“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Terça-feira é dia de aula de tango no Teatro Avenidas. O ritmo compassado da música argentina ouve-se ao longe e cumpre-se no átrio à esquerda, onde três pares bailam, concentrados nos passos complexos deste estilo de dança, que é Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Também é dia de encontro do Grupo de Teatro Avenidas, que junta ao fim da tarde cerca de dez mulheres e um homem que improvisam situações inventadas pela encenadora Joana Saraiva, ensaiam gestos e movimentos, inventam deixas, recriam histórias antigas do bairro e sobretudo divertem-se muito.

Júlio Esperança e Sónia Brás, técnica da equipa do Avenidas responsável pelo projeto Olé Arte, com a comunidade cigana do bairro do Rego. Foto: CP

Na sala de exposições do piso térreo, as paredes mostram os trabalhos dos alunos do Agrupamento de Escolas Marquesa de Alorna, artistas entre os 6 e os 16 anos convidados a criar à volta do medo. A exposição E Em vez do Medocaminhar esteve patente ao público entre 1 de abril e 13 de maio. Outra se seguirá. As paredes do Avenidas nunca ficam nuas. E não é por pudor. É exatamente pelo contrário.

Daqui a pouco, chegará aí a Paula Cajaty, da editora Gato Bravo, sediada no bairro e uma das “ativistas” do Coletivo Cultural de Dinamização do Rego, que conta com o Teatro Avenidas como parceiro para os projetos que quer pôr em marcha para dar vida nova a este território que se sente isolado do resto da freguesia e da cidade.

Amanhã, o senhor Júlio, o ancião da comunidade cigana do bairro e por isso a voz mais respeitada, como ele próprio explica, estará à conversa com Sónia Brás, a técnica que tem a seu cargo o projeto Olé Arte, de celebração da Pessoa Cigana.

É Otília Moreira, a coordenadora do Teatro Avenidas, com a sua pequena-grande-equipa – a Paula Cerejeiro, a Helena Torres, a Sónia Brás e a Íris Moreira – quem orienta o trânsito intenso e, no entanto, tranquilo destas Avenidas, que se querem cada vez mais movimentadas.

Otília Moreira, coordenadora do Teatro Avenidas, Paula Cerejeiro, respinsável pela comunicação, e Íris Monteiro, técnica da equipa que começou por ser segurança do espaço. Foto: Rita Ansone

“O nosso grande objetivo é trabalhar com a comunidade e para ela, trazer todos ao Avenidas e ir ao encontro de todos, se for preciso fora daqui, por isso é que também temos o Avenidas fora de portas”, diz Otília, enquanto faz uma visita guiada ao espaço inaugurado em dezembro de 2022 na antiga Biblioteca República e Resistência, na Rua Alberto de Sousa 10-A.

Isto não é só para “engravatados”

O edifício é maior do que parece. No piso térreo, tem um auditório de 82 lugares, um átrio de um lado, um espaço de exposições do outro, em cima, as salas de trabalho e as salas de ensaio, que também podem ser de reuniões ou de residências artísticas ou de oficinas. O espaço foi reinventado para ser flexível, ocupado, atravessado, usado.

“Uma vez ouvimos aqui à porta que isto era só para engravatados”, conta Sónia Brás. “Mas não é. É para todos”, diz, como que fazendo uma declaração de princípios que esclarece um equívoco que talvez ainda persista para alguns.

O Teatro Avenidas foi o primeiro equipamento do programa Um Teatro em Cada Bairro, da Câmara Municipal de Lisboa. Foto: @avenidas.umteatroemcadabairro

O Avenidas foi o primeiro equipamento da rede Um Teatro em Cada Bairro, programa da Câmara Municipal de Lisboa lançado com o objetivo de descentralizar a oferta cultural da cidade e levá-la aos territórios onde ela escasseia.

Apesar de estar a pouco mais de um quilómetro de grandes equipamentos culturais, como a Fundação Calouste Gulbenkian, a verdade é que, para muitos dos que vivem deste lado da freguesia, essa oferta afigura-se inacessível.

