O lugar é o Túnel do Zambujal, umas das saídas e entradas daquele bairro social, para passar a pé. Quer dizer, sobretudo trajeto de vizinhos. Desde há dias estão lá dentro 120 fotografias expostas, uma a uma, cara a cara, em 120 molduras hexagonais. Todas com a cor de fundo em amarelo-torrado, das mães de água que pontuam a paisagem lisboeta ao longo do Aqueduto das Águas Livres que, há séculos, teimoso e orgulhoso, também ali está todos os dias. As fotos, essas simples e humildes, estão gravadas nas duas paredes do túnel. Para ficar.
As imagens são do fotógrafo Inácio Ludgero, o trabalho saiu do associativismo do CAZAmbujal, e bondade de cidadãos e ajuda da Junta de Freguesia de Alfragide. O hexágono da moldura é símbolo de harmonia.

Na Natureza o hexágono é encontrado nas colmeias de abelhas – com o mínimo de material e o trabalho de todas é a figura que torna mais eficiente o espaço. Um bairro social devia pensar nisso, em ensinamentos naturais…

Aconteceu no túnel uma ideia, a mais útil de que me lembro ver desde há muito no nosso país. E foi sobre uma arte indígena geralmente pouco cuidada – a política (de pólis, gestão da cidade). A ideia foi então inaugurada e passou a lavar-nos a alma sob um túnel pedonal, largo e luminoso, no bairro do Zambujal, em Alfragide, na Grande Lisboa, território pobre.
Ali, o diálogo passou a ser diário e multiplicado. E nós, os outros, só podemos invejá-lo. Eles, quem tem a dita de usar o túnel, julgam ouvir saudações das próprias fotografias. E dialoga-se.
– Olá, eu sou o Mozinho.
– Olá, Mozinho, quem não te conhece, a ti mais esse teu boné azul…
E assim por diante. À tarde, na volta do trabalho, novos cumprimentos.

Talvez haja de vez em quando virares de cara, mas entre vizinhos não se aguentam anos e anos. De 120 fotos, aposto, a percentagem de namoros, ali começados, será sempre maior. Bryan, há dez anos no bairro, pouco mais de vida, riso malandro e orelhas grandes, quanto tempo vai resistir antes de utilizar a tática na Escola Básica Almeida Garrett: “Tou nas fotos do túnel, não és filha daquela senhora linda que também lá está?”
Nós, os do resto do mundo, ouvimos já todos falar muito do bairro. Em outubro de 2024 houve tumultos no Zambujal. Há exatos dois anos as televisões estiveram por lá. Desta vez, não. Então, se me dão licença, enchamos os olhos com o acontecimento recente, que apesar de luminoso, pouco país viu.
Segue-se a bela ideia que lá continua.
Cheguei logo pelas 9 e tal, a festa estava marcada para o meio-dia. Entrei no bairro pela Rua das Galegas, passei pela Rua das Mães de Água e estacionei na esquina com a Rua do Restolho.
Gosto de lugares com a poesia da memória, geralmente nomes mais bonitos que os escolhidos pelas comissões toponímicas. Naquela esquina, uma pichagem continuava grosseira contra os polícias, lembrando-se do que aconteceu há dois anos, embora meio escondida por arbustos de pequenas flores cor-de-rosa.
O bairro foi construído com aquele toque de – ai, como se chama?… – respeito pelas pessoas, que ungiu alguns arquitetos portugueses no virar para este século. Duzentos e tal quilómetros a Norte, os estudantes universitários em Aveiro que frequentam aquele seu edifício de fachada oval, o Complexo Pedagógico, arejado por ter sido projetado para ser inspirador, sabem do que falo.

Foi desenhado por Vítor Figueiredo (1929-2004), que também foi o arquiteto do Bairro do Zambujal. Neste, ele fez habitação social, pobre, mas igualmente inteligente como a mais moderna universidade portuguesa.


