Há lugares que desafiam o tempo, até a física das cidades. Como este, na rua José Falcão, em Arroios. A Retrosaria Borges é hoje gerida pela lisboeta Irene Oliveira de 80 anos, e pela filha Beta, de 48, mas a história desta loja de prateleiras altas de madeira escura e sem letreiro cá fora que lhe adivinhe a função, é bem mais antiga do que elas.
Aqui dentro, ficamos rodeados de novelos de lã, rolos de tecido, linhas coloridas, botões de vários tamanhos e feitios, fechos, agulhas, fitas e outros acessórios de costura. Nas vitrines, há babetes e peças feitas à mão. Mãe e filha fazem arranjos de costura e vendem tecidos e materiais para quem gosta de costurar em casa.




Ainda os há. Embora sejam menos.
A maioria dos clientes são familiares, pessoas idosas, as mesmas de há anos. Procuram tecidos ou acessórios para os seus próprios trabalhos e recorrem aos serviços de Irene e Beta para fazer bainhas, substituir fechos ou reparar peças de roupa.
Irene, que cresceu neste bairro, ajudando os padrinhos, antigos proprietários da retrosaria, viu a paisagem mudar diante de si: já não é costume ver as crianças pelo lado de fora a correr, ouvi-las gritar e o som da bola a bater de manhã até ao fim da tarde.
Arroios já foi assim.

Foi ali que Irene aprendeu a conviver com novelos de lã, tecidos e linhas. O primeiro brinquedo de que se lembra foi um ioiô improvisado pelos padrinhos com linha de costura. Quando estes morreram, quase para manter intacta a herança dessa infância, Irene decidiu manter a loja aberta.
Fundada em 1902, a retrosaria continua a abrir as portas todas as manhãs numa das freguesias mais centrais e transformadas nos últimos anos. É aqui o quarteirão mais populoso do país e, tal como noutras freguesias de Lisboa, os negócios tradicionais estão a desaparecer.
Faça este exercício: vá ao Google Maps, procure o histórico de imagens da Rua José Falcão e veja o que existia naquela mesma rua em 2009 (o ano mais antigo a que o Google Maps nos permite ir). Ali, veremos lojas de venda de instrumentos musicais, de decoração, de mobiliário e eletrodomésticos, casas especializadas em carimbos e material de escritório, que hoje já não existem.

Mas esta não é propriamente uma história de sucesso: a sobrevivência da retrosaria tem sido “super difícil”. E a ausência de um letreiro é prova disso. Beta diz que a diminuição dos clientes faz com que a aquisição seja automaticamente mais difícil, pois a taxa a ser paga é elevada e a Retrosaria não tem lucro suficiente para suprir os custos. Além disso, a loja, que anteriormente permanecia aberta até às 19 horas, passou a encerrar às 17 horas. Sem movimento, num bairro que diz estar “tão diferente”.
Os hábitos mudaram
Beta diz esta mudança dos hábitos de consumo das gerações mais novas, aliado à subida das rendas, está na origem de todos os desafios deste velho ofício. Os mais novos privilegiam as compras online, a fast fashion e a ideia de “traga a roupa a casa e se houver algum problema é só enviar de volta”.
A rua da Conceção, na Baixa, que todos os lisboetas reconhecem como a rua das retrosarias, por exemplo, é o maior dos sintomas. Já só restam quatro, quando há poucos anos eram 15. E embora estejam protegidas pelo programa “Lojas com História”, impedindo as rendas de subir durante os anos em que vigora o acordo, além de insenções fiscais, nem sempre basta.

João Barreta, especialista em Gestão do Território e Urbanismo Comercial, lembrava em entrevista à Mensagem, em 2023, que “do ponto de vista da essência do Comércio, arriscaria afirmar que a necessidade que deu origem a tais comércios encontrou outras formas de satisfação, ou seja, são cada vez menos as pessoas que procuram essa oferta”.

Na mesma reportagem, Guilherme Pais, proprietário da retrosaria da Adriana Coelho, lembrava que este não era um problema novo. “A Baixa começou em declínio na década de 70 para 80, com o surgimento das novas superfícies comerciais, o prolongamento da cidade, as mudanças nos hábitos dos consumidores, a desertificação dos moradores…”.
Por isso, não chega apoiar lojas com muita Histórias e sem negócio no futuro. E João Barreta chega mesmo a propor um conjunto de medidas, como: a divulgação de um roteiro de lojas, a criação de um bairro comercial digital das lojas com história, a inclusão dos mercados municipais no programa, a criação de selos “Loja com História”, a promoção de um Encontro/Seminário/Colóquio, a atribuição de um galardão “Loja com História do Ano”, a organização de um concurso literário.
Numa Lisboa que aparenta esquecer gradualmente muitos dos seus ofícios, a Retrosaria Borges rema em contracorrente, abrindo as portas todas as manhãs desde 1902. Irene e Beta Oliveira têm uma missão além da costura: manter vivo um pequeno grande pedaço da história de Lisboa e de Arroios.

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