Nunca os vemos sentados à mesa das negociações, a falar em reuniões de Câmara Municipal ou como comentadores nas televisões. Mas não é porque não têm nada para dizer. Se lhes fosse dado espaço para falar, o que diriam as crianças sobre o lugar onde vivem?

A Mensagem desafiou 80 alunos dos 3.º e 4.º anos da Escola Básica Teixeira de Pascoais, Alvalade, a mapear e contar histórias na freguesia. “Também moro aqui! Mini-repórteres do bairro” é um projeto-piloto em parceria com a Associação de Pais da escola, no âmbito da AEC (Atividade de Enriquecimento Curricular) Clube de Jornalismo – ali coordenado por Maíra Streit, jornalista colaboradora da Mensagem.

É precisamente o jornalismo o ponto de partida para estas crianças de 8, 9 e 10 anos, que vão entrevistar cidadãos ativos da cidade, como o urbanista e geógrafo João Seixas, a professora de crioulo Ana Josefa Cardoso, o jardineiro Nuno Prates, “o padrinho de Chelas” e do hip hop Nuno Varela, e Ana Santos, da Associação para Defesa e Desenvolvimento do Campo Grande (ADECAM).

Entrevistas a graúdos feitas por miúdos, publicadas na Mensagem – com perguntas nunca antes feitas e respostas que nunca ouvimos.

Os pequenos repórteres vão recolher ensinamentos e inspiração junto destes protagonistas para, depois, proporem às autoridades locais melhorias no lugar onde moram e estudam – num manifesto, numa exposição de fotografia coordenada pelo conceituado fotojornalista Mário Cruz e, por fim, numa conferência de imprensa onde, pela primeira vez, a Câmara Municipal de Lisboa e a Junta de Freguesia de Alvalade se sentam à mesa com crianças para debater cidade.

Um projeto que traz uma mensagem: que os ouçamos mais para a tomada de decisões na cidade ou no bairro.

Prova dos factos: o que acontece quando ouvimos mais as crianças?

“Lisboa não é uma cidade amiga das crianças”, diz o Frederico Lopes, investigador sobre o planeamento de cidades para os mais miúdos.

O imaginário de uma cidade atual não é o mesmo de há mais ou menos 30 anos. E crescer nela está muito diferente também desde essa altura, em que as ruas tinham menos carros, por exemplo. Por isso é que o especialista Frederico Lopes diz que não se pode falar dos desafios da infância sem falar que cidade é a nossa hoje.

Uma e outra andam sempre ligadas. E, no que toca a mobilidade, a título de exemplo, há dados que o mostram mesmo: em 2015, um estudo internacional sobre mobilidade infantil dava conta de que Portugal tem dos pais mais protetores; um ano antes, Portugal estava em 10.º lugar no Ranking internacional de Independência de Mobilidade de Crianças; os últimos Censos dão conta de que metade das crianças portuguesas vai todos os dias de carro para a escola. E, agora, Lisboa foi considerada a segunda pior cidade da Europa para as crianças andarem a pé ou de bicicleta – uma análise feita pela Clean Cities a 36 cidades europeias.

Mas há bons exemplos: há anos que o consórcio Brincapé (o qual resulta de uma parceria de trabalho entre o 1,2,3 Macaquinho do Xinês e a APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil) decidiu fechar temporariamente algumas ruas de Lisboa e trocar os automóveis por… carrinhos de rolamentos. Devolver o alcatrão e a calçada às crianças.

Há também um projeto internacional que está a ouvir crianças de várias cidades europeias e desafiá-las a pensar em melhorias para cidades mais cicláveis. No fundo, torná-los cidadãos ativos e participativos no lugar onde moram. Chama-se “Bicycle Heroes” (Heróis de Bicicleta) e é organizado pela BYCS, uma ONG sediada em Amesterdão e que tem como lema “as bicicletas transformam cidades e as cidades transformam o mundo”. Esta iniciativa tem o apoio da União Europeia e da EIT (Instituto Europeu da Inovação e da Tecnologia), entidade que promove as questões de mobilidade na Europa.

Todos os anos, são eleitas cidades europeias para recolher ideias dos mais novos, trabalhar de perto com eles em determinadas propostas e criar uma espécie de conselho de crianças para a mobilidade suave.

Mas nem tudo é sobre mobilidade: na Graça, pais e crianças juntaram-se para construir uma agrofloresta – a primeira numa escola pública em Portugal, na Escola Básica e Secundária Gil Vicente. Faz lembrar também os mini jardins de Elisabete: uma brincadeira que se transformou num negócio para a fundadora da Mini Mô Gardens, em que ajuda a criar mini-jardins em vasos, aos mais novos.

E, no BioLab de Arroios, há crianças e adultos a aprenderem sobre o poder da biotecnologia nas cidades.

Em Lisboa, a Assembleia Municipal, a Câmara Municipal, as Juntas de Freguesia e as escolas juntaram-se para fazer acontecer, desde 2022, uma Assembleia das Crianças de Lisboa, de onde as ideias podem virar votações na Assembleia Municipal.

Mas perguntámo-nos: por que razão é tão útil ouvir as crianças? Lá fora, isto tem trazido frutos. Em Oslo, na Noruega, depois da criação da app “Traffic Agent”, desenvolvida para permitir que as crianças reportassem, de forma lúdica, problemas de segurança no trajeto até a escola, a cidade transformou-se mesmo, como relata o jornal The Guardian: alguns cruzamentos perigosos foram reconstruídos e criaram-se mais passeios para tornar os caminhos mais seguros quem anda a pé.

Também na Alemanha, em Ratisbona, as críticas das crianças resultaram na criação de um grande parque infantil inclusivo, calçadas acessíveis para pessoas de cadeira de rodas e a construção de 1400 apartamentos de renda acessível.

Em Lisboa ou noutra cidade do mundo, o que eles estão a aprender estão também a semear (às vezes literalmente). O que farão agora com as bases de jornalismo nas mãos?


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