“Subiu a construção como se fosse sólido/ Ergueu no patamar quatro paredes mágicas/ Tijolo com tijolo num desenho lógico…” – assim projetou o arquiteto Vítor Figueiredo a sua construção. Exatamente o que Chico Buarque chamou à sua mais bela canção: Construção.
Para a inauguração de sábado desci a pé pela Rua das Mães de Água. Confirmei o que acabo de dizer sobre como pensou aquele que traçou este bairro. Os prédios modestos estão separados para a luz do Sol entrar e naquela alameda os carros não entram, para proteger vários desses singelos monumentos portugueses, as mães de água.
Operárias antigas do Aqueduto das Águas Livres (tanta palavra limpa), as mães de água estão hoje reformadas, mas continuam respeitadas no Zambujal. São guarda-joias da memória. Em pedra talhada, mas paredes pintadas de amarelo-torrado, são como aquela caixinha onde a avó guardou as fotos de gerações de casamentos.

De família percebem a mães de água, sempre enfileiradas, podem apontar de onde vieram e para onde vão as outras mães de água. Então, no Zambujal, pois assim ficou projetado pelo arquiteto atento, a sua Rua das Mães de Água é para calcorrear e conviver com gente, sem carros nem parque de estacionamento.
A alameda pedonal desembocou numa mãe de água maior que as outras e cheguei ao meu destino, do qual ainda só vos anunciei os projetos de namoro do Bryan. Em frente, um túnel largo e baixo, também só para andar a pé.
O luminoso túnel no fim do bairro do Zambujal.
Eu sei quanto nós todos sabemos tão pouco destes bairros. Quando passamos, prudentemente quase sempre ao lado, confundimo-los, um misto de kuduro e coladera – rasgados, estamos convictos, mais frequentemente que os outros bairros portugueses pelas sirenes dos carros-patrulha – com septuagenários beirões que não saíram a tempo, ciganos com muitos filhos e doadores das ilhas cabo-verdianas que nos trouxeram a cachupa, ou luandenses, os quiabos… O Zambujal também é isso.
Mas porque estou aqui para contar o espanto maravilhoso que me causou a sua ideia do túnel da máquina contra o esquecimento, vou recordar-vos melhor as coordenadas. O Zambujal vocês não dão por ele. Os mapas rodoviários intensos mascaram os cruzamentos em formas que parecem tulipas gentis, mas é mentira.
Aquele asfalto todo é para esconder o Zambujal.
A CRIL e as IC17 e IC19 e o Nó da Buraca são siglas úteis para os ouvintes da TSF, às horas de ponta, mas distraem-nos do facto de que a serra de Monsanto está a dois passos do lugar onde parei, logo a seguir ao meu túnel maravilhoso.
“Olha, afinal aquela empena é ali” – surpreendi-me, ao ver agora o mural inteiro, em vez da nesga que lobriguei, dezenas de vezes, a caminho de Sintra ou descendo Monsanto. Ora, aquele mural do último prédio fica no terreiro virado ao nosso túnel, entre a Rua do Cerrado do Zambujeiro (“nômi stranhu”, deve dizer a senhora Vózinha, no Mindelo, ilha de São Vicente, ao receber carta da prima emigrada) e a Rua das Mães de Água.
E esse mural, inaugurado no ano passado, merece mais do que escondimento. O autor é Pedro das Neves, assina Das Neves, e é um epítome daquilo que tenho estado a contar: ele é filho da terra, do bairro, ou um pouco ao lado, e é dessa relação que ele quer contar. E eu também quero porque o mural tem tudo a ver com túnel fronteiro. Imagem e memória, cara e orgulho.
Nós somos – grito, mais digno não há.

À frente da empena, Das Neves descreveu-me a imagem grande de quatro andares, da qual, a partir dos asfaltos e seus falsos trevos, eu só conhecia uma franja. O miúdo alado é o Vicente, o mais novo dos quatro filhos do muralista, com o “V” ao peito, como o “S” do Super-Homem.
O tema contado é a água, uma das necessidades básicas que devem ser garantidas, como proclamou a ONU em Nova Iorque e o Zambujal desenhou nos seus prédios. (Há semanas, António Guterres, o secretário-geral da ONU, veio ao bairro espreitar). O projeto Zambujal360º já acordou 17 murais.
O Vicente empunha um catavento e o pai envolveu-o de coisas e coisas. Ao fundo, evidentemente, o Aqueduto lisboeta, um ganso, e uma torrente de água que desce de um castelo, e um cântaro de plástico, e um tentilhão cujo bico extravasa em dois palmos a empena lateral direita do prédio…
Das Neves tinha explicações para tudo. Eu não queria, bastavam-me as cores vívidas. A torrente é a Nascente, evocação da água ali evocada. Ela corre vinda de castelos, pois o Pedro Neves é um imigrante de 5 km, nasceu no bairro das Fontaínhas, ali junto às Portas de Benfica, ainda hoje com os Castelinhos das Fontaínhas (de facto foram alfândega) na rotunda, à entrada de Lisboa.

“Estás a ver o miúdo a saltar pelos telhados das Fontainhas, é o Carlos”, disse-me Das Neves. Agarrou no braço do Carlos Oliveira, que passava, um quarentão que me confirmou: “Fui o inventor do parcours em Portugal”. O Aqueduto tinha as mães de água à volta como testemunhas. O tentilhão foi explicado porque sim: no bairro do Zambujal há concursos de canto de tentilhões. E o ganso? “Fui da Casa Pia”, disse o Pedro, do símbolo da escola onde estudou relojoaria. Do outro lado da CRIL é o Estádio do Pina Manique.
E ainda não falámos da mais importante ligação do Zambujal à água. Não me refiro à que vem da Mãe de Água Velha, partindo de Belas, passa por ali e vai para a Mãe de Água das Amoreiras, 14 km de beleza e histórias outras, como a do primeiro criminoso em série, o Diogo Alves, o “Assassino do Aqueduto”. Aos que logo aproveitam para sujar a conversa – “nestes bairros com tanto imigrante, o que se há de esperar…” – lembro: esse Alves era galego, mais português não há.
Porém eu aludia a outras águas, ligadas ao Zambujal e exatamente ao seu túnel que aqui se conta. Águas mais poderosas, ibéricas e até do tamanho do mundo. Nascem a dois passos depois de vermos a foto do Ronaldo Cruz, rapazinho negro, com camisola cheia de bolas de futebol, nome premonitório e ponta de lança. A sua foto, a última do túnel, já está quase na grande-área do adversário, e olha uma mãe-de água na vizinha Freguesia das Águas Livres (Buraca), casinha desmazelada e sem pintura.

O presidente da Câmara da Amadora, Vítor Ferreira, que viera ao Zambujal para aplaudir o sucesso do túnel, fez questão em mostrar que notou a diferença no tratamento de mães de água. Quero crer que alguém vai pregar para outra freguesia e aquela casinha infeliz da Buraca vai ter em breve uma demão de pincel em amarelo-torrado. Quem sabe, assistimos à primeira consequência benfazeja e prática por existir um túnel inteligente.

Mas retorno às águas livres deste lugar. A dois passos do fim do túnel nasce a ribeirinha de Algés, que passa por ele serpenteando, galgada por asfalto, metida em caneiros, por vezes aparecendo sôfrega de luz, até desaguar em Pedrouços.
Vive só 5 km, é o último afluente do Tejo. O maior rio da península, viaja mais de 1000 km, recebe água de dezenas de outros rios, acolhe a ribeira de Algés e, 200 metros depois, desagua no oceano, perdão, nos oceanos, onde em tempos o Tejo foi inventar o Mundo redondo.
Que papel teve a ribeira de Algés nessa invenção, não sei exatamente. Sei é que a nossa Lisboa e arredores é como Roma. A gente põe-se a escavar um bocadinho de terra modesta, um túnel com fotografias de gente simples e arriscamo-nos a desencantar maravilhas.
Fotos. Bieka, pestanuda, tanta cor quente, índia brasileira, indiana ou cigana, no bairro desde 1997. Emma e o seu mano Lucas, dois dentes e loiro. Dola, óculos, olhar sofrido e bondoso, chegou ao bairro em 1977, se foi de Angola, ano terrível, fica tudo explicado. Xaputa, estiloso com o seu chapéu panamá. Glória expôs-se agarrada a Caspar, o seu gato felpudo, tão branco que a haver finlandês no túnel só pode ser ele. Vítor, não viveu no bairro, desenhou-o, como Sempé com as capas da revista New Yorker. Edyavania & Eliany, filha e mãe chegadas há pouco, 2019, com promessa de revolucionarem os assentos batismais…






Fotos olhadas sem conversa ao vivo. Fotos com conversa: no sábado, quando cheguei ainda cedo, uma mulher branca e uma rapariguinha negra atravessavam o túnel, iam apressadas. Foi a mais nova que deu pela novidade, e agarrou a mão da outra e a fez rodar. Detiveram-se na foto de alguém que reconheceram, fotos próximas e depois em volta. Só então deram conta do tamanho do acontecimento. A mulher disse: “Que lindo.” E partiram de mãos dadas para o fundo do túnel.

Foi um caso em que o conhecimento partiu dos factos e só depois para a conclusão. Pertence à categoria dos saberes mais raros. São os mais sólidos.
Logo reparei em António Ferreira, solitário e sorriso tímido. Ele já tinha estado frente à sua foto, a meio do túnel, depois deambulava e voltava para perto dela. Olhava as pessoas a olhar, nomeadamente a foto dele.
Esta exposição retém os visitantes, o meu amigo Inácio Ludgero disse-me que praticou a técnica do Leonardo Da Vinci: se colamos os nossos olhos na Mona Lisa, ela segue-nos com o olhar. Conheço o Ludgero há muito, ele costumava ser mais presunçoso. Das duas últimas que vezes que vi os olhares da Mona Lisa, enfastiada pela multidão de histéricos turistas japoneses. Achei mais emocionantes os olhares fotografados das pessoas do Zambujal.
O fascínio do António Ferreira comoveu-me.
Fui ter com ele e perguntei-lhe se foi fotografado. Disse que não sabia. Eu sabia que ele sabia. Convidei-o a irmos ver. Fomos. O hexágono dizia que o António Ferreira vivia no Zambujal há 30 anos (1997). Fiquei muito honrado em fotografá-lo com ele fotografado. Acho que ele gostou.

No túnel, quando o Avelino Soares estava a olhar a sua foto tinha um boné diferente do fotografado. Estava no bairro desde 2016, era pedreiro e viera de Cabo Verde em 1999, “da ilha de Santiago”.
Puxei galões de conversa entre africanos, como era o caso: “Ah, é badiu.” O riso saiu-lhe rolando e disse, inclinando o corpo sem mexer os pés: “Com muita honra.”

Badiu vem de vadio, insulto muito antigo para os filhos da ilha com raízes mais africanas de Cabo Verde. Hoje pertence à mesma honra que Dino D’Santiago invoca no nome artístico que escolheu. Batizado Claudino, quando se fez cantor acrescentou D’Santiago ao nominho para lembrar a ilha dos pais que vieram morar para Quarteira, Algarve, onde ele nasceu no Bairro dos Pescadores, tão bairro como o Zambujal desta nossa história.
Perguntei-lhe pelo boné, ao Avelino de lá atrás. Tirou-o da cabeça, para eu ver o brasão de armas português bordado em dourado e mostrou-mo com o mesmo riso gutural e passos de dança coleante: “É o meu Portugalinho”.
Reparem, estas histórias não acontecem porque eu estou a contar o Bairro do Zambujal. Porque o Bairro do Zambujal existe é que eu tenho de contar estas histórias.
Dois irmãozitos ciganos, sete, oito anos, estavam intrigados comigo, tão perguntador, e ela, mais velha e espevitada, quis saber o que eu fazia. Contei-lhe, mais ou menos, que estava a gostar das fotografias dos vizinhos, ali num túnel de vizinhos. Ela revelou-me: “Também vou ter uma foto destas.”
Pedi-lhe os nomes, Diogo e Naiane, rapei do meu caderno minúsculo, pedi para se repetir o nome dela, escrevi-o, mas ela duvidou de quem perguntava “como se escreve?”. Exigiu-me o caderninho e a esferográfica, torceu o nariz pelos meus gatafunhos e escreveu ela: “Naiane.” Como um admirável “N” abrindo o cursivo. O miúdo perguntou à irmã: “Ele pôs D no meu nome?”. Que sim. Tranquilizado com a resposta, achou-me, espero, merecedor de uma cacha: “Um dia também vou ter fotografia aqui.”
Ao meio-dia voltei ao terreiro, à entrada do túnel, houve discursos à volta da mãe-de-água maior. Entretanto, padre José Matias, de quem também vi foto no túnel, disse-me que diz missa em crioulo e treina equipa de futebol. A irmã Ivani, de hábito e lenço brancos, também com foto e 20 anos do bairro disse-me que era de São Paulo e que depois dos discursos ia haver cachupa.