O Avenidas trabalha há quatro anos com a autonomia e abertura necessárias para desfazer essa ideia e criar uma programação cultural diversa, participada, acessível e de proximidade. Feita de escuta ativa, não só para, mas com os fregueses.

O bairro que quer deixar de ser ilha

Para perceber o trabalho do Avenidas, é preciso perceber o bairro do Rego, delimitado por fronteiras concretas e simbólicas que o “separam” do resto da freguesia a que pertence, as Avenidas Novas.

A linha do comboio abaixo, as vias rápidas acima e nas laterais. E o estigma. As origens rurais e depois operárias, a memória ainda de um dos maiores bairros de lata de Lisboa, o Bairro das Minhocas, e depois as vivendas e prédios populares, a que se juntaram, na década de 1990, os blocos de habitação social. Ruas urbanisticamente (e não só) longe das elitistas avenidas projetadas por Ressano Garcia no final do século XIX para fazer nascer uma Lisboa nova.

O Rego é o que a sociologia urbana chama de bairro-ilha. Foi neste chão que o Avenidas se instalou e é isso que, com os aliados que tem feito nos últimos quatro anos, quer mudar. 

Paula Cajaty, editora da Gato Bravo, é uma das “ativistas” do Coletivo Cultural de Dinamização do Rego. Foto: Rita Ansone

O Coletivo Cultural de Dinamização do Rego (“CCDR”) é um dos aliados de peso. A brasileira Paula Cajaty, editora da Gato Bravo e moradora no bairro desde 2022, e o também editor João Pedro Ruivo, da Shantarin, sediada no bairro, são duas das vozes mais empenhadas do grupo informal que começou com cinco ou seis pessoas a reunir-se no Avenidas e em pouco tempo passou a contar com cerca de trinta.

Editores independentes, uma farmacêutica que descobriu que a sua farmácia é centenária, uma designer pronta para dinamizar oficinas de costura, uma ex-gestora que se tornou comediante, professores universitários, jovens estudantes, comerciantes. “Cada um foi chamando o outro”, conta Paula, que até vir cá com o amigo João Pedro passava à porta do Teatro Avenidas quase todos os dias sem imaginar o que ali se fazia.

O “CCDR” organizou-se em eixos. O central – o Bairro Vivo, dedicado à requalificação urbanística – conta com o envolvimento da professora Isabel Barbas e dos seus alunos de arquitetura, que andam a “ouvir” o bairro e a desenhar propostas para o melhorar. A partir daí, foi-se desdobrando: o Bairro Cultural, o que tem relação mais estreita com o Avenidas, o Bairro da Palavra, o Bairro da Memória e, mais recentemente, o Bairro Universitário – lógico num território rodeado de faculdades e residências de estudantes.

Cultura à porta de casa

Nos últimos anos, com a chegada de novos moradores, famílias com crianças, estudantes universitários, trabalhadores estrangeiros – a Teleperformance, ali ao lado, emprega cerca de três mil pessoas em vários turnos –, o tecido começou a refazer-se e é nesse fio que a “CCDR” quer pegar para desfazer o estigma e a indesejada “insularidade”, mobilizando quem ali trabalha, estuda ou vive: já reuniram com o Hotel Sana Metropolitan, iniciaram contactos com a Teleperformance, e querem estender a rede às escolas e às residências seniores.

O objetivo, diz João Pedro Ruivo, não é apenas captar público, mas “envolver estes públicos tão diversos para que contribuam ativamente, que participem, que deem ideias e façam propostas.” É nesse envolvimento comunitário que o projeto se ancora, porque, como diz Paula Cajaty, “o bairro pode fornecer tudo, mas precisa que as forças vivas ocupem os espaços e promovam esse bem-estar comum.”

Esta lógica de proximidade encontra no Teatro Avenidas o espaço natural, até como alternativa concreta a uma oferta cultural percebida como distante ou intimidatória. “Há pessoas que não se sentem à vontade para ir à Gulbenkian, por exemplo, que é um espaço elitizado, porque acham que ‘não têm roupa’, ou que vão ser desconsideradas porque são mais humildes e não se sentem bem”, nota Paula.

A aposta é, então, dupla: garantir programação de qualidade perto de casa e trabalhar para que os diversos públicos se identifiquem com essa programação e participem nela, enquanto espetadores, mas também “programadores” ou mesmo “agentes culturais”.

O diálogo tem dado frutos. O primeiro evento de stand-up comedy dinamizado por Gabriela Melciu e dedicado ao tema da liberdade quase encheu o auditório e passará a ter periodicidade mensal. Em paralelo, o Avenidas acolhe, de abril a junho, o ciclo de cinema On the Move, organizado pelo CHAM (Universidade Nova de Lisboa) e dedicado às migrações e mobilidades contemporâneas, que pela primeira vez saiu da universidade para se abrir ao público.

Até junho, o Avenidas acolhe o Avenidas acolhe o ciclo de cinema On the Move, organizado pelo CHAM (Universidade Nova de Lisboa), dedicado às migrações e mobilidades contemporâneas. Foto: @avenidas.umteatroemcadabairro

Sessões de poesia multilingue organizadas pelas editoras locais e um Flash Mob, no Dia Mundial da Dança, na Praça Nuno Gonçalves, promovido pela Amalgama e o Teatro Avenidas, foram as novidades do último mês.

“Se não fosse esta troca de ideias, se calhar não teríamos esta programação tão diversa e provavelmente não traríamos o stand-up aqui tão cedo”, diz Otília Moreira, satisfeita.

Quem dança seus males espanta

Foi Otília quem convidou Alfredo Paixão, professor de tango na UNANTI – Universidade das Avenidas Novas para a Terceira Idade, e morador no bairro do Rego, a dar no Teatro Avenidas uma aula de tango às terças-feiras, a acrescentar à que dá às quintas na Piscina das Avenidas Novas aos seniores da UNANTI. Esta seria aberta à comunidade.

Alfredo Paixão, morador no bairro do Rego, dá aulas de tango na UNANTI e agora também no Avenidas. Estas aulas são abertas à comunidade. Foto: Rita Ansone.

Alfredo Paixão, professor de tango com formação de base em filosofia, aceitou o desafio e há dois meses passou a dançar-se o tango no Avenidas. Tem tido cerca de dez pessoas por sessão, quase todas mulheres, quase todas da UNANTI, mas espera-se que o grupo cresça.

António José, alentejano, 95 anos, é, hoje, o único homem hoje, tirando o professor. “Ando aqui para me obrigar a sair de casa. A minha mulher também tem 95 anos. Nos dias em que ela está melhor, venho. Sempre gostei de dançar e aqui sinto-me bem, sinto-me alegre. Em casa parece que me sinto mais velho. Aqui sinto-me mais novo.”

Ninguém diria que António tem 95 anos, tal a destreza com que dança o tango com a elegantíssima Yeda, 77 anos, brasileira. “Bendito seja entre as mulheres”, brinca, lamentando a falta de pares masculinos.

Quando soube que haveria mais uma aula no Avenidas, Yeda não perdeu tempo. Adora dançar, além do tango, anda nas danças tradicionais portuguesas e fala da dança como de uma terapia. “Faz bem para a alma, para a cabeça, para o espírito e para o corpo. Jamais imaginei que ia dar um passo de tango. Quando contei à minha família, não acreditaram, mas aqui estou eu.” E está muito bem.

Tal como Isabel, 72 anos acabados de fazer, recém-chegada depois de uma interrupção de um ano. “É como começar do zero. O tango é como o alemão. Aprende-se, não se pratica, esquece-se. Mas gosto muito, faz-me bem.”

Vera não é do bairro, vem do Parque das Nações, foi a filha que a inscreveu sabendo que voltar a dançar tango, que praticou há 30 anos, era um sonho antigo. Está a ser um desafio, porque Vera também dança salsa e dança do ventre e os diferentes passos e posturas ainda se misturam na cabeça e no corpo, mas em três aulas já se sente em família.

Foto: Rita Ansone.

Alfredo Paixão explica que o tango é das danças mais difíceis. Os passos-base não são complicados, o que é complicado é a postura, o equilíbrio sobre uma perna, os giros. “Mas, ao contrário da salsa, a idade não é uma barreira aqui. O tango é infinito. Posso evoluir até aos cem, duzentos anos.” Ri-se. Têm todos muitos anos pela frente. Há que aproveitá-los. E dançar.

