português, pois o pai conseguiu o passaporte por tempo de serviço. Aprendeu a falar e a escrever em Portugal, é adepto do Benfica, o prato preferido dele é bitoque, já brada o às armas do hino e grita 25 de Abril! na rua quando abril dá as caras.

Mas para o estado português, não passa de um ilegal.

O meu pequeno ilegal é o resumo da ópera de como Portugal acolhe os seus imigrantes, submetendo-os a um triste vácuo existencial. 

Nenhum imigrante é originalmente irregular, a imensa maioria entra no país de forma regular, como turista, estudante, trabalhador, seja como for. Depois, com o passar do tempo, quem o faz irregular é a buro-xenofobia do estado português, logo ele, em tese o mais interessado na presença desse imigrante no país. 

Pois sem o imigrante, os portugueses não teriam comida e o vinho na mesa, sucumbiriam ao lixo acumulado em casa, soterrados numa montanha de poeira, uma nação de despenteadas com unhas descascadas e sem verniz, um império de patrões sem empregados numa rotina sem temperos, de gambas sem carril, de cachupas sem sal, sem cominho no kebab.

Uma nação a dançar na monotonia de uma nota só, sem samba, funaná e kizumba, apenas o fado e só o fado.

O enfado.

A fabricação de imigrantes ilegais não é sinônimo de incompetência do estado português. Pelo contrário, é uma estratégia de governo bem pensada, planeada e executada, testada em vários países, como a Inglaterra e os EUA, em benefício de setores da economia, especialmente da indústria e do agronegócio, que tem tudo literalmente a lucrar em contar com um funcionário irregular. 

Pois o imigrante sem documentos é um imigrante sem direitos, desesperado, um empregado aflito, sem contrato e que se submete a um salário abaixo do mínimo, sem férias, décimo-terceiro, greve então nem pensar, só mesmo a involuntária greve de fome de um escravo do terceiro milênio à mercê do feitor 2.0.

O aperto na regulamentação da imigração não vai impedir a imigração. Nem para isso serve. Está a serviço, mesmo, da tal mão invisível do mercado, a mesma mão que durante anos tem apertado o pescoço dos portugueses, empobrecendo-os, humilhando-os, a mesma mão que moldou um contingente de seres humanos insensíveis aos dramas de outros seres humanos.

A mão que agora afaga o monstro que criou com promessas vazias.

Aqui e acolá, surgirão notícias de prisões e deportações de imigrantes, pois sempre é preciso o pão e o circo. Um espetáculo, apenas um triste espetáculo, pois nos galpões das fábricas, nos latifúndios das fazendas e no sacrossanto lar português, os imigrantes continuarão a pôr a máquina funcionar, mais pobres, infelizes e sem esperança do que nunca.

Um martírio que não vai melhorar em nada a vida do português.

Um dia, o meu pequeno ilegal voltou cabisbaixo da escola. Um colega de classe disse-lhe que poderia denunciá-lo por estar sem os documentos. Não era uma chantagem, não lhe pediu nada em troca, o lanche, um brinquedo, a figurinha rara para completar o álbum. Disse por dizer, por que talvez tenha ouvido em casa e achou conveniente repetir, pois as crianças são cruéis.

O colega não queria ganhar nada com isso, apenas deixar as coisas claras como devem ser.

Daí, o meu pequeno ilegal olhou para mim e pediu:

– Pai, quero voltar para o meu país.

Bem, já disse aqui, dos nove anos, oito foram vividos ininterruptamente em Portugal, cercado por portugueses, sem amigos e parentes brasileiros. O natural é que Portugal fosse o país dele, que ele se sentisse em casa, acolhido, seguro, integrado, respeitado, que não fosse tratado como diferente, inclusive por professores na escola.

Se o meu filho não reconhece o lugar onde sempre morou como um lar, há algo de errado. 

E não é com ele.

Há dois anos, corre o processo de nacionalidade do meu pequeno ilegal. Como as coisas andam, é capaz de sair antes  que consiga renovar a sua autorização de residência. Daí, ele será oficialmente português. Português na conservatória, no papel timbrado e carimbado, no passaporte que lhe permitirá ir ao Brasil ver o cão e o avô velhos, se ainda houver tempo.

Mas não na vida prática, no dia a dia, na escola, no tratar com os demais. O meu filho já percebeu que o documento, que a nacionalidade, pouco vai mudar a sua condição de ser visto como o outro para alguém, que no peito dele o coraçãozinho continuará a bater como o de um pequeno ilegal. 

O meu amado pequeno ilegal.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. More by Álvaro Filho

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