Não foi há muito tempo. Ainda se lembra daquele dezembro de 2022, em que o rio Tejo galgou as margens para inundar parte de Lisboa? Era a quarta tempestade desde o início do outono. E, a 13 de dezembro daquele ano, foi batido o recorde de precipitação em 24 horas, com 120,3 milímetros. À chuva juntou-se uma preia-mar, os solos saturados e um risco com o qual a cidade se compromete há muitos anos: a construção em leito de cheia.
Choveu muito, Jiahui Zhou perdeu tudo na loja na Estrada de Benfica e Amélia Machado estava longe de imaginar o prejuízo na pequena loja de lãs e tecidos também. E, agora, com um “comboio de tempestades” a abalar todo o país, Lisboa teme passar pelo mesmo.
Têm sido dias de vento forte e chuva persistente, com efeitos catastróficos na região centro e, agora, com a ameaça de inundações no Tejo. O mês de janeiro registou 22 dias de precipitação, quando, em média, se esperariam cerca de 10 dias, confirmando as suspeitas de um inverno particularmente chuvoso.
Em Lisboa, a precipitação, aliada à saturação do solo, está a obrigar a cidade a tomar medidas extraordinárias, encerrando espaços verdes e parques municipais, devido ao perigo de queda de árvores.

A História diz-nos que as inundações dão-se sobretudo nas áreas ribeirinhas da cidade e nos fundos dos vales – em Alcântara, na Baixa ou em zonas para lá das fronteiras do concelho, como em Algés. É para aqui que as águas afluem, seguindo naturalmente o caminho com menos resistência. Muitas vezes, através de ribeiras encanadas, como acontece em Alcântara ou nos vales localizados na Avenida da Liberdade e na Avenida Almirante Reis.
Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, cerca de 6% da área total do concelho – seis milhões de metros quadrados – está classificada como área de “elevada vulnerabilidade a riscos de inundação”.

A chuva persistente que tem caído vai prolongar-se, pelo menos até domingo. O risco em Lisboa… também. Mas o município tem em andamento uma estratégia maior, para preparar a cidade para o próximo século de episódios de precipitação e evitar cheias.
O grande plano para as inundações
Já deve ter ouvido falar dela: a grande obra que está sempre a mudar a orientação do trânsito em Lisboa. Em marcha desde 2016 – e com conclusão prevista para 2030 – o Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL) é um dos maiores investimentos de sempre da cidade, numa obra orçada em 250 milhões de euros.

Por baixo dos nossos pés, estão a nascer dois grandes túneis de drenagem, que prometem preparar a cidade para o próximo século, procurando evitar 70% a 80% das inundações em Lisboa.
Estes túneis têm 5,5 metros de largura e vão permitir acolher água em excesso na rede local de coletores dos mais importantes vales de escoamento da cidade.
Nos centros urbanos, e especialmente em cidades acidentadas e caracterizadas pelos seus vales, como Lisboa, a mitigação dos efeitos de chuvas persistentes e a prevenção de cheias passa por medidas que promovam a diminuição da velocidade de infiltração das águas no solo, reduzindo o caudal das cheias para jusante.
O túnel entre Campolide e Santa Apolónia, com cerca de cinco quilómetros de extensão, vai permitir acomodar o crescimento dos caudais no caneiro de Alcântara e nas zonas da Avenida da Liberdade e da Avenida Almirante Reis – por onde circulavam as ribeiras de Valverde e de Arroios, respetivamente.
“Gostamos de dizer que estamos a preparar Lisboa para o século XXII, não é para o século XXI”, afirmava, em 2021, José Silva Ferreira, engenheiro responsável pela coordenação do plano, em entrevista à Mensagem.
O outro túnel, entre Chelas e o Beato, terá cerca de um quilómetro de extensão. A obra está, no entanto, atrasada. Inicialmente com final previsto para o primeiro trimestre de 2025, a construção dos túneis ainda não viu o seu final. A tuneladora, com 130 metros de comprimento, 6,4 metros de diâmetro externo e uma cabeça de corte que pesa 70 toneladas, chegou a Lisboa em 2022 e terminou a escavação do primeiro túnel em julho do ano passado, tendo sido transportada para o Beato em setembro, numa das maiores operações de transporte de sempre em Lisboa.


A 4 de dezembro de 2025, começou a escavar o segundo túnel, partindo do Beato em direção a Chelas. Quando a obra terminar, no início do segundo trimestre deste ano, a enorme tuneladora vai ficar soterrada no solo lisboeta – algo comum em operações desta natureza.
Muito anterior às obras de construção dos dois novos túneis caneiro de Alcântara, o caneiro de Alcântara começou a ser construído em 1945, sendo inaugurado mais de 20 anos depois, em 1968. O objetivo é canalizar a Ribeira de Alcântara e servir de canal de escoamento de águas pluviais.
A ribeira que aqui circula é o mais importante curso de água do Vale de Alcântara, com nascente na Amadora:


Este túnel, que é atualmente o maior coletor de águas pluviais da cidade, tem vindo a sofrer sucessivas obras de reabilitação, entre 2021 e 2025, depois de detetados riscos de colapso em diferentes secções da estrutura.
Mas não só de obras vistosas se constrói a resiliência da cidade face à ocorrência de cheias – há várias outras estruturas previstas pelo plano. Muitas são de base natural e passam facilmente despercebidas.
Bacias de retenção: as soluções invisíveis
O plano de Lisboa para mitigar o efeito das chuvas persistentes não passa apenas por vistosas obras de engenharia.
Parte da solução está no estabelecimento de infraestruturas invisíveis aos olhos menos atentos – e que podem encontrar-se nos lugares mais inusitados. Espalhados por jardins, baldios e zonas verdes da cidade encontramos bacias de retenção. São estruturas de base natural que permitem recolher água e caudais de tempestade em pequenas bacias ou lagoas, aumentando a capacidade de retenção e abrandando o ritmo de infiltração da água no solo.
Em alguns casos, como acontece no Parque Gonçalo Ribeiro Telles, na Praça de Espanha, ou no Jardim Mário Soares, no Campo Grande, passam totalmente despercebidas. Fazem parte integrante das estruturas verdes da cidade e, nos meses quentes, são locais de lazer, com relva, onde é possível estender a toalha. Durante episódios de chuva intensa ou persistente, servem para recolher água e chegam a criar verdadeiros lagos.