Ao lado da cachupa oferecida, cruzei-me com o José Fanha, poeta e diseur, de eternos suspensórios, bigode hirsuto e queixo projetado. Conhecemo-nos era eu trotskista, ele maoísta nos idos do 25 de Abril. No sábado, ele disse-me: “A bondade é revolucionária.”
Eu acho que no essencial eu já pensava isso no Verão Quente.
O que garantidamente penso hoje é outra coisa: o essencial é a bondade, incluindo para as revoluções. Aquele sábado foi cheio como a invenção do Zambujal, há 40 anos, com o traço certo; cheio como, hoje, em fotografia à procura dos olhares dos vizinhos. Coisas simples.
Usn dias depois da inauguaração o Inácio Ludgero recebeu um poema, eviado por Ester L. Cid, aluna da Univerdade da Terceira idade de Carnaxide:
Este não é um túnel de passagem, é um túnel de ficar. Antes era sombra, era betão frio, lugar de apressar o passo.
Agora é parede que abraça, é casa aberta para a rua. Em cada hexágono, uma vida em cada acrílico, uma história.
O amarelo por trás não é cor é sol posto à mão pelo fotógrafo para dizer: aqui mora gente de luz.
Aqui está a menina do sorriso largo o rapaz que cresceu a jogar à bola a mãe, o avô, a vizinha os que chegaram há pouco e os que cá estão desde sempre.
Ninguém é estranho nesta parede. Todos têm nome, todos têm rosto
todos dizem a quem passa: nós existimos, nós pertencemos nós somos bairro.
Quem entra de um lado e sai do outro já não atravessou um túnel. Atravessou um povo.

Lembram-se? Linhas lá atrás comparei Construção, de Chico Buarque, à forma como o bairro do Zambujal foi projetado. As palavras da canção são todas simples e comprovei com três versos, acabados em “sólido”, “mágicas” e “lógico”. Na canção tão longa quanto bela, mais de vinte versos, todos, tinham também a última palavra assim: “E cada filho seu como se fosse o único”… “E atravessou a rua com seu passo tímido”… “Seus olhos embotados em cimento e lágrima”…
Já deu para entender que além da simplicidade, todos os versos acabavam com uma palavra esdrúxula. O acento notório pontuava cada verso e dava harmonia e ritmo à canção.
A revista Rolling Stone elegeu-a a maior canção brasileira de todos os tempos. Além da qualidade musical, Construção é um conseguimento linguístico: sendo todas aquelas palavras finais esdrúxulas, o som decai desde a antepenúltima sílaba, a acentuada, e morre no finzinho da última palavra. Isto é, todos os versos sugerem, só pelo tom do som, só por a palavra ser esdrúxula, anunciavam a história contada: o operário em Construção morreu estatelado.
Em três versos, Chico Buarque di-lo explicitamente “E se acabou no chão feito pacote flácido/ Agonizou no meio do passeio público/ Morreu na contramão atrapalhando tráfego”. Mas em toda a canção, em todos os versos, em cada última palavra, porque esta era esdrúxula, ouvia-se o cair – a tragédia do protagonista.
Quer dizer, o simples, como um projeto de bairro social de Victor Figueiredo, o belo, como uma canção do Chico e o inteligente como um túnel de vizinhos ganham em ter um cuidado esdrúxulo adicional para melhor serem ouvidos.
Ao lado do mural do Das Neves que já descrevi, no outro lado da Rua das Mães de Água, também a empena do último prédio foi pintada em mural. Da mesma altura e tamanho, e também integrado no Projeto 360 sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável defendidos pelas Nações Unidas. O tema desta vez era sobre a igualdade de géneros.
O bairro bem fez em querer protagonizar esse assunto. A um prédio ao lado, a pintora Mariana Duarte Santos foi buscar os modelos. Soraia e Pedro das Neves (esse, o Das Neves que pintou o mural vizinho) moradores na vizinha Rua das Gaias onde se ouvem os tentilhões. Ela cigana, ele, de origem cabo-verdiana.
Soraia foi vítima de violência demasiado comum em bairros pobres de hoje, a família quis casá-la dentro da etnia. Ela recusou um primeira imposição e uma segunda. Mas ela quis o Pedro, que não era cigano. E os dois fugiram.
Serem um casal é de uma igualdade de género do caraças: eles estão juntos porque os dois querem-se e muito, e lutaram os dois por isso. A Mensagem de Lisboa já os levou ao palco do São Luiz para contarem esta gesta.

