O chairman norte-americano do Atlético de Alcântara, Gifford Miller: aposta no convívio para atrair os adeptos. Foto: Margarida Filipe.

Entre os sons das turbinas de mais um avião que corta o céu de Alcântara e as batidas frenéticas do hit house dos anos 1990 Pump up the jam, o rouco altifalante dá às boas-vindas aos adeptos que se acomodam nas bancadas: “Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao Estádio da Tapadinha”.

É a estréia em casa do Atlético Clube de Portugal na Liga 3 nacional, contra o Mafra. Mas também uma nostálgica viagem a um tempo em que o clube era um dos grandes, e até ao tempo em que as equipas de bairro alimentavam o convívio entre os vizinhos e uma sadia rivalidade com os clubes além das fronteiras da freguesia.

Um tempo que se apaga lentamente noutras zonas de Lisboa, porém preserva um traço marcante em Alcântara através do Atlético, ainda o clube do coração dos moradores da antiga vila operária e agora também a bater no peito dos novos vizinhos do bairro.

Novos vizinhos que não são necessariamente de Alcântara. Nem de Lisboa. Nem de Portugal. Vindos de longe, muitos sem o português como língua materna, atraídos pelo amálgama que só o futebol proporciona e pela nova política de acolhimento do clube.

Presidente da SAD atleticana desde 2023, o norte-americano de 55 anos Gifford Miller, antigo vereador de Nova Iorque, speaker da Câmara durante o tempo de Michael Bloomberg como mayor, e hoje investidor imobiliário, tem encabeçado esta pequena revolução no clube de bairro, investindo na infraestrutura do departamento de futebol e do estádio. O objetivo, não esconde de ninguém: abrir as portas do estádio da Tapadinha a todos os lisboetas, tornar o Atlético de Alcântara importante no bairro e na cidade. “Criar uma comunidade!”, diz.

E pelo que se viu no jogo contra o Mafra, o objetivo tem sido cumprido. 

Novos e velhos rostos do Atlético na bancada da Tapadinha

Nas bancadas, adeptos e históricos do Atlético Clube de Portugal continuam a ir ao Estádio gritar pelo seu A-tléééé-ti-co. Mas agora acostumaram-se a dividir o espaço com os novos rostos, os mesmos que dividem portas nos prédios, circulam pelas ruas de Lisboa, nos cafés e supermercados.

Incluindo, claro, quem está de passagem. É o caso dos turistas dinamarqueses Magnus, Thomas, August, Auguste, Mia e Frederikke, que aceitaram a sugestão do amigo Gustav, fanático por futebol e adepto do FC Copenhagen, para pagarem os 5 euros do bilhete e incluir o jogo do Atlético no tour pela cidade. Segundo Gustav, porta-voz do grupo, a experiência cumpriu o esperado.

Maria Conceição, Ivo Delgado e o pai, Maximino Delgado, adeptos do Atlético na bancada da Tapadinha. Foto: Álvaro Filho.

A poucos metros dos adeptos de ocasião, o adepto de longa data Ivo Delgado assiste ao jogo ao lado do pai, Maximino Delgado, um dos históricos do clube. “Estão espalhados por aí”, reforça Ivo, fazendo circular a mão pela bancada da Tapadinha. “Basta perceber que não se parecem com a gente e são eles”, completa, bem-humorado. O pai vê com bons olhos os recentes vizinhos de bancada. “Isso era sempre as mesmas caras. É bom ter caras novas. E na hora do golo, entusiasmam-se da mesma forma”, reforça Maximino.

Sócio número 23, aos 89 anos Maximino foi testemunha dos bons e dos maus momentos do clube. Até 1977, o Atlético era, digamos assim, o 4º grande, sendo um dos maiores do futebol português nos anos 1950 e 1960. Chegou a ganhar um campeonato nos idos de 1927/28, teve grandes estrelas com o defesa central Germano – que depois foi campeão europeu com o Benfica – ou o goleador Ben David, que se recusou a ir para os “grandes” de Lisboa, e, de uma geração anterior a Eusébio, foi o primeiro futebolista nascido em Cabo Verde a vestir a camisola da Seleção Nacional de Portugal.

Depois dessas glórias, o clube veio a cair, por causa das alterações vividas em Alcântara: a paulatina desativação das indústrias, e finalmente a construção da ponte 25 de Abril que desalojou parte de sua massa de adeptos. 

Apesar de não haver nenhum estudo oficial sobre o impacto da construção da ponte há exatamente 60 anos e o declínio do Atlético, os adeptos antigos lembram dos dias em que os imensos pilares passaram a ocupar os espaços onde antes havia casas e ruas, expulsando um contingente de moradores – e adeptos – para a Margem Sul de Lisboa. 

