O que têm Almada Negreiros e Porfírio Pardal Monteiro em comum? Percursores do modernismo – um na pintura e nas artes plásticas, o outro na arquitetura -, foi do encontro entre estas duas figuras que nasceram obras como a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, o edifício do Diário de Notícias, o Hotel Ritz, as Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos.
Na passada quinta-feira, dia 19, a Brasileira do Chiado recebeu o sobrinho-neto de Porfírio Pardal Monteiro, o arquiteto João Pardal Monteiro, e José Quaresma, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, para a segunda de um ciclo de tertúlias artísticas dinamizadas pela Mensagem, no âmbito da celebração dos 100 anos dos primeiros quadros modernistas expostos n’A Brasileira, efeméride que é também assinalada pelo Prémio de Pintura A Brasileira do Chiado. Desses quadros, dois eram assinados por Almada Negreiros: o “Auto-retrato num grupo” e “As banhistas”.
Partindo do anunciar do modernismo n’A Brasileira, os oradores levaram-nos ao encontro de duas personalidades, que fariam nascer em Lisboa alguns dos seus edifícios mais emblemáticos, evocando histórias caricatas entre os dois e até mesmo interpretando, com grande entusiasmo, escritos de Almada Negreiros.



Almada Negreiros e o modernismo
“O modernismo não é um movimento como o romantismo”, começou por anunciar José Quaresma. “É um movimento denso, plural, polémico.” Um movimento com raízes no impressionismo do século XIX. E é a partir deste novo movimento, que emerge no início do século XX, que Almada Negreiros se vai afirmar como artista.

Almada nasceu em 1893, em São Tomé e Príncipe, onde passou os primeiros anos da sua infância. Mas quando pai é nomeado encarregado do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris, Almada é internado no Colégio Jesuíta de Campolide, em Lisboa.”É entregue à sua sorte”, diz José Quaresma. E é aí que começa por descobrir o desenho e a poesia.
Entretanto, em 1909, o Manifesto Futurista, escrito pelo poeta italiano Marinetti e publicado no jornal Le Figaro, vem alterar por completo o panorama artístico. “Um manifesto que pôs a arte de pantanas, fazendo tábua rasa da cultura ocidental.” E que influenciou toda uma geração que incluía, claro, Almada Negreiros.
Almada começa a sua carreira publicando caricaturas, colaborando como ilustrador em jornais e expondo algumas obras. Mas é na Brasileira do Chiado, ponto de encontro entre artistas, intelectuais e muitos outros – ao ponto de ter sido considerada “a rede social da época” -, que nasce a Revista Orpheu onde, no seu primeiro número, Almada Negreiros publica o inesquecível Manifesto Anti-Dantas.
“BASTA PUM BASTA! UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO! ABAIXO A GERAÇÃO! MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!“
E é neste café que, em 1926, se expõe um conjunto de quadros modernistas da autoria de jovens artistas, os mesmos quadros que hoje são celebrados. Na altura da sua exposição, causaram grande polémica, sendo até chamados, em tom jocoso, “as tristes telas do Telles”, remetendo para o fundador da Brasileira, Adriano Telles. “A Brasileira rompeu com a lógica do mundo das artes”, resume Quaresma.

Pardal Monteiro e o modernismo
Quatro anos depois do nascimento de Almada Negreiros, nasce Porfírio Pardal Monteiro, em Pero Pinheiro, Sintra, no seio de uma família de pedreiros, que mais tarde se tornariam empresários da construção civil.

Pardal Monteiro estuda arquitetura na Escola de Belas Artes de Lisboa, e ainda enquanto estudante começa a trabalhar no atelier de Ventura Terra, um nome já sonante na arquitetura portuguesa, conhecido por ter projetado a primeira creche de Lisboa, a Maternidade Alfredo da Costa, os Liceus Camões, Pedro Nunes e Maria Amália Vaz de Carvalho.
O jovem Pardal Monteiro faz parte de uma geração de arquitetos modernistas, ao lado de arquitetos como Cottinelli Telmo, Luís Cristino da Silva e Cassiano Branco. Uma geração que preconiza a ideia de uma “arquitetura total”, isto é, uma arquitetura que surge integrada com a pintura e as artes.
Com apenas 30 anos, é-lhe confiado o projeto do Instituto Superior Técnico (IST), que seria a primeira obra de arquitetura moderna na cidade. Esta noção de “arquitetura total” é também aprofundada ao longo das muitas viagens que Porfírio Pardal Monteiro realiza ao longo dos anos, inspirando-se nos exemplos das capitais europeias.

O encontro entre o arquiteto e o artista, fresquista e vitralista
De acordo com João Pardal Monteiro, terá sido Cottinelli Telmo quem apresentou Pardal Monteiro a Almada Negreiros. Cottineli Telmo que aliás considerava Almada Negreiros “o maior arquiteto dos pintores portugueses.”
Foi o início de uma grande colaboração e amizade, que Almada Negreiros celebrava quando ofereceu um retrato a Pardal Monteiro, com a dedicatória: “Ao arquitecto Pardal Monteiro que me fez vitralista e fresquista e amigo.”



Juntos, deram vida à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, projetada por Pardal Monteiro e com vitrais de Almada. Uma obra alvo de muita polémica, considerada “feia” pela Igreja. Ironicamente, um dos seus maiores apoiantes foi o cardeal Cerejeira, que, aliás, foi convidado para almoçar com a família de Pardal Monteiro, muito embora o arquiteto fosse assumidamente ateu.
Sobre a colaboração de Almada na Igreja Nossa de Fátima, Pardal Monteiro escreveu:
“Ninguém estranhará decerto que comece por aquele cuja colaboração foi mais extensa. No vitral, no mosaico, na pintura mural e até no ferro, o seu talento produziu obras que o colocam definitivamente no primeiro plano dos renovadores e impulsionadores da arte nacional. Já disse publicamente que esse artista foi o meu colaborador número um.”
A esta primeira obra conjunta, seguem-se muitas outras.
João Pardal Monteiro dá principal destaque às Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, cujos frescos de Almada Negreiros foram também motivo de controvérsia. Se na Gare de Alcântara, os painéis evocam lendas populares – como a da Nau Catrineta -, na Gare da Rocha do Conde de Óbidos, os temas remetem para o drama dos emigrantes no cais.
Os painéis estiveram aliás em risco de ser retirados, não tivessem sido salvo graças à intervenção do diretor do Museu de Arte Antiga, João Couto.



O trabalho e a amizade entre Almada e Pardal Monteiro continuou a consolidar-se pelos anos fora. E João Pardal Monteiro conta como o trabalho dos dois permitiu até a mudança de uma lei na cidade, ao proporem o azulejo como revestimento exterior de um edifício na rua do Salitre – um dos primeiros em Lisboa com este tipo de ornamento!

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário