Foi numa tarde, em casa de um amigo, que Miguel Cartaxana tirou o pó de uma letra que guardava desde a adolescência – a fase em que começou a escrever músicas. Ao ouvir o instrumental do amigo André Santos, também conhecido como Ícaro Sdr, Miguel percebeu que aquelas palavras antigas podiam finalmente ganhar um ritmo. A música “Bonecos” acabaria por ser publicada no seu álbum: Dança de Egos.

Miguel tem 32 anos e trabalha em cinema como diretor de fotografia e operador de câmara. A música é um projeto paralelo na vida, “sem a pressão de lhe garantir o sustento”, nas palavras do próprio.

O nome artístico, Fungo, nasceu de um disco rígido onde guardava os seus projetos musicais. Gostou da fonética da palavra e da distância que lhe dava do nome pessoal.  

Foi através da Associação Com Calma, em Benfica, que conheceu o projeto Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. O convite para participar neste projeto levou-o mais tarde a um desafio inesperado: ensinar o cancioneiro de Benfica a cantar Rap. 

“Fiquei muito entusiasmado, mas ao mesmo tempo pensei: como é que isto se vai passar? Quando eu fui à primeira sessão, aquilo foi caótico, mas foi arrepiante, porque de repente tinha 30 pessoas a cantarem a minha música”, conta. 

Cancioneiro de Benfica e Miguel Cartaxana. Foto: Nicole Sánchez

A música que passou a ser de todos

A escola dá-lhe testes ele quer uma folha em branco / Torna alma pura em peste e encosta-a a um canto / “Vira-te para a parede, sou eu que mando!” Notas por notas, só uma resposta certa no entanto / Ele viu a porta aberta e conheceu outros encantos.
Letra da música "Bonecos" 

A canção Bonecos é uma crítica ao sistema educativo, que parte também da experiência pessoal de Miguel quando andava na escola: para o artista, é urgente uma reformulação da educação que tenha em conta as crianças com um pensamento divergente, criativas e que gostam de imaginar, mas nem sempre se enquadram no modelo de sala de aula.

“A educação não está feita para eles. E acabam por sofrer, como eu sofri. Senti-me sempre incompreendido na educação”, revela.

Miguel Cartaxana. Foto: Nicole Sánchez

Passar o testemunho para o Cancioneiro de Benfica tornou-se uma tarefa para Miguel, que teve de se colocar no papel de professor e ensinar a cadência com que interpretava a música. “Foi todo um processo de estar a tentar ensinar. E a procura do ritmo, de desacelerar e de acelerar.” conta o rapper. 

A letra manteve-se. Mas o coro adaptou a divisão das sílabas partidas e tempos do rap. “O Rap rima-se muito na tarola (instrumento musical) e eu faço-o de uma maneira mais disforme. Então o coro adaptou para uma rima mais quadrada”.  

Em agosto, no festival Bons Sons em Tomar, Miguel ouviu pela primeira vez a sua música a ser interpretada pelo Cancioneiro. Depois de cantar a sua versão original, ficou a assistir àquela que o grupo tinha construído. Um Rap que até ali era seu e do seu amigo Ícaro, vestiu uma nova pele, feita de muitas vozes.

“ A música deixou de ser só minha”, disse com orgulho. 

Cancioneiro de Benfica e Miguel Cartaxana. Foto: Nicole Sánchez

A transformação não ficou apenas no ritmo e nas vozes do Cancioneiro. Em Bonecos, a figura do professor ganhou também uma voz própria, através de Paula Ferro, professora do Ensino Básico e membro do grupo, já mencionada na Mensagem de Lisboa quando o projeto foi apresentado aos leitores:

“Tenho umas interjeições na música do professor a mandar para a rua o aluno. E a Paula num ensaio concordou em fazer essa voz. Sendo ela professora achei que fizesse todo o sentido”, conta Miguel.

Meses depois, o artista convidou Paula para uma atuação na Associação Com Calma. A presença da professora trouxe outra dimensão à interpretação da música: uma professora real a dar voz à figura que, na música, repreende o aluno. 

Um aluno que também já foi Miguel.

Esta história faz parte da série “Lisboa a Voltar a Gostar Dela Própria”, uma iniciativa que pretende dar palco a artistas que, embora distantes dos grandes focos mediáticos, moldam a cultura vibrante da cidade. Saiba mais na página do projeto.


Tatiana Martins

Nascida e criada nas ruas de Lisboa. Encontra no simples “bom dia” e na conversa de café a matéria-prima para a sua escrita. Para ela, contar histórias começou na vizinhança.É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Autónoma de Lisboa e está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

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