As inundações desta semana estragaram muitos dos produtos que o comércio local de Benfica guardava para vender no Natal. Foto: Inês Leote

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Na sua loja de produtos chineses, na Estrada de Benfica, Jiahui Zhou deita as mãos à cabeça. A cave inundou. Nas cheias da semana passada, a água chegou a ter um metro de altura. Desta vez, não foi tão grave e com a limpeza feita pela família a água está agora com 20 centímetros. “Não sabemos de onde veio a água, se foi do teto, das sanitas ou do chão”, diz a proprietária.

O susto da semana passada fê-la comprar uma mangueira para expulsar a água, mas mesmo assim não é suficiente. “Sabemos que não somos o caso mais grave, mas temos muitos estragos”, diz Jiahui lamentando que os bombeiros ainda não tenham ido à loja.

Vestidos molhados, caixas de papel desfeitas, ferramentas com ferrugem, brinquedos danificados, expositores estragados e a descolar. Tudo o que estava pronto para uma época e fartura, como é o Natal. “Vai tudo para o lixo, não dá para vender”, mostra Jiahui, que faz as contas por alto e diz que o negócio de família deve ter um prejuízo de cerca de 25 mil euros.

Ainda é cedo para fazer as contas certas aos estragos causados pelas inundações, mas foram o suficiente para estragar o Natal à família Zhou. A mãe Jiahui desfaz-se em lágrimas enquanto mostra os expositores do rés do chão molhados. Embora este piso não tenha ficado alagado, a humidade chegou a toda a parte e muitos dos produtos não estão em condições para vender no Natal.

Nesta loja, a cave está dividida em duas partes: uma serve de exposição e a outra de armazém. Ambas as divisões ficaram inundadas e “todo o stock que estava guardado para a altura do Natal está destruído”, diz Jiahui.

Na Rua A-da-Maia, uns primos da família Zhou têm também uma loja. O cenário é semelhante, mas aqui os bombeiros já começaram a retirar a água. A loja é mais pequena e há ainda mais água. Mingyu Xiang, prima de Jiahui, mostra mais de 20 caixas com papel de embrulho por abrir. Estão todas molhadas.

“Não vai dar para aproveitar nada. Tínhamos imensas encomendas no armazém para o Natal e vamos deitar tudo fora”, diz.

Em Benfica, de que não se tem falado muito, as zonas mais afetadas pelas cheias são a Estrada de Benfica, Rua Emília das Neves e Rua A-da-Maia, onde se verificaram mais ocorrências devido às chuvas fortes, segundo o presidente da Junta de Freguesia de Benfica à Lusa, referindo que os prejuízos nesta freguesia chegam, para já, a 1,8 milhões de euros. Esta é uma zona tradicionamente de cheias, sendo a Estrada de Benfica parte da antiga ribeira de Acântara.

Parte da BD sobre Benfica – de Ferreira Fernandes e Nuno Saraiva.

Num inverno já agreste, o comércio de rua já estava fraco, dizem os comerciantes, mas agora fica ainda pior. Na Estrada de Benfica são várias as lojas, mercearias ou outros serviços que têm à porta mangueiras a expulsar a água. Um vislumbre do que se pode encontrar lá dentro.

A contrastar com este cenário anormal estão as iluminações natalícias. A menos de 15 dias do Natal, é nesta altura que o comércio tradicional mais brilha. Mas a chuva forte da semana passada e desta terça-feira instalaram o caos.

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Na Rua Emília das Neves, muitas lojas ficaram sem eletricidade, várias garagens ficaram alagadas. Cabeleiros, mercearias, clínicas – todos estes serviços tiveram de ser limpos ou por bombeiros ou pelos fregueses.

Mais à frente, na Avenida Grão Vasco, a pequena loja de lãs e tecidos tem novelos de lã pelo chão, vassouras e baldes encostados aos expositores. Amélia Machado está desolada. À frente do negócio há mais de 50 anos, a comerciante de 82 não sabe dizer quanto perdeu. “Não sei números totais, os meus filhos é que controlam as faturas, mas posso dizer que só em sacos de lã para o inverno foram mais de 5 mil euros.” Esta lã iria ser vendida a partir da próxima semana e estava guardada na cave.

A inundação chegou até ao terceiro degrau e tem ainda a marca da linha de água. As escadas estão cheias de lama.

A loja tem ainda uma sub-cave que parece uma piscina. “Tudo o que está aí vai para o lixo.” Caixas e embalagens com lãs e outros produtos estão a boiar. “Mas isso não é nada, ontem estava muito pior e a carrinha da câmara levou vários sacos com coisas para o lixo”, diz Amélia elogiando o apoio e a prontidão da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia de Benfica nesta terça-feira.

Na Estrada de Benfica a perfumaria de Ronak Nautamlal tem ainda uma mangueira no passeio. Na montra estão várias paletes com várias caixas amontoadas. Também aqui a água fez estragos.

Esta é a terceira inundação em menos de uma semana. A semana passada, a cave chegou a estar com um metro de água e os bombeiros conseguiram retirar a água. Mas Ronak, além do stock, perdeu todo o material informático.

Entre terça e quarta-feira, a água chegou aos 20 centímetros e Ronak comprou uma mangueira e baldes para retirar toda a água. “Mais um custo”, lamenta o comerciante que diz, “no mínimo”, já ter perdido 12 mil euros. “São os armários cá de cima que estão a descolar, as caixas, os cartazes e os produtos todos guardados lá em baixo, está tudo molhado. Perdi tudo.”

Esta é pior parte e vem na pior altura: o Natal.

“Já tinha todo o stock pronto, porque as marcas já fizeram as entregas para esta altura e perdi tudo. Agora é só o que está em exposição.” E não chega. “Vou vendendo os melhores produtos, mas não tenho reposição e depois ficam só os produtos mais fracos que não vendem. O que tenho não chega até ao Natal”, lamenta Ronak que espera por um apoio da câmara.

Clientes entram na loja. “Viemos ajudar-te!”, dizem a Ronak. Ainda há esperança.


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* Daniela Oliveira nasceu no Porto, há 22 anos, mas a vontade de viver em Lisboa falou mais alto e há um ano mudou-se para a capital. Descobrir Lisboa e contar as suas histórias sempre foi um sonho. Estuda Ciências da Comunicação na Católica e está a fazer um estágio na Mensagem de Lisboa. Este artigo foi editado por Catarina Pires.

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