Um dado, porém, pode reforçar essa relação causa-efeito: antes da ponte, o Atlético chegou a ter 12 mil sócios. Hoje, não chega a 2 mil. 

Os adeptos de ocasião do Atlético, turistas dinamarqueses de passagem por Lisboa, na bancada da Tapadinha. Foto: Álvaro Filho.

Mais uma razão para que os adeptos olhem com bons olhos essa nova ponte construída em Alcântara, agora pela SAD capitaneada por um norte-americano. Além disso, o otimismo parece ser o antídoto não só contra o declínio, como também contra a primeira investida estrangeira, realizada por empresários chineses, entre 2013 e 2017, e que de tão desastrosa – incluindo envolvimento em esquemas de apostas – quase levou o clube a fechar as portas.

Saborear o futebol na nova bancada gourmet

Logo para começar, uma das novidades da nova SAD foi a Curva, a bancada gourmet atrás de uma das balizas do estádio aproveitando a vista incrível… da Ponte sobre o Tejo. Misto de street food e área de lazer, com direito a um grande ecrã, é, segundo Gifford Miller, “o mais democrático camarote” do futebol português. 

“A Curva não é bem uma novidade em Portugal, pois nos outros estádios também se faz isso, mas apenas os ricos têm acesso aos camarotes corporativos. Aqui, a nossa bancada é mais democrática”, explica Gifford Miller.

A Curva recupera um passado democrático e popular do espaço onde antes estava a bancada reservada aos peões – pessoas de pé, sem lugar. Foi assim até o Euro 2004 em Portugal alterar a legislação e proibir os adeptos de assistirem aos jogos em pé nos estádios do país. Desde então, por incrível que pareça, o terreno entrou em desuso.

Os saudosistas não vão encontrar entremeadas ou couratos na grelha das roulotes de beira-estádio. Aqui funciona um menu que se pretende mais adequado ao paladar sofisticado dos novos adeptos, como o  barbecue texano do KAU, das pizzas e schiacciate do Vetrina e da vitaminada trifana assinada pelo chef Vasco Lello, do restaurante Turvo. Além de cerveja e outras bebidas alcoólicas – restritas nas bancadas dos outros estádios. 

A Curva funciona diariamente, inclusive para os adeptos de outros clubes lisboetas acompanharem os jogos no grande ecrã ou simplesmente para quem quer ver a vista. E quando não há futebol, recebe rodas de samba e festas com DJs.

“É impossível fazer um negócio funcionar abrindo o estádio em apenas dois dias ao mês”, resume Gifford Miller, que, além de empresário, é especialista em cidades, tendo sido o responsavel pela famosa HighLine em Nova Iorque, que aproveitou uma antiga linha de comboio, de 1934, que tinha sido desativada, para fazer um parque elevado com arte e espaços verdes.

Gifford está visivilmente a tentar implementar um novo american way of life atleticano. O intervalo do jogo com o Mafra reservou um momento de entretenimento, aos moldes do futebol americano e da NBA, porém mais modesto, dentro do orçamento do clube. Sem cheerleaders ou arremessos de equipamentos do clube por um canhão de ar, na Tapadinha, ouviu-se o rouco altifalante anunciar os números de um bingo. 

Ao vencedor, um prémio coerente com o orçamento do clube: um pin

 O jogo contra o Mafra marcou ainda a estreia oficial do novo mascote do clube, um boneco-humano de formas caninas, baptizado de Atleticão, recebido nas bancadas com um abraço apertado do norte-americano. 

O Atlético estreou também as novas camisolas e está a fazer uma aposta forte em merchandising à venda fora e dentro do estádio.

Arte dentro e fora do relvado do Atlético

Vítor Domingues é uma lenda no clube que veste o estádio da Tapadinha, em Alcântara: foi apanhador de bolas a atleta de andebol. Agora, olha para a própria imagem esculpida no imenso mural e só lhe vem à cabeça o veredito da mulher. “Ela disse que estou melhor do que na realidade”, afirma, a respeito do trabalho com a assinatura do artista urbano Vhils

Vítor está acompanhado no mural por Maria da Luz, funcionária do clube há 45 anos e de outros ídolos do Atlético, dentro do relvado, como o avançado Ben David, o maior ídolo da história do clube, autor de 100 golos em 122 jogos entre os anos 1940 e 50.