Isto é um grupo de teatro

Aproveitar. É o que faz também o Grupo de Teatro Avenidas, nascido em setembro do ano passado, em dezembro já tinha estreado a primeira peça. “Somos verdadeiros artistas. Em dois meses, pusemos a peça de pé”, brinca Filomena. A encenadora Joana confirma a rir. Como riem todos, em coro, quando se pergunta se houve audições para entrar no grupo. “Sim, sim, rigorosíssimas”, diz Joana, com ironia divertida.

É uma maravilha encontrar tanta boa disposição por metro quadrado e é o que se encontra nesta sala de ensaios, onde se reúne o grupo de teatro amador do Avenidas, sob a “batuta” de Joana Saraiva, a encenadora, ao centro. Foto: CP

Não há audições, claro que não. A ideia é que a entrada seja livre e aberta. Isabel, vizinha e frequentadora do teatro, foi desafiada numa das manhãs em que passou para cumprimentar a equipa. “A Otília disse-me que ia começar um grupo de teatro e perguntou se eu queria participar. Eu disse logo que sim”, conta.

Fernanda e Teresa vêm da ADAS, a associação local com a qual o Avenidas trabalha em vários projetos. Filomena foi puxada pela Antonieta. Pedro é “um penetra de Benfica”. Deixou o futebol em 2012 por motivos de saúde e começou a fazer teatro. Passou pela Terra Amarela, pelo Teatroàparte, da ART, pelo Teatro Independente de Loures (no qual se mantém), e quando soube que a Joana, com quem trabalhou na Terra Amarela, vinha para o Avenidas, juntou-se. “Costumo dizer que venho divertir-me de forma responsável”, diz Pedro.

“Uma coisa é darem-nos um texto para decorar, outra é construirmos, aos poucos e em coletivo, uma peça feita das histórias desta gente e deste bairro”, continua Pedro, sintetizando assim o método do grupo de teatro amador do Avenidas.

É a essa construção coletiva que servem os exercícios de improvisação propostos por Joana, que desafia os participantes a encarnar personagens, encenar emoções, estados de espírito e interações, inventar falas e diálogos.

Este grupo de teatro é um “work in progress”, diz a encenadora, feito de vizinhas que se conheciam de vista e passaram a conhecer-se de facto, de memórias, de vivências e de muito boa disposição, concordam as atrizes. O palco é só um pretexto para se juntarem todas as semanas e fazerem de conta que isto é um grupo de teatro. É isso o teatro, não é?

A primeira vez que Maria Gil viu um auditório com mais pessoas ciganas do que não-ciganas

Um work in progress é também o de Júlio Esperança, 66 anos, oito filhos, 35 netos. Foi um dos primeiros moradores do bairro social criado para realojar as pessoas que viviam em barracas. Criado em Loures, na Malaposta, nunca teve um estilo de vida nómada, que caracterizava a comunidade a que pertence no tempo em que ele era garoto.

“A minha gente não parava 48 horas no mesmo sítio. Assim é difícil criar raízes. Por isso, é que às vezes a integração e a escola são complicadas. Mas também lhe digo, quando iam à escola, muita vez ouviam ‘não brinques com ele, que é cigano’. As crianças ficam com isto na cabeça. É daqui que vem o racismo”, diz Júlio, que casou aqui, aqui vive há quarenta e tal anos e aqui se tem dedicado a derrubar barreiras e a promover uma sã convivência entre ciganos e não ciganos.

O senhor Júlio, como lhe chama Sónia Brás, é o líder da comunidade cigana do bairro do Rego, onde vive há mais de 40 anos. Trabalha com o Avenidas para mobilizar miúdos e graúdos da comunidade para as diversas atividades culturais do espaço e luta pela integração e igualdade entre todos, “ciganos e não ciganos”. Foto: CP

O seu papel é o de mais velho, que, na comunidade dele, significa influência. “Há muito respeito pelos mais velhos. Se eu falar, toda a gente ouve e vem, por respeito, porque é da nossa tradição.”