E agora aconteceu o efeito esdrúxulo daquele mural. Como já dizia o poeta “todas as cartas de amor são ridículas” e o Chico Buarque não podia estar mais de acordo.
A Mariana Duarte Santos é uma magnífica muralista, a sua pintura do jornalista Mário Zambujal – olha, outra coincidência (não porque o mundo seja pequenino, se calhar o Bairro do Zambujal é que é imenso) –, deixou-nos na Estrada de Benfica o mais bonito sorriso nas ruas de Lisboa. A Mensagem também o escreveu.
Para o Zambujal, a Mariana ilustrou a igualdade de género como um jogo de xadrez. Ou mais exatamente, pintou uma partida que aconteceu mesmo entre Judit Polgar, campeã húngara, e Garry Kasparov, que fora campeão do mundo até 2000. Ora, dois anos depois, já ex-campeão, Kasparav, que falara com acinte sobre o xadrez feminino, perdeu um jogo contra a húngara.

No mural do prédio do Zambujal, a posição das pedras no tabuleiro ficou pintada tal-qual acabara o jogo naquele dia, em Moscovo, em 2002. E, à volta, a artista reproduziu a nuca de cabelos meio anelados do Pedro das Neves (modelo), imitando um Kasparov derrotado, quiçá humilhado. De fronte, virada para o povo do bairro ficou a imagem serena da morena Soraia (modelo). Em 2002, de Moscovo, as televisões transmitiram o sorriso trocista da magiar Polgar saboreando a vingança.
A muralista chamou à sua obra “Queen for a Day”, “Rainha por um Dia”. O título certo para o que se passara em Moscovo, em 2002. Mas o bairro que conhece há tanto ano os modelos que posaram para o mural e ainda hoje os cruza de mãos dadas, custava-lhe o fingimento do confronto entre os dois sexos.
Então, Mariana Duarte Santos resolveu o dilema com subtileza. O mural mostra fielmente o tabuleiro com as poucas as pedras do fim da partida, quando os dois jogadores já tinham perdido as respetivas Rainhas.
Reparem como, não o quezilento Gary Kasparov, mas o nosso Pedro das Neves não açambarcou a poderosa pedra da adversária. Junto ao tabuleiro a sua mão direita acaricia a coroa e as vestes da pedra branca, protege a Rainha da sua Rainha, a sua Soraia que ele ama. Defronte, não é a adversária é a companheira.
Em poucas horas, as minhas primeiras pelo bairro adentro, isto e aquilo, sobretudo pessoas, túnel fotográfico e murais, o Zambujal foi só e sempre esta vontade: “E se falássemos?…”
E se mandássemos este bairro por Portugal fora a ver se ele nos emendava?


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