Este escapou ao Camões, pois nem ele é perfeito, e a verdade é que é bem provável que poucos saibam, mas além do Velho do Restelo d’Os Lusíadas existe um outro mítico velho em Lisboa, uns bairros mais adiante, pelas bandas da Praça de Santo António, em Alvalade.
Diferente do velho mais famoso, o Velho de Alvalade não teve direito a estrofes numa epopeia nem, apesar das últimas chuvas que alagaram Lisboa, pode gabar-se por aí em ter sobrevivido nas linhas de um manuscrito das águas de um naufrágio, enquanto o seu autor bravamente nadava contra a correnteza com um só braço.
Cada um tem o biógrafo que merece e neste quesito o Velho de Alvalade teve pior sorte.
Tem de se contentar em ser revelado ao mundo pelas maltecladas linhas desse pobre (inclusive, no sentido figurado) cronista que, apesar dos dois olhos ainda intactos (que o doutor Alvacyr não me desminta), enxerga bem menos a vida do que o barbi-ruivo que fez do português, para além dessa lindeza que é, um idioma do mundo.
Se servir de consolo, o Velho de Alvalade vive na boca dos seus fregueses, não com arengas amargas sobre as desventuras marítimas lusitanas, mas de uma maneira mais doce: sob a forma de chocolates, pastilhas, confeitos, gomas, jujubas e outras guloseimas que repousam nas estantes modestas de uma loja sem placa e sem nome na fração 27D na rua Marquesa de Alorna.
Um lugar emprestado metade à realidade, metade ao sonho, conhecido por poucos, apenas como a Loja do Velho.
A Loja do Velho. E basta.
Esse ano o mais novo passou a andar na Eugênio dos Santos e foi assim que soube da existência da Loja do Velho, apesar dela sempre ter lá estado, talvez antes do mundo ser mundo, na minha rua, a poucos passos da minha casa. Passei lá pela frente dezenas de vezes, mas nunca a percebi, nunca a vi, pois sua existência física prescinde de um sinal.
O sinal da campainha da Eugênio do Santos.
A escola Eugênio do Santos tem aquele aspeto severo de liceu de Eça de Queiroz, meio internato para menores infratores, meio hospital psiquiátrico, com sua longa e vertiginosa escadaria que leva a portas enormes de madeira escura que se abrem como bocas sem dentes para devorar os pequenos alunos de fatos de treino e mochilas coloridas.
Quando o ponteiro do relógio se avizinha da uma e um quarto, os alunos da Eugênio do Santos começam a aglomerar-se no sisudo portão de ferro, sob o olhar atento do bedel com ar de guarda prisional. Os segundos passam e os estudantes se espremem ainda mais na grade, formando uma massa compacta de cabecinhas despenteadas e ansiosas.
Toca, então, a campainha.
O bedel mal tem tempo de abrir o pesado portão de ferro e os alunos já escapam pela fresta, como num jorro d’água num vazamento de cano, uma inesperada largada de maratona, o estoiro de mil ruidosos zebus, a atropelar quem tiver pela frente no passeio, as vozezinhas agudas a ulular em uníssono:
Oooooooooo veeeeeeeelhooooooooo!!!!
A agitada comitiva imberbe parte em debandada pela rua num slalom entre transeuntes e carros, dobra a direita e enfileira-se diante da modesta fortaleza do Velho de Alvalade, onde o filho dele, que também já não caminha para novo, recebe-os num postigo por ordem de chegada.
Ao contrário dos contos de fada, nenhuma criança é convidada a entrar nessa inefável casa de chocolate, não pela segurança delas, mas do orçamento da casa, afinal é impossível prever quando a tentação de uma mãozinha desejosa por uma guloseima faça deslizar sorrateiramente uma goma para dentro da mochila escolar.
E de goma em goma…
Mas a meninada não se importa com a fila, pelo contrário, a animada conversa sobre as últimas atualizações de um game qualquer enquanto se espera pelo quinhão de doces sabe como uma barra de chocolates, faz parte da liturgia de ser cliente do Velho de Alvalade, sócio de um seleto e sociável grupo de pequenos viciados em açúcar e felicidade.
Enquanto o filho sacia a fila no passeio distribuindo guloseimas tal a bruxa das fábulas, lá no fundo da loja e protegido pela sombra, o Velho observa a tudo, de mangas de camisa e suspensórios, as duas mãos enfiadas no bolso, com ar de capo siciliano.
O padrinho das gomas deve se arrepender de não ter insistido para o filho tirar um diploma em odontologia. Afinal um consultório na mesma rua, quem sabe na loja vizinha que acabou de vagar, fecharia a economia circular do negócio em família, pois cada miúdo com um doce na boca é um cliente em potencial.
E de cárie em cárie…
Mas agora é tarde, fica quem sabe para uma outra geração.
E por falar em nova geração, o mais novo mesmo sendo aluno da Eugénio não faz parte da confraria do Velho de Alvalade, menos por ser daqueles à Groucho Marx que não entraria num clube que o aceitaria como sócio e mais por um misto de preguiça em ter de correr pelas ruas e o tédio por se aventurar numa experiência analógica.
Se o Velho de Alvalade fosse um game, um vintage Pack-oldman ou um moderno Five Nights at Velho’s (o que é uma boa ideia e podemos negociar um royalty), vinculando as guloseimas ao interminável avançar de fases, então seria a minha ruína, obrigado a penhorar o meu vetusto casaco de couro ou o gasto par de havaianas para lhe financiar os mimos.
Ainda bem que não o é, mas há sempre o risco de, quando a fase de crescimento demandar mais energia, o mais novo ouça o chamado da manada e una-se ao agitado rebanho espremido ao pesado portão de ferro da Eugênio, ansioso para quando ponteiro do relógio marcar uma e um quarto e o bedel com ar de guarda prisional liberar a saída, partir pelas ruas de Alvalade em disparada, a bradar:
Oooooooooo veeeeeeeelhooooooooo!!!!

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Alvalade foi o começar tudo no ano de
1949 em outubro nasceu a escola primária 33 hoje a mesma mas mudou de nome, depois é adolescencia dos anos 60 o resto fica por aqui.
Boa tarde.
O nome da escola que é referido neste artigo (e a figura que lhe deu nome), é Eugénio dos Santos. Não “Eugênio”.
Para além de ter vivido dos 0 aos 33 em Alvalade, frequentei a Eugénio dos Santos nos anos 90 (para além de todas as outras escolas do bairro).
Nunca ouvi falar desta loja.
Havia outras na Marquesa de Alorna, que vendiam outras coisas e que hoje já não existem. Como a casa de material elétrico e eletrónico, onde íamos comprar o material para as aulas de Eletrotecnia.
Escola 33. Que saudades!
Entrei em 1954 e fiquei até 1956. Professor José Luís Ribeiro. Grande professor! Ainda retenho a maior parte do que me ensinou. Ele escrevia a crónica tauromáquica do Século Ilustrado.
E era nosso amigo!
Depois Eugénio dos Santos…e
A minha filha adorou o seu artigo, ela era uma das frequentadoras do velho. Primeiro, como não tinha autorização de sair, aguardava ansiosamente pelos colegas a quem dava uns cêntimos para lhe comprarem gomas. Foi ela que me falou desse nome “velho” e eu achei estranho e só depois é que percebi. É uma referência da sua infância na escola, por isso, ao ler o seu artigo, imediatamente pensei nela. Sabia que ela ia adorar, além de estar muito bem escrito. Parabéns e obrigada por este momento de leitura r partilha, entre mim e ela, desta recordação.