A Mouraria. Gueto dos mouros e berço do fado, casa de novos migrantes vindos de todos os cantos do mundo, durante anos esquecida e negligenciada, até que em 2012 um processo de reabilitação municipal procurou dar-lhe uma nova vida. Hoje, como tantos outros bairros tradicionais de Lisboa, também a Mouraria encontra-se sob a ameaça da gentrificação. “As pessoas que passam pela Mouraria ficam com o ‘ainda’ na boca: ‘ah, ainda há esta padaria’, ‘ah, este prédio ainda não tem alojamento local’!”, diz Filipa Bolotinha, coordenadora geral da Renovar a Mouraria.
E é com esse “ainda” que a associação regressa ao Largo da Rosa para o seu famoso arraial dos Santos Populares, do qual a Mensagem é uma vez mais parceira, coordenado pela associação Renovar a Mouraria. Desta vez, o mote é esse mesmo: “Ainda há arraial na Mouraria”.
Como um grito de resistência na cidade, no ano em que se celebra meio século desde a revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974. Por isso é que o Largo da Rosa está decorado, desde o dia 30 de maio, com cravos.


Até dia 15 de junho, este lugar vai receber muita música portuguesa, africana e árabe, com uma programação que reflete a diversidade cultural da Mouraria: entre muitos outros, estarão presentes a Rádio Olisipo, o Coro de Santa Maria Maior, Cadê o Gilberto, Tropicáustica, Toupeira, Colombina Clandestina, as Batucadeiras das Olaias…
Haverá ainda dois dias em que a programação e a venda de comida será organizada por duas coletividades convidadas: a associação desportiva O Relâmpago e a marca de roupa sustentável Bazofo.
Para além destas, vão marcar presença associações como a Disgraça, neste momento a promover uma campanha de angariação de fundos para comprar o espaço onde se encontra e manter o projeto vivo, e o Movimento Referendo pela Habitação.
“A ideia é congregar todas estas forças para passarmos a mensagem de que não nos devemos resignar”, resume Filipa.
Novo (velho) bairro
A Mouraria tem vindo a transformar-se desde 2008, ano em que se formou a associação Renovar a Mouraria, com um objetivo muito claro: dar nova vida a este bairro esquecido e estigmatizado. E, com uma nova associação, surgiu o arraial. “A primeira vez que fizemos o arraial, chamámos-lhe: ‘Há arraial na Mouraria’, um nome que é inspirado num fado. A Mouraria não era um sítio onde as pessoas vissem, a ideia era marcar o regresso da festa ao bairro”, conta Filipa.
Entretanto, em 2011, o então presidente da Câmara António Costa mudava-se para o Intendente, e o bairro da Mouraria seria alvo de um processo de reabilitação, conduzido pela Câmara Municipal de Lisboa com o apoio das organizações locais. Requalificou-se o espaço público e implementou-se um plano de desenvolvimento comunitário.
Surgia assim uma nova Mouraria.
“Mudou-se a forma como o bairro era vivido. Houve um movimento de pessoas a vir viver para cá, sobretudo população mais jovem, mais ligada às artes. A Mouraria tornou-se até um bairro trendy“, diz Filipa. “O bairro começou a ter uma vida social, começou a haver uma outra sensação de segurança.”

O nome “Há arraial na Mouraria” manteve-se durante uns anos, mas novas temáticas começaram a surgir: um arraial sem fronteiras, um arraial sobre a habitação, um arraial sobre a sustentabilidade ambiental.
Depois, veio a pandemia de covid-19, transformando o bairro e as suas vivências.
Quando as portas se voltaram a abrir e a vida regressou lentamente à normalidade, também o arraial regressou, sob o mote “Arraial P’ra Sempre”, refletindo essa necessidade de as “pessoas se voltarem a encontrar”.
Mas a Mouraria já estava diferente.
“O que é que nós sentimos no pós-covid? A degradação total das condições de vida da comunidade migrante”, começa por explicar a coordenadora da Renovar a Mouraria. “Muitos migrantes trabalhavam na restauração e ficaram sem emprego de um dia para o outro. Houve muita gente que ficou sem absolutamente nada.”



Entretanto, começava a crescer a gentrificação e a especulação imobiliária: com ela, a Mouraria voltou a esvaziar-se, diz Filipa. “Atrevo-me a dizer que a situação agora é mais complexa do que em 2008”, atira mesmo. “As pessoas não vivem no centro da cidade, a gentrificação está a estandardizar tudo.”
As diferenças sociais tornaram-se também notórias no território. “Nos últimos anos, tudo aquilo que era edificado virou segmento de médio-luxo. Havia um bairro vazio, e agora há um bairro vazio na mesma. Falamos de propriedades que muitas vezes não são alugadas, as pessoas que vêm cá uma ou duas vezes por ano.”
Como salvar a Mouraria?
Então, onde fica o papel da cidade neste bairro?
“Devia haver uma task force por parte do município para identificar os problemas. Há muitos coletivos a fazer coisas positivas, há muitos recursos que podiam ser canalizados. É preciso pensar na Mouraria como um todo, de forma integrada”, elenca Filipa, mas não sem alertar: “São precisas algumas soluções de emergência, e começaríamos por aí.”

O regresso do arraial à Mouraria não podia deixar de atuar como ferramenta de transformação também.
E daí também o seu nome. “É óbvio que o nome remete para alguma nostalgia, mas há uma outra leitura: a de que ainda estamos aqui e queremos estar sempre. É uma mensagem de ativação e reivindicação para que possamos usar o espaço público de forma igualitária, de forma livre.”
Mas, apesar de o arraial ser muito mais do que uma festa, a celebração e o convívio são componentes importantes: “O momento de festa é muito importante para criar comunidade, é quando as pessoas trabalham juntas e estão juntas no mesmo espaço. É aí que percebem que afinal não há tantas diferenças entre elas.”

É um momento de união de quem vive a Mouraria, mas também de comemoração das festas populares, diz Filipa. “Vamos ter uma conversa super interessante sobre a privatização das festas populares, fazendo o paralelo com o que aconteceu no Carnaval do Rio de Janeiro. Os turistas deliram mas esta exploração única do turismo como forma de crescimento de uma cidade põe em risco um sítio como a Mouraria.”
Uma conversa importante, até porque este ano haverá um outro arraial na Mouraria, na Associação Desportiva. Uma forma de não se perderem as tradições, mantendo o bairro vivo. “É ótimo porque são dois arraiais, e temos espaços diferentes e as pessoas que vão lá mas também vêm cá.”
E depois da festa, o que se pode esperar da Mouraria?
“Não estou otimista. Vejo o futuro com preocupação: esta questão da venda da cidade ao estrangeiro pode mesmo ter um fim…. mas quero mesmo acreditar que haverá arraial na Mouraria para sempre”, desabafa Filipa Bolotinha.


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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