Anabela Rodrigues, eurodeputada e ativista. Foto: Katherine Fonseca

Num palco improvisado dos Jardins do Bombarda, a ativista e eurodeputada Anabela Rodrigues olhou de frente para a plateia do Festival Coopera e disparou: “Quantas pessoas negras estão sentadas entre a audiência?”. A resposta chegou na forma de um silêncio pesado. Havia muito poucas. Naquele instante, no coração de um festival que celebra o cooperativismo, as cooperativas, tornou-se evidente a ferida aberta que Lisboa tem de resolver: mesmo quando o discurso é o da inclusão, as cooperativas, as associações e os espaços políticos em Portugal continuam a ter uma cor, uma classe e um género bem definidos.

“Classe, género e raça caminham sempre comigo, desde o momento em que eu entro numa sala e olho automaticamente à procura de um semelhante. Porque nos faz sentir mais confortável. Porque nos permite encontrar aliados”
Anabela Rodrigues

A organização do Festival Coopera, que aconteceu nos dias 16 e 17 de maio, foi organizado pela cooperativa Rizoma e pela Rede de Cooperativas Integrais como um novo passo para levar a lógica da cooperativa para fora da bolha. Deixar que o cooperativismo deixe de ser um conceito abstrato e passe a ser uma resposta concreta aos problemas como a habitação e o acesso a espaços em Lisboa.

Anabela Rodrigues, criada na Cova da Moura, é a primeira mulher negra portuguesa a ocupar o cargo de deputada europeia. Vir de onde veio e estar onde está hoje fazem-na falar com segurança quando o tema é precisamente “acesso”. “Quando se cria leis, quando se regula, quando se atende pessoas em espaços públicos, estes marcadores influenciam o tomar das decisões”, assim lançou o debate.

A ativista define raça, classe e género como três pilares que moldam a experiência quotidiana – desde o momento em que nos levantamos até ao momento em que nos deitamos, lembrando também as recentes alterações legislativas sobre nacionalidade em Portugal.

Ao lado, estava o assistente social e mediador cultural António Brito Guterres. Cresceu em Arroios e vê que os marcadores sociais se tornam particularmente visíveis quando se observa a forma como a cidade de Lisboa está organizada. “Se eu estiver nas Olaias, 36% dos miúdos reprovam no 5.º e 6.º ano. Na Alta de Lisboa são 52%. Na Praça de Londres, é zero” explica.

António Brito Guterres, no Festival Coopera. Foto: Katherine Fonseca

A desigualdade não é abstrata

Mais do que estatísticas, os exemplos apresentados revelam como a desigualdade se inscreve fisicamente na cidade: nos bairros, nas escolas, centros de saúde e nas oportunidades disponíveis para cada um.

“A escola era suposto ser um dos mecanismos para termos pontos de partida diferentes e chegadas iguais. Evidentemente, isso não funciona”, António Brito Guterres

Mesmo movimentos historicamente associados à solidariedade nem sempre foram inclusivos, diz. António Brito Guterres recordou o movimento SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) – apresentado como um dos grandes exemplos do cooperativismo pós-25 de Abril. “Gostava que todos se lembrassem de algum desses SAAL que fosse de pessoas ciganas ou negras”, referindo-se a comunidades que “já cá estavam”, mas que ficaram à margem desse processo.

Para ele e Anabela, a exclusão não acontece apenas através da lei, mas sim de “códigos não escritos de conduta”, descreve Anabela, que nos afunilam e continuam a separar quem ocupa determinados espaços.

“Há pessoas que nasceram, cresceram, viveram e trabalham neste país e continuam a ser tratadas como estrangeiras eternamente”
Anabela Rodrigues

Mas podem as práticas de cooperação existir em comunidades marginalizadas? Sim. E, muitas vezes, fora das estruturas formais do cooperativismo.

O Festival Coopera aconteceu nos Jardins do Bombarda, a 16 e 17 de maio Foto: Katherine Fonseca

Praticar o “djunta mon”

Anabela deu o exemplo da Cova da Moura, onde cresceu e onde se pratica o “djunta mon” – expressão cabo-verdiana para trabalho coletivo e entreajuda. “Este fim de semana vamos construir na tua casa, com uma cachupa, uma feijoada e um pagamento.” Muitas formas de cooperação já existem há décadas nas comunidades migrantes e racializadas, embora raramente sejam reconhecidas como modelos legítimos de organização coletiva, como se debateu neste painel.

Estas redes de ajuda continuam presentes sobretudo entre comunidades migrantes e mulheres trabalhadoras precárias. Anabela explica que, “se não for esta rede de mulheres a auto-cuidarem-se, não avança”, referindo-se às trabalhadoras domésticas que saem de casa às quatro ou cinco da manhã para chegar ao emprego.

Farhana Akter, da Cooperativa Bandim, nascida no Bangladesh, estava nesta discussão para lembrar que “nem sempre é fácil” criar modelos cooperativos quando muitas comunidades enfrentam dificuldades básicas. “Temos primeiro de resolver os problemas das pessoas antes de esperar que exista cooperativismo”. Fala das muitas associações que enfrentam expectativas imediatas de apoio social, mas que depois se confrontam com a falta de financiamento e recursos para responder às necessidades das comunidades que acompanham.

Farhana Akter. Foto: Katherine Fonseca

Por isso, a cooperação muitas vezes acontece primeiro ao nível comunitário e informal. Por isso e porque “quando as pessoas passam a vida toda a ouvir que certos lugares não são para elas, vão sempre colocar receios nesses espaços”, remata Vanessa Lopes, presidente da Associação Rizoma, que promove a integração e a representatividade da comunidade cigana em Portugal. Fala desta comunidade, por exemplo, e da desconfiança que sente em relação às instituições formais.

A presidente criticou ainda a instrumentalização das comunidades ciganas em projetos institucionais. “Somos chamados muitas vezes para fazer parte do trabalho, mas como apêndices”, ou seja, estas comunidades nunca fazem efetivamente parte das decisões e do planeamento. Não se pratica o “djunto mon”, como dizia Anabela.

No final, fica uma ideia comum: o cooperativismo só poderá cumprir a promessa de solidariedade se enfrentar as desigualdades dentro dos próprios espaços coletivos. Talvez a cooperação não comece apenas na criação formal de associações ou cooperativas, mas na capacidade de reconhecer quem continua ausente das salas, das decisões e das narrativas sobre o país.


Katherine Fonseca

Tem 26 anos e é natural de Londres. Está a tirar o mestrado de jornalismo na Universidade Católica de Lisboa, movida pela paixão de criar e comunicar de forma autêntica. Amante de cinema, de viajar e de escrever por onde passo, inspira-se no ritmo dinâmico de Lisboa e nas narrativas que têm o poder de cativar. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

*Texto editado por Catarina Reis

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