Já aqui tenho escrito que estudos recentes sobre a origem do fado, realizados sobretudo para a candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade, mostram que a canção de Lisboa terá, afinal, nascido no Brasil, onde uma modinha tocada ao piano, cantada e dançada nos salões do Império, acompanhou, no final das Invasões Francesas, o regresso da Corte a Portugal, acabando por se transformar numa canção urbana tocada à guitarra com um estilo muito próprio.

Nunca me tinha, porém, dado ao trabalho de investigar que evolução teria tido no Brasil essa mesma modinha – que foi, na década de 1840, contemporânea da polca, da mazurca, da quadrilha e de outras danças de salão europeias – até ter descoberto um interessante artigo da revista Fadista, no qual a intérprete brasileira Nani Medeiros conta como, ao ouvir uma noite os trinados de Celeste Rodrigues, entendeu imediatamente que fado e choro só podiam partilhar “o mesmo universo musical”.

Tinha razão, claro – e isso esclareceu imediatamente a minha dúvida sobre a razão por que haveria uma noite semanal dedicada ao choro em mais de uma casa de fados de Lisboa, coisa que nunca tinha sido clara para mim; mas, na verdade, o chorinho tem as suas raízes, tal como o fado, no lundum; e, antes de ter tido direito a letras, foi sobretudo um estilo de interpretação (e não esqueçamos que, no fado, ainda dizemos “estilar” quando o intérprete imprime a sua marca a uma determinada melodia). Foi só mais tarde que ganhou contornos tipicamente brasileiros, tornando-se uma das primeiras canções urbanas do país.

Embora o nome deste género musical aponte para algo que é chorado, há quem afirme que a designação se deve aos “chorões” ou “choromeleiros”, que eram agremiações de músicos populares, e não a qualquer espécie de tom mais triste reservado à canção. Outros defendem, porém, que a palavra é mesmo uma fusão da forma do verbo “chorar” com a palavra latina “chorus”, que quer dizer coro. E há ainda estudiosos que avançam com a tese de que o vocábulo “choro” é, nesta acepção específica, uma corruptela de “xolo”, dança que os escravos executavam nas fazendas quando se reuniam.

Inicialmente acompanhado fortemente por instrumentos de sopro, o choro acabou por conquistar o domínio das cordas – como aconteceu com o fado em terras lusas – e hoje é normalmente tocado com violão, cavaquinho, bandolim (e, em Portugal, com a ajuda da nossa guitarra, como acontece, de resto, quando Nani Medeiros o canta na casa de fados Fama de Alfama, às sextas).

Enfim, fado e choro são comprovadamente expressões musicais nascidas no mesmo caldeirão cultural que foi o Brasil das primeiras décadas do século XIX (africano, europeu e americano) e que, com evoluções distintas nos respectivos países, acabaram ainda assim por se aproximar em muitas coisas (é bom lembrar, por exemplo, que o fado também começou por ser dançado, ou “batido” – e reza a lenda que a Severa o bailava de forma bastante sedutora).

Cantamos ou choramos?

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Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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