O mural de 50 metros de extensão por oito de altura faz parte de uma espécie de pacote de atrações do Atlético de Alcântara para a nova temporada. Com o anel gigante de Joana Vasconcelos – imponente Solitário #3, de oito metros de altura – e o frenesi cromático dos azulejos de Bela Silva e sua Dança na Relva, num dos acessos da Tapadinha, são resultado da parceria entre o Atlético de Alcântara e a Fundação EDP, que contou com a especial curadoria do vizinho MAAT e que, segundo o diretor artístico do museu, João Pinharanda, tem a pretensão de permitir aos lisboetas o “acesso à criação contemporânea portuguesa em contextos inesperados”.

Para Gifford Miller, o MAAT é o parceiro ideal para levar a arte aos estádios de futebol. Está também aberta uma open call a artistas para trabalharem o acesso principal dos adeptos ao estádio, com 20 mil euros de prémio para a produção do trabalho.

Mas o que leva um americano a esta paixão toda pelo futebol, que na terra dele é desporto menor e até tem nome diferente, soccer? Adepto do Liverpool, Gifford viveu em Inglaterra com os pais, quando era criança, aos seis anos – o cão dele chama-se Klopp (em homenagem ao manager do clube inglês).

Gifford jogou futebol no liceu – um dos seus parceiros de equipa é hoje também sócio na SAD. Ele era médio, mas sem muito futuro no futebol profissional, reconhece. O suficiente, porém, para perceber as dinâmicas do jogo e esperar arte também dentro do relvado. 

“Nós vamos tentar jogar um futebol bonito. Isso é importante e a coisa certa a fazer para nós. Há clubes que jogam um futebol menos positivo, para frente. Ambos os estilos podem funcionar, mas a diferença para o Atlético pode estar no fato de os adeptos virem ao estádio atraídos por um bom futebol”, explica.

Gifford explica a compra da SAD do Atlético como um negócio de paixão mais do que racional – quando se mudou para Lisboa, filhos já crescidos, e muita vontade de sair dos EUA, apaixonou-se pelo enquadramento romântico do Estádio da Tapadinha, que encontrou numa das caminhadas que fazia ao fim da tarde com a mulher, na zona do seu bairro, Alcântara.

Mas é evidente que a necessidade de obter um visto de residência em Portugal, depois de se ter tornado impossível fazê-lo apenas com imobiliário, aguçou o engenho. E se eu comprasse um clube?, pensou. Criou um fundo com amigos e sócios, e assim fez. Claro que o que aconteceu a seguir é muito mais do que uma relação interesseira, e a SAD tinha previsto investir 8 milhões em cinco anos (por ano, costumava ser 75 mil).

Com os novos investimentos, carinho e uma maneira diferente de fazer as coisas, o Atlético subiu à Liga 3. Mas a época passada não foi das melhores, com o Atlético a lutar, não para subir, mas contra a despromoção. Ainda assim, foi possível realizar a maior transação da sua história, com a ida do médio de 19 anos Catarino Pascoal para o Sporting, por 450 mil euros. 

Gifford não tem dúvidas que o negócio está relacionado com o aumento da visibilidade do clube. “Só o compraram porque o viram jogar.” 

Foto: Museu Virtual do Futebol

Num lugar absolutamente privilegiado, com uma das melhores vistas para o Tejo, numa das zonas mais caras de Lisboa, até surpreende que a Tapadinha e o espaço circundante não tivessem sido alvo da cobiça imobiliária. Para já, diz Gifford, o estádio precisa de “carinho”. E as melhorias, não se vão ficar nas obras de arte. Ainda este ano começa a sair do papel um antigo sonho dos adeptos, a instalação de um sistema de iluminação que permita o Atlético receber jogos à noite.

O Atlético nasceu em 1942 da fusão entre o União FC e Carcavelinhos FC, este último campeão português na época 1927/28. Vem desse tempo a construção da Tapadinha, que começou a surgir em 1926, primeiro como um campo para abrigar os jogos do Carcavelinhos, depois como propriamente um estádio, em 1945, já com o Atlético de Alcântara em atividade. A agora centenária Tapadinha tem capacidade estimada em 4 mil espetadores.

Atlético Clube de Portugal e do mundo

“A principal diferença na experiência desportiva entre os EUA e Portugal está no sentido de comunidade. Você vai ao Benfica e o espetáculo é fantástico, mas falta ali uma sensação de conhecer quem está ao seu lado na bancada. A Curva é a nossa tentativa de reunir a comunidade, os vizinhos de Alcântara, numa identidade em torno do Atlético”, explica Gifford.

