Mapas: é neles que mais se repara ao entrar no gabinete de Jorge Ricardo Ferreira, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa (FCSH-UNL), onde é coordenador do mestrado em Gestão do Território. Mapas que representam, na sua maioria, fenómenos vividos em Lisboa.
Nascido e criado em Alfama, o professor Jorge Ferreira tem um gabinete que celebra a cidade onde cresceu. Aqui, encontramos mapas sobre os casos de covid-19 na cidade durante o pico da pandemia, sobre a presença do fado nas ruas, um roteiro do metro para turistas e ainda um guia relativo aos divertimentos da noite de Santo António.
Estes mapas são o resultado do trabalho dos alunos de mestrado da cadeira de Cartografia Digital e Design, onde são desafiados a criar um mapa sobre um tema livre, prestando atenção quer à cartografia, quer ao design. E, tantas vezes, Lisboa é o tema escolhido: “É a cidade em que vivemos, e temos mais facilidade em encontrar cartografia digital.”
Afinal, que melhor forma de contar a cidade se não através dos mapas, que chegam onde nem sempre a palavra consegue chegar?


Como Jorge descobriu os mapas
Os olhos de Jorge brilham à medida que vai desenrolando mapas sobre a secretária. Já os viu várias vezes, mas parece que é sempre como a primeira vez.
Nem sempre foi assim. Foi só na faculdade que o professor descobriu a magia desta outra forma de comunicar os fenómenos. Filho de pais ligados aos números, o objetivo dele era estudar Gestão, mas a média do secundário não o permitiu.
Entrou em Geografia, na FCSH, onde esperava pedir transferência para Economia. Não teve tempo para isso: “Comecei a adorar a versatilidade do curso, a transversalidade dos temas, o ambiente que havia, caloroso, quase familiar, entre alunos e professores!”, partilha com entusiasmo.

E, depois, descobriu os mapas. “Os mapas, a cartografia, a espacialização dos fenómenos!”.
“Como eu gostava muito de mapas, e da cidade, do tecido urbano, da dinâmica demográfica, da dinâmica cultural, patrimonial, tudo isso me ligou ainda mais à Geografia. Eu já não me via atrás de um balcão, num trabalho das 9 às 5.”
Aliou o gosto recém-descoberto pela Geografia ao digital, numa altura em que a Internet dava os primeiros passos. Jorge lembra-se bem do primeiro computador e impressora que o pai lhe comprou, e de lhe terem custado uma fortuna. E das primeiras aulas de Informática, em que tudo era projetado num ecrã, sem que os alunos tivessem acesso ao software.
Com o tempo, tornou-se autodidata na área da Informática, o que o levaria, anos mais tarde, a unir esforços para inaugurar esta cadeira de Cartografia Digital.
Que novos olhares sobre Lisboa e o mundo?
Olhar para os mapas que enchem o gabinete do professor Jorge é também olhar para a evolução dos tempos. “A cartografia evolui com a dinâmica da sociedade, e os interesses dos alunos.”
De ano para ano, vão surgindo, pois, “tendências”: “Houve um ano em que eram só mapas covid, houve um outro muito focado em atentados, ao qual se chamou ‘o ano da cartografia da tragédia’: os alunos simularam a queda de um avião em Lisboa, um atendado no Estádio da Luz.”
E, todos os anos, surgem mapas sobre Lisboa, que acompanham também a sua evolução.


À medida que conversamos, Jorge vai encontrando uns quantos, alguns deles já a ganhar pó (e um deles até mesmo uma barata, como constatou o professor ao abri-lo há dias). Um mapa relativo aos restaurantes mais instagrámaveis num perímetro de Lisboa, outro sobre os espaços da Quinta das Conchas, sobre os níveis de poluição sonora nesta cidade com um aeroporto no centro, e sobre a Baixa Pombalina, este dirigido a uma turma de 8.º ano de Geografia em visita de estudo.
Pelo meio, depara-se com um mapa que responde à pergunta: “Quais seriam as áreas mais afetadas em Lisboa se se verificasse a subida do nível das águas do mar?”. A resposta: a Avenida da Liberdade e a Avenida Almirante Reis, desvenda.
Mas nenhum destes mapas se encontra disponível ao público, lamenta o professor. Ficam apenas guardados no seu gabinete, como tantos outros trabalhos académicos que nunca são partilhados para lá da academia.
Veja aqui alguns dos mapas realizados por alunos:
O que faz um bom mapa?
A disciplina de Cartografia Digital e Design foi criada por Jorge, juntamente com os seus colegas Nuno Soares e José António Tenedório, no início dos anos 2000. Uma cadeira que foi pioneira na área da Geografia, por juntar duas áreas: a cartografia e o design.
O que permite, então, ao aluno arrecadar uma boa nota? O professor explica: “Um bom mapa mostra a realidade de forma criteriosa e rigorosa. O mapa tem de mostrar, de forma bastante acessível, a realidade de uma variável (ou mais) que são especializadas.”
Há cinco elementos fundamentais: o título, a escala, a legenda, a orientação e a fonte. “Um mapa torna acessível informação que, de outra forma, seria difícil de ser lida”, explica Jorge. “É essa ligação entre quem faz o mapa e quem o lê que faz o sucesso do mapa.”
No final, todos os trabalhos são entregues em analógico. Daí a importância do Design.

Que mais há para desvendar sobre a geografia de Lisboa?
No próximo ano letivo, Jorge Ferreira espera que surjam muitos mapas relativos à crise da habitação que afeta toda a Europa e, claro, Lisboa. Lisboa, que tem sofrido um conjunto de transformações que certamente começarão a ser “mapeadas” pelos alunos.
O geógrafo compara a Lisboa da sua infância e a Lisboa que vai surgindo representada nos mapas dos seus alunos. “Vejo uma cidade histórica que tem evoluído no que diz respeito à questão do urbanismo, mas também vejo com algum receio o fenómeno da turistificação”, diz ele.
Uma cidade que ele observa atentamente, sobretudo aos fins-de-semana, quando por ela caminha com a máquina fotográfica atrás.
“Há zonas de Lisboa sem habitantes, há palácios abandonados que são convertidos em lojas ou condomínios de luxo. Vejo uma dúzia de velhotes em casas degradadas. E, quando eles morrerem, os senhorios farão dessas casas hotéis ou condomínios. Os hotéis proliferam, os AL também…”.
Uma Lisboa para a qual, enquanto geógrafo, só vê uma solução: “Tem de haver um equilíbrio entre os que habitam e trabalham na cidade e aqueles que a visitam. Neste momento, a balança não pende a favor dos que aqui habitam e trabalham.”


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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