Quando, há cinquenta anos, o Movimento das Forças Armadas instaurou a democracia em Portugal – e fez imediatamente desaparecer da nossa vista, com elegância e excepcional bonomia, os homens do regime –, o fado levou por tabela e, durante um tempo, foi posto de lado e considerado malvisto.
Houve quem alegasse que era a canção do regime; que o fado tinha estado sempre ao lado dos outros portuguesíssimos FF – de futebol e Fátima – com o fito de atirar areia para os olhos do Zé Povinho; e que até muitas fadistas – entre as quais Amália Rodrigues, claro – tinham aceitado convites do Governo para promover o fado, fosse ao vivo ou em filmes.
Mas será mesmo verdade que a Direita apreciava e lambia as botas ao fado, e que Amália era a tal amiga dos fascistas que tanta gente pintou nesse tempo?
Se formos um pouco mais atrás, depressa concluiremos que a história só pode estar mal contada, até porque, na origem, o fado foi uma espécie de canção de intervenção avant la lettre: primeiro nas ruas e tabernas, pela voz de prostitutas, malandros e marginais, traduzia as queixas sobre a vida precária que eram obrigados a levar e a degradação social a que assistiam; mais tarde, já como protagonista do endiabrado teatro de Revista, o fado falava de mais, brincando, quase sempre, com o que não devia.
E, de facto, segundo as bem achadas palavras de Rui Vieira Nery, António Ferro considerava-o “perigosamente proletário”, arredando-o por isso de todo o tipo de celebrações e substituindo-o pelo folclore (um F que bem podia ter tomado o lugar do fado), muito mais ao sabor da sua política ruralista de orgulho dos pobrezinhos; até ao fim da Segunda Guerra Mundial, por isso, não se ouviu fado em cerimónias oficiais (a sua presença na Grande Exposição do Mundo Português não terá passado de residual), o que foi, de resto, um profundo alívio para o Beato de serviço – Salazar – que sempre olhou de viés a canção de Lisboa, chegando a chamar-lhe “deprimente”.
Também a vida de Amália nesse período se parece bem pouco com a reputação ventilada em 1974 e durante o Verão Quente; foi pena que, então, ainda não soubéssemos a história que o jornalista Miguel Carvalho resolveu transformar no livro Amália: Ditadura e Revolução em 2020, ao desencantar num arquivo documentos que provavam que a diva, ao contrário do que sempre se dissera, financiara a oposição e dera dinheiro a várias famílias de presos políticos, além, claro, de ter tido a coragem de cantar Abandono, o fado escrito por David Mourão-Ferreira que se celebrizaria como “Peniche” justamente por remeter para o Forte que então servia de prisão aos adversários da ditadura.
Mas então porque se dizia que o fado era de Direita?
É evidente que a passagem de estrangeiros por Lisboa no final da Segunda Guerra Mundial teve a sua culpa, pondo a nu hábitos e culturas muito mais avançados que escancararam de repente o extremo atraso português; e, para recuperar a confiança popular, António Ferro tentou então desesperadamente trazer o muito apreciado fado para a ribalta, mas puxando do lápis azul para lhe alterar o discurso que, com o tempo, segundo António Osório, o tornou “um fado que se entrega à resignação”; ora, é esse fado esvaziado que os jovens irão substituir pela música que vem de fora e pelos cantautores de Esquerda.
A sobrevivência do fado deve-se, assim, sobretudo a Carlos do Carmo (a quem nos idos de 1974 chamavam “capachinho vermelho” pelas suas simpatias políticas) e ao seu letrista de eleição, Ary dos Santos, poeta filiado no Partido Comunista, bastante activos na época; e, se quisermos ser completamente sinceros, também a Mísia, que o reinventou, e a Amália, que, nem que fosse nos palcos lá de fora, nunca desistiu do seu destino.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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