Foto: Líbia Florentino

Em Portugal, a noção de cooperativa tem muitas interpretações. Lembra enxadas, em documentários emblemáticos sobre o 25 de Abril. Mas lembra também casas para todos. Já pensou viver numa cooperativa? É com a ideia de levar as pessoas a pensar nisso, e abrir o cooperativismo à cidade – não como conceito abstrato, mas como resposta concreta aos problemas como a habitação e o acesso a espaços em Lisboa – que o Festival Coopera/ Futuros em Rede vai debater, nos dias 16 e 17 de maio, nos Jardins do Bombarda. 

A organização é da cooperativa Rizoma e da Rede de Cooperativas Integrais, e o Festival surge como um novo passo para levar a lógica da cooperativa para fora da bolha. E por isso mesmo vai ter um formato participativo, painéis tradicionais por “conversas… mais abertas ao formal, onde haja um bocadinho mais de participação do público”, diz Sara Ramos, da Rizoma. Terá concertos – entre eles Filipe Sambado – DJ sets e uma feira de cooperativas. A par disso, estão previstos workshops ligados à cooperação, para ajudar a perceber como criar cooperativas e formas de revitalizar matérias. 

“Percebemos que fazia sentido aproveitar o contexto urbano para abrir isto ao público”, explica Mariana Reboleira, 29 anos, cooperante da Rizoma. Não apenas cooperativas a falar entre si, mas a mostrar o seu potencial à cidade. O festival é gratuito e focado em novos públicos. Mariana sublinha, que “ a real diferença e impacto se constroem em rede e temos que ser muitos para conseguir criar estas alternativas sustentadas no tempo e até geograficamente ”. 

O festival cruza temas como a crise climática, antirracismo ou participação democrática, numa tentativa de alargar o conceito de “economia” à forma como organizamos a vida em comum. “Não faz sentido falar de produção sem falar de ecossistemas, ou de trabalho sem falar de desigualdades”, adiciona João Fanha, também cooperante.  “A economia é tudo isso”. 

O grande objetivo é conseguir chegar a um grande número de pessoas “queremos ver caras novas, pessoas curiosas, gente que sai daqui com vontade de fazer”, diz Sara, “Se alguém perceber que pode criar ou juntar-se a um projeto coletivo, já é um ganho.”

A ambição é maior é contribuir para um ecossistema mais forte de cooperativas em Lisboa e trazer novos temas para o debate público, desde o acesso a espaços na cidade até ao papel da economia social. Mais do que um evento pontual, o Festival Coopera quer abrir caminho a novas ligações e projetos, para reforçar a presença destas iniciativas e ver o cooperativismo como uma alternativa concreta no futuro da cidade de Lisboa. 

Como acontece já, com a Rizoma. A cooperativa nasceu em 2020. “Lançámos a nossa lojinha pequena, Mini Rizoma ainda, a nossa versão piloto, com a Renovar a Moraria” explica Mariana. Eram os cooperantes a decidir o que queriam ver nas prateleiras. Entretanto mudaram-se para Arroios, e tornou-se uma cooperativa multissetorial que junta 6 áreas diferentes: consumo, cultura, serviços, habitação, agrícola e artesanato. Têm uma horta urbana, um espaço de coworking e estão a desenhar projetos ligados à habitação. O objetivo é experimentar formas concretas de autonomia coletiva.

A Rizoma, ainda na Renovar a Mouraria. Footo: Líbia Florentino

Como qualquer cooperativa, “a ideia é que o coletivo se junte para responder ele próprio às necessidades económicas que sente”, explica Mariana. Seguiram modelos parecidos noutros países, da Europa e da América e à medida que juntavam pessoas começou a aparecer gente com uma visão diferente.

Desde 2022, a Rizoma integra a criação da Rede de Cooperativas Integrais, uma estrutura informal para “partilhar problemas, soluções e abordagens”. Como uma das maiores cooperativas da rede, quis também assumir um papel ativo na sua dinamização. 

Assim, a ideia do festival nasceu “organicamente”, diz Mariana, e a partir da Rede de Cooperativas Integrais, uma estrutura informal para ligar diferentes projetos do país. Até agora, os encontros eram sobretudo internos, momentos de partilha entre cooperativas. Mas Lisboa trouxe outra possibilidade, de chamar não só outras cooperativas, mas outros coletivos, associações e movimentos informais.

Ao mesmo tempo, o contexto político deu um novo impulso, a possível saída do Estado da CASES entidade central na economia social, foi vista como um sinal de altera. “É uma decisão que vai pôr em risco o ecossistema da economia social”, Mariana explica. Entre reuniões e audições parlamentares, cresceu a urgência de explicar o papel das cooperativas e afirma o seu “potencial” no debate público. 

“Estamos a trabalhar também para que a cooperação se torne uma forma de vida, uma forma de construirmos um futuro conjunto” explica Sara Ramos, que se juntou à Rizoma há três anos. 

João Fanha, 29 anos, chegou à  Rizoma em 2022, após reencontrar um colega da faculdade que o convidou a conhecer o projeto. Poucos dias depois já participava ativamente na cooperativa. Diz que “o cooperativismo ainda vive muito no imaginário do passado” por isso o festival foi pensado para atrair tanto quem já conhece o setor como quem nunca ouviu falar dele, essa é uma das batalhas centrais, a visibilidade. 

Rizoma Cooperativa
A nova Rizoma, em Arroios. Foto: Líbia Florentino

Num momento em que a crise da habitação, a precariedade laboral e o custo de vida dominam o debate público, as cooperativas surgem aqui como uma ferramenta possível, não como solução única, mas como alternativa concreta. “A cooperativa é uma plataforma de ação coletiva”, resume Mariana, permite que grupos de pessoas se organizem para criar soluções econômicas fora da lógica do lucro.

Em vez da propriedade individual, a proposta passa por modelos de propriedade coletiva, “permite que aquele imóvel nunca volte para o mercado privado”, diz Mariana. Evita a especulação e garante maior acessibilidade a longo prazo. Mas, há também respostas ao nível do trabalho: projetos de autoemprego que permitem a trabalhadores independentes ter proteção social, ou estruturas que partilham custos e recursos.

Ainda assim, os obstáculos são claros. Falta de apoio público, dificuldades de acesso a espaço na cidade e uma crescente precariedade que limita o tempo disponível para participação coletiva. “Quando as pessoas estão a trabalhar dois empregos ou são empurradas para a periferia, fica mais difícil construir comunidade”, conclui Mariana.

E é isso exatamente que este Festival quer fazer.

Katherine Fonseca

Tem 26 anos e é natural de Londres. Está a tirar o mestrado de jornalismo na Universidade Católica de Lisboa, movida pela paixão de criar e comunicar de forma autêntica. Amante de cinema, de viajar e de escrever por onde passo, inspira-se no ritmo dinâmico de Lisboa e nas narrativas que têm o poder de cativar. É estagiária na Mensagem de Lisboa. More by Katherine Fonseca

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