Ainda na Praça de Espanha, a obra que criou o novo espaço verde da cidade, inaugurado em 2021, abriu um caminho de água. Seco durante grande parte do ano, foi implementado para tornar-se num pequeno curso de água, sempre que chove de forma intensa.
Também se encontram no Parque da Bela Vista, em Marvila, ou no Parque Florestal de Monsanto, junto ao campus da Universidade de Lisboa.
Estes sistemas, integrados de forma natural no solo da cidade, contribuem para a retenção de água nos solos: abrandam o fluxo para jusante e impedem, ou pelo menos atrasam, o efeito de cheia nas zonas mais baixas da cidade.

Para além das bacias de retenção, há ainda outras estratégias que a cidade pode adotar. Exemplo disso são as trincheiras de infiltração – estruturas que podem ser instaladas ao longo das ruas, idênticas a canteiros para onde as águas são encaminhadas pela inclinação do pavimento. Promovem a infiltração do solo e contrariam a impermeabilização dos solos urbanos, onde se formam inundações.

Prepare-se: este é o “novo normal”
O que se passa, Lisboa? O padrão meteorológico atual explica-se, em parte, pela posição do anticiclone dos Açores. Ao encontrar-se mais a sul do que é habitual, abre caminho à passagem repetida de tempestades que atingem Portugal Continental.
Apesar da frequência e intensidade dos episódios recentes, Paula Leitão, meteorologista do IPMA, sublinha que ainda é cedo para estabelecer uma relação direta entre a atual posição do anticiclone dos Açores e as alterações climáticas. “Há variações normais na atmosfera. Em média, o anticiclone encontra-se numa determinada região, mas existem desvios. Neste momento, está numa posição significativamente mais a sul”, explica.
Segundo a meteorologista, só a análise de um grande número de eventos semelhantes, ao longo do tempo, permitirá perceber se estas anomalias estão (ou não) relacionadas com o aumento da temperatura global.
Ainda assim, olhar para o contexto das alterações climáticas pode ajudar-nos a perceber se este padrão de tempestades vai tornar-se no “novo normal”. A resposta rápida é: sim.
Com o aquecimento global, as temperaturas estão mais elevadas – tanto no ar como no oceano. Um mar mais quente liberta mais energia e mais humidade para a atmosfera: a água quente evapora com maior facilidade e passa a haver mais vapor de água disponível para a formação de chuva. E estas condições favorecem a formação de tempestades mais intensas.
De acordo com o relatório State of the Global Climate de 2025 da Organização Meteorológica Mundial, o calor armazenado nos oceanos atingiu recordes em 2024 e continuou a aumentar em 2025. Ao nível da temperatura média global, o ano passado foi também um dos mais quentes de sempre, devido à acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera, indica a OMM. Os especialistas alertam que cada grau adicional de aquecimento pode traduzir-se em mais 6 a 7% de precipitação.
Num clima em aquecimento, torna-se assim mais provável que fenómenos extremos se repitam com maior frequência e intensidade, no futuro.
Alerta vermelho no Tejo
Cerca de uma semana depois da passagem da depressão Kristin por Portugal, as barragens tiveram de libertar 500 milhões de metros cúbicos de água em apenas dois dias para evitar cheias – o equivalente a três vezes o consumo anual da Área Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes. Neste momento, o aumento do caudal do Rio Tejo, motivado pela precipitação dos últimos dias e pela necessidade de descargas elevadas de barragens do lado de Espanha, ameaça populações ribeirinhas a caminho de Lisboa, no distrito de Santarém e no concelho de Vila Franca de Xira.
Nesta quinta-feira, a Proteção Civil emitiu mesmo um alerta vermelho para a bacia do Tejo, aconselhando à evacuação de populações de algumas localidades ribeirinhas, numa situação grave de aumento do caudal que não se verificava desde 1997.
Perante estes eventos, cumprir as recomendações da Proteção Civil – como fechar portas e janelas, limpar cursos de água e prevenir infiltrações nas habitações – ajuda a reduzir os riscos.
Ainda assim, face a eventos climáticos mais extremos, essa preparação pode revelar-se insuficiente, alerta Paula Leitão.
Para preparar o futuro, importa olhar para o passado.

Em 1967, um pico de precipitação na região da Grande Lisboa poderá ter provocado a morte a cerca de 700 pessoas – o número certo nunca chegou a ser conhecido. A pior tragédia na região depois do terramoto de 1755 causou ainda a destruição de milhares de habitações e estruturas da cidade.
Para além da construção de túneis de drenagem e de soluções de base natural, como as bacias de retenção e a permeabilização dos solos urbanos, a mitigação dos efeitos de inundações futuras na cidade deve socorrer-se de ferramentas como a sensorização da rede de coletores.
Rodrigo Proença de Oliveira, engenheiro civil, professor no Instituto Superior Técnico (IST) e um dos autores do Plano Geral de Drenagem de Lisboa, apontava, em entrevista à Mensagem em 2022, para a importância de investir na sensorização da rede de coletores da cidade.
Para que o município possa ser “mais incisivo nos alertas” à população e todos possámos estar melhor preparados.

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