Érica Cardosa, uma guia turística que quer retribuir aos vizinhos

“Vivo em Lisboa há 10 anos, sendo que em sete deles vivi e trabalhei na Graça. Foi o bairro que me acolheu e é aqui que a minha vida quotidiana me traz, seja a nível profissional, seja a nível social e afetivo. Participar neste projeto e poder cruzar o meu conhecimento e experiência com ferramentas de jornalismo é algo que encaro, primeiramente, como uma oportunidade de poder retribuir a esta vizinhança que tanto me deu. É ainda uma forma de continuar a envolver-me com a minha vizinhança, apesar de já não cá viver. O bairro da Graça está cheio de vida, cheio de histórias por contar, de memórias que resistem e vozes que não se cansam. Poder ampliá-las e partilhá-las é algo que me motiva profundamente.”

Licenciada em História da Arte pela FCSH-Nova. Natural de Castelo Branco, reside em Lisboa há 10 anos, onde desenvolve o seu trabalho como guia turística e investigadora informal. Trabalha sobretudo o tema de street art (artistas, técnicas, temas) e também práticas transgressivas em espaços urbanos.

Joana Nunes, a revisora que quer salvar o mundo pelas palavras

“Crescer na periferia foi confrontar-me diariamente com a frase de Walter Benjamin que diz que o ‘estado de excepção’ em que vivemos é, na verdade, a regra. Onde o poder se exerce pela exclusão, o jornalismo de bairro surge não apenas como relato, mas como ato de insubmissão. Acredito que democratizar a narrativa é uma forma eficaz de suspender esse estado de excepção permanente, devolvendo a dignidade histórica a quem está na margem. Integrar este projeto é, para mim, usar a palavra como ferramenta política para transformar a resistência invisível em presença pública e transformadora.”

Joana Nunes é alfacinha de gema, tem 99 % de ADN algarvio e viveu em Camarate até a Graça e a Penha de França a adoptarem, há 20 anos. O seu percurso é uma colecção de certezas ao contrário: estudou Antropologia para confirmar que não queria ser antropóloga, foi vendedora para descobrir que odeia o capital e fez limpezas para perceber que prefere a sujidade das palavras. Hoje, é revisora de texto e tenta salvar o mundo (ou pelo menos a gramática) um livro de cada vez. Em 2025, decidiu retribuir o caos e publicou um livro de poesia. 

Samanta Velho, a mulher da tecnologia que quer contar histórias

“Escrever sobre as graças que a Graça não tem surgiu da vontade de olhar para um dos bairros mais romantizados de Lisboa para lá da sua imagem postal. Entre miradouros, brunches e apartamentos turísticos, existe um bairro onde a vida quotidiana se torna cada vez mais difícil para quem sempre ali viveu. Interessa-me perceber como uma cidade se transforma quando começa a ser pensada mais para quem a visita do que para quem a habita.

Por isto fiz também um curto documentário que tem paralelos com este artigo. O jornalismo, para mim, também serve para contrariar narrativas simplificadas e normalizadas e procurar o que se esconde debaixo dos tapetes, talvez por defeito de formação.

Eu nasci em Lisboa e continuo a percorrê-la entre bairros, histórias e contradições. Formei-me em sociologia, trabalho em tecnologia, mas encontrei no documentário e na escrita formas de observar a cidade para lá das suas superfícies mais visíveis. Interesso-me sobretudo por história, narrativas urbanas, memória coletiva e pelas transformações sociais provocadas pelo turismo e pela desigualdade.

Entre Alfama, Graça ou Penha de França, procuro olhar para Lisboa como um lugar em disputa, onde ainda existem histórias por escutar e batalhas a vencer.”

Joana Sequeira, uma jornalista à procura de um novo rumo

“Foi por acaso que encontrei esta formação em jornalismo local no bairro da Graça e assim que vi, inscrevi-me logo. Porquê? Primeiro, porque sigo de perto a Mensagem e gosto muito dos seus conteúdos, nomeadamente quando vejo temas relacionados com as problemáticas mais urgentes em Lisboa; segundo, porque acho que o jornalismo local é cada vez mais importante num mundo em que os media mainstream têm todos a mesma linguagem e pouco espaço para vozes diferentes e dissidentes; terceiro, porque um dos meus sonhos é criar o meu próprio canal local de jornalismo independente e interventivo na sociedade, e por isso, achei que esta experiência profissional me pudesse ajudar a desenvolver novas competências.

Com um percurso construído no jornalismo cultural e de entretenimento, cruzo escrita, entrevistas, conteúdos digitais e estratégia editorial com um denominador comum: o olhar atento ao detalhe e a procura constante do melhor ângulo. Porque uma boa história não começa no primeiro parágrafo, começa no título que não se consegue ignorar.

Lisboa é o meu centro de gravidade e o meu campo de ação. É aqui que acompanho de perto os fenómenos do digital, a música, o cinema, as causas sociais e o ativismo nos media.

O meu maior sonho? Ter um impacto social positivo através da palavra. Acredito que o jornalismo, quando feito com intenção e propósito, tem o poder de seduzir quem lê, e de mudar e transformar, subtilmente, a forma como se olha para o mundo.”

Helena Vicente Gomes, a professora da Graça com uma missão

“A motivação para participar no projecto, ao aceitar um desafio desta natureza, decorre, na sua génese, da junção e do cruzamento de três factores: uma paixão imanente pela arte da escrita, a ligação umbilical emocional a Lisboa e o conhecimento sedimentado do território físico, do edificado, do pulsar, das idiossincrasias e das vicissitudes dos bairros de São Vicente de Fora, onde vivi a infância, a adolescência e os primeiros anos da idade adulta, e da Graça, que me acolheu, há décadas, para residir e trabalhar.

Por último, a consciencialização social e cultural, enquanto “alfacinha” da zona histórica da urbe, e a importância que atribuo ao exercício de cidadania, ao nível, proporcional, dos direitos e dos deveres, que fazem de mim uma mulher de causas, activista em algumas delas, com intervenções várias na esfera pública da “pólis”, da freguesia e de áreas não circunscritas ao espaço e ao tempo, pelas quais considero um imperativo tomar posição e combater, “na frente da barricada e do lado certo da História”.


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