Quando o Avenidas abriu, os netos de Júlio foram os primeiros a entrar no espaço, ao final do dia, depois das aulas. Sónia Brás, que coordena o projeto Olé Arte, conta que uma porta abriu a outra. “Começámos a falar com o senhor Júlio e pedimos-lhe opinião sobre o que faria sentido fazer com a comunidade e foi assim que nasceu este projeto.”

A primeira ideia foi celebrar o Dia da Pessoa Cigana, a 24 de junho. Mas Júlio Esperança explicou que nesse dia a comunidade dispersa-se. Escolheu-se outra data, 10 de junho, e em 2025 fez-se a primeira edição. Houve a apresentação de um pequeno filme rodado com as crianças, na primeira pessoa, a mostrarem os seus espaços no bairro. Houve uma conversa que juntou o mediador cultural Sérgio Marques, a psicóloga Mariana Carlos, da ANADIC, que tem um projeto de ensino à distância com jovens desta comunidade, o Bruno Oliveira, mediador cigano no Hospital de São José, e a atriz, realizadora e ativista cigana Maria Gil, que comentou, no fim: “Trabalho há tantos anos e foi a primeira vez que vi um auditório com mais pessoas ciganas do que não-ciganas.”

Os 82 lugares estavam preenchidos. Houve música. Houve dança. Houve encontro. Este ano prepara-se a segunda edição, o foco são as mulheres e há um filme mudo em preparação com os miúdos, mas Sónia Brás não quer adiantar muito mais, para não “criar spoilers“.

Quando se pergunta a Júlio Esperança qual é, para ele, a importância de trazer a comunidade ao Avenidas, a resposta vem clara: “Quando consigo que venham, é uma vitória. O meu intuito é puxá-los para não lidarem só dentro da etnia cigana, juntarem-se aos outros, sermos todos unidos e iguais. É isso que eu quero. É isso por que eu luto e por que vou lutar sempre.”

Otília Moreira, coordenadora do Teatro Avenidas – Um Teatro em Cada Bairro, sabe que o seu trabalho é mais o da formiga do que da cigarra. Mas só assim, com tempo, atenção e o olhar largo que descortina os parceiros certos na comunidade consegue atingir-se o objetivo traçado pelo programa da CML. Foto: Rita Ansone.

Júlio não sabe ler nem escrever. “Mas sei ouvir”, diz. Os seus oito filhos estudaram todos. Os netos também. “Não quis que passassem o que eu passei. Quando há atividades aqui no Avenidas mobilizo a minha gente. Digo: ‘olha que há aquilo, há o outro, vamos ali um bocadinho. Vai lá, pelo menos para ver como é. Como é que podes dizer que não gostas se não vais?’ E lá vêm, vêm devagarinho, mas vêm, cada vez mais, e vão ficando. Tem de ser devagar, porque a gente não tem todos a mesma mente, não é?”, diz Júlio, garantindo que, no entanto, que “ciganos e não-ciganos” sempre conviveram bem no bairro.

A relação com o Teatro Avenidas decorre da integração e aprofunda-a. “Este espaço tem sido muito bom para a nossa gente e o que eu possa fazer pelo bairro, faço, é o meu trabalho”, diz o “líder” da comunidade cigana do Rego.

“Tem de ser devagar.” As palavras de Júlio Esperança ecoam as de Otília Moreira sobre o papel do Teatro Avenidas. “É gradual. Tornar este espaço normalizado para todos. Nem tudo o que fazemos aqui interessa a toda a gente, mas a ideia é que, a pouco e pouco, tenhamos uma programação tão diversa que vá ao encontro de cada um e de todos.”

Para lá da programação corrente – do Olé Arte ao Avenidas de Filmes, do Estúdio de Bairro às muitas oficinas e exposições, dos festivais A(R)tivismo e Avenidas Bebé Fest aos arraiais do Mercado e ao magusto comunitário –, é através de trabalho de mediação distribuído por dezenas de projetos ao longo do ano que o Teatro Avenidas torna a cultura orgânica na vida do bairro. Devagar. Mas para durar.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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