O bairrismo ainda resiste. Que o digam os apaixonados integrantes da Associação para Defesa e Desenvolvimento do Campo Grande (ADECAM) que, embora estejam localizados na atual junta de Alvalade, e sediados num prédio na antiga junta de São João de Brito, há 30 anos que defendem o nome do velho bairro ao qual dizem ainda pertencer: Campo Grande – ponto final, parágrafo.
“O Campo Grande ainda existe”, lembra Fernando Silva Marques, um engenheiro químico de 67 anos que não esconde a química que tem com o bairro onde passou a maior parte da vida.
Há 12 anos que preside a associação que hoje conta com 60 vizinhos, todos eles moradores de Alvalade, mas com o coração a bater por um pedaço especial da freguesia.
Uma devoção que chega aos 30 anos em julho de 2024, mas que, se contar direitinho, é ainda mais antiga: o que é hoje uma associação organizada com estatuto interno, tesouraria e outros parâmetros burocráticos teve início duas décadas antes, em 1975, na retomada da democracia portuguesa, como um alegre e despretensioso grupo de teatro infantil.
Hoje, é particularmente conhecida pelo coro de 35 vozes do bairro, que fazem apresentações além freguesia, onde um maestro e vizinhos afinam mãos e vozes em defesa de Campo Grande.

Do teatro infantil ao teatro de adultos
As peças protagonizadas por lobos maus e caçadores em bosques tão distantes logo cederam a histórias mais próximas, muitas delas com o Campo Grande como cenário. No Dia Mundial da Criança de 1996, já como ADECAM e o apoio da junta de Campo Grande, reviveram cenicamente a Feira das Bestas, que no século XIX ocorria no atual Jardim Mário Soares.
Pelo jardim também passeava a Rainha D. Amélia, promenades reconstituídas em 1997, assim como a Batalha das Flores e recitais de poesia e teatro de rua. Havia ainda passeios de barcos no lago e, em 2000, no quinto centenário da chegada portuguesa ao Brasil, os barquinhos viraram caravelas e o lago um oceano para a encenação da Carta de Pero Vaz de Caminha.
A intensa atividade dramatúrgica fez nascer o grupo de teatro Peça a Peça, em 2001, agora dedicado ao teatro adulto, levando aos palcos de Campo Grande textos de autores portugueses e internacionais. A exigência de uma rotina mais regular de ensaios, porém, acabou em 2006 por levar ao fim a atividade inaugural da associação.

“As pessoas já não tinham mais tanta disponibilidade de tempo para cumprir a agenda de ensaios e, se não era para fazer como se devia, não fazia sentido continuar com o grupo teatral”, explica Ana Santos, diretora da associação.

O fim do Peça a Peça foi um momento difícil, mas acabou por ser metabolizado pela introdução de outras atividades culturais, como as aulas de dança de salão e de tai-chi, e a criação, num primeiro momento, de um grupo de jogral – substituído, para valorizar a habilidade musical dos integrantes, por um outro de segréis.
A associação parecia ter dado a volta por cima do seu momento mais delicado, até que em 2012 a Câmara Municipal de Lisboa colocaria os bons e fiéis amigos do Campo Grande mais uma vez em xeque.
Uma luta cívica
A ADECAM ocupa hoje uma das salas do Centro Cívico Edmundo Pedro, na rua Conde Arnoso, até 2013 sede da Junta de Freguesia de Alvalade, quando a autarquia mudou-se de São João de Brito para o Bairro das Estacas. Um gesto carregado de simbolismo ao situar o poder político no coração de Alvalade, equidistante das duas antigas juntas que agora abriga.

A escolha por Alvalade, em vez de São João de Brito e, principalmente, de Campo Grande para batizar a nova junta de freguesia que nasceria em 2012 mobilizou a associação. Afinal, se Campo Grande de longe era a maior junta entre as três, estendendo as fronteiras do Lumiar a São Domingos de Benfica, o mais natural era a primazia em ceder o nome.

E para uma associação que carrega “defesa” e “Campo Grande” no nome, lutar era necessário. “Mais do que um movimento político, foi um movimento cívico”, relembra Fernando Marques, sobre a articulação que culminou com uma reunião plenária abarrotada de utentes de Campo Grande, indignados por serem preteridos na honra de dar nome à nova freguesia.
Mas o que aconteceu, afinal?
“A Câmara Municipal de Lisboa explicou-nos que a decisão não passava pelo tamanho da freguesia, mas pela densidade demográfica. E Alvalade, apesar de menor em área, tinha mais moradores do que Campo Grande”, explica o presidente da ADECAM.
A decisão política, portanto, em escolher Alvalade para dar nome à freguesia que nascia não arrefeceu os ânimos dos integrantes da ADECAM. Afinal, para todos os efeitos, a antiga freguesia continuava a existir, mesmo que não mais na geopolítica do município. O que levou os integrantes da associação a decidirem manter o nome da entidade.
“Mudar o nome da associação? Nunca! Mesmo com a escolha por Alvalade para nomear a freguesia, o Campo Grande ainda existe e não vai deixar de ter a sua identidade”, defende Fernando Marques.
Uma realidade que os associados da ADECAM repetem em coro.
Um amor pelo bairro cantado em coro
Fundado em 2003, o Coro ADECAM é uma espécie de porta-voz da identidade de Campo Grande. No caso, uma voz bastante afinada. Os 35 integrantes do grupo levam as vozes do bairro em apresentações dentro e fora dos limites da antiga freguesia. A última delas, a fechar as atividades antes das férias de verão, realizada na sede da associação em julho.
Entre os presentes no auditório do Centro Cívico Edmundo Pedro estava o presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, José Amaral Lopes. “A Junta tem sido uma colaboradora de longa data da associação, mas o presidente deve gostar mesmo do coro, pois não perde uma das apresentações”, pontua Ana Santos.
A diretora da associação reforça que, apesar da presença constante do autarca nas apresentações do coro, a ADECAM é apolítica, laica e independente. “Todos têm a sua preferência partidária e a sua visão política, claro, mas elas ficam na porta da sede”, reforça a diretora.
O coro, claro, foi o convidado de honra da festa em celebração ao trigésimo aniversário da ADECAM, celebrado no mês de julho.
Manter vivo o património de Campo Grande
Para além do bom tom do coro, as valias de Campo Grande também são destacadas em outras séries de atividades, entre elas os passeios em grupos guiados por integrantes do Gabinete de Estudos Olissiponenses.
“A intenção é mostrar o património de Campo Grande, como o passeio realizado pelos vários murais de azulejo do bairro, pela história das entaladas da avenida de Roma e as curiosidades escondidas no Jardim Mário Soares. O próximo será pelos palacetes de Campo Grande”, explica Ana Santos.

Além de circular pelas belezas e histórias do bairro, a ADECAM ultrapassa as suas fronteiras para levar os associados com dificuldades de mobilidade e condições económicas mais vulneráveis em visitas a patrimónios portugueses, como o Palácio Biester, em Sintra.
“Não temos muito recursos, mas conseguimos sempre o apoio da Junta de Freguesia de Alvalade ou da Câmara de Lisboa para arrendar ou disponibilizar um autocarro para os passeios com os associados”, diz a diretora da ADECAM.
Há ainda atividades sociais, como a realização de workshops e ações de plantio de árvores.

Para manter Campo Grande em alta, a associação está de portas abertas a novos membro. Atualmente, conta com 60 integrantes, dos 10 aos 90 anos, moradores do bairro que refletem as mudanças de uma Lisboa cada vez mais multicultural. “Além dos associados portugueses, temos outras pessoas vindas da Alemanha, Brasil, França, Moçambique e da Ucrânia”, elenca.
Mãos, vozes e mentes dos quatro cantos do mundo, mas um só coração, a bater mais forte pelo Campo Grande.


Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
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Muito interessante a história das três freguesias. Assim conheço, a cada texto, um pouco mais dos meandros de Lisboa, cidade que tanto admiro! Parabéns, Álvaro Filho!
Gostei de ler a história das freguesias.
Muito obrigada pela partilha.
Gostaria de continuar a saber mais.
Estas freguesias fazem parte da minha juventude.
Obrigada🙏