Os novos e velhos vizinhos, já começam a encontrar-se na Curva. Muitos dos novos rostos do clube são do círculo de amizades de Gifford, entre eles um especialista em assuntos gourmet, o empresário Rishav Verma, dono do Omakase Ri. O idioma atrás da baliza, portanto, oscilava entre o inglês, o português e também o alemão. 

O alemão Phillip encontrou na Tapadinha a forma de continuar a ser adepto, assim como fazia na Alemanha. Foto: Álvaro Filho.

O alemão falado por Phillip Göttel, devidamente uniformizado com a camisola e o cachecol clássicos do Atlético. Para o sócio 1494, as idas à Tapadinha são uma forma de reconectar-se com o rotina de adepto apaixonado pelo clube da cidade natal, o Borussia Mönchengladbach, uma paixão proporcional ao tamanho do nome da equipa.

“Ia a todos os jogos desde criança e ficava na cabine do estádio, pois o meu tio foi um dos históricos speakers do Borussia”, conta o sobrinho orgulhoso dos 25 anos em que o tio Rolf Göttel passou como animador dos adeptos alemães na bancada da arena de Bökelberg. Agora, sente-se mais do que à vontade na nova bancada do novo clube.

A viver em Alcântara desde novembro passado, Phillip tratou de procurar uma alternativa para continuar a ir ao futebol e não tardou a encontrar a solução. A Tapadinha tem sido desde entao o seu programa obrigatório sempre que o Atlético joga, para desespero da mulher, que pensava ter se livrado do marido-adepto-fanático na mudança para Lisboa. 

Só que não.

O brasileiro Ricardo Lacerda, “torcedor” do Atlético Mineiro e, agora, também do Atlético de Alcântara. Foto: Álvaro Filho.

Português, mas com sotaque brasileiro, grita o adepto Ricardo Lacerda, vestido com o uniforme do Atlético, não o de Alcântara, mas o de Minas Gerais. Sócio do clube desde 2019, o torcedor mineiro de 74 anos, 34 deles a viver em Lisboa, não considera a sua presença na bancada uma traição à pátria atleticana original: “Quem é Atlético em Minas, é Atlético em qualquer lugar”, garante.

Nada que incomode, aos 92 anos, Guilherme Jerónimo. Talvez seja o sócio mais antigo ainda vivo. O documento traz o número associativo 16, mas uma informação repassada pelo clube pode alterar a numeração. “Disseram-me que vão fazer uma revisão dos sócios e daí meu cartão deve ser o número 1”, conta, tranquilo, entre golos da imperial.

Guilherme “vê” o jogo através do curioso relato ao pé do seu ouvido por Carlo Jerónimo, o filho. “Estou um bocado fraco da vista”, justifica Guilherme. Os olhos que hoje já não o permitem propriamente ver o Atlético em ação já viram muita coisa na Tapadinha, inclusive a versão anterior do clube, na pele do Carcavelinhos.

Pelo clube, Guilherme fez de tudo, cortou o relvado, conduziu carrinhas, pintou as bancadas. 

Aos 92 anos, nem a visão e a audição a falhar impedem Jerónimo de seguir acompanhando os jogos do Atlético. Foto: Álvaro Filho.

Trabalhou no clube até os 90 anos, quando não só a perda da visão, mas da audição – Guilherme escuta apenas de um dos ouvidos e não é tanto assim – forçou o futuro sócio número 1 à reforma. Apesar de não ver nem ouvir muito, a ida à Tapadinha para “sentir” o Atlético jogar, é um ritual quase que religioso.

“Quando há jogo, ele pede-me para passar na casa dele e trazê-lo à Tapadinha”, explica o filho, entre os relatos de quase um golo do Atlético.

Na hora em que o extremo do Atlético Caio Santos encobre o guarda-redes do Mafra no golaço de empate da partida em 1-1, entre os gritos de “golo!” ouvidos na bancada, em uma mesa da Curva a celebração se ouviu em bom alemão: “Tooooooor!”.

É a nova vida do Atlético Clube de Portugal. E agora também, o Atlético do mundo. 


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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2 Comments

  1. Eu também sou relativamente recém-chegada a Lisboa, mas escolhi os Belenenses. Força!

  2. “Até 1977, o Atlético era, digamos assim, o 4º grande, sendo um dos maiores do futebol português nos anos 1950 e 1960.”
    Não descurando a matriz popular do Atlético e o seu peso na cidade de Lisboa e na zona de Alcântara nos anos 1950 a 1970, descrevê-lo como “o 4º grande” é um manifesto exagero para um clube que oscilava maioritariamente entre a 1ª e 2ª Divisões.

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