João Seixas é professor da Nova- FCSH, mas também um dos fundadores e coordenadores da Livraria Ler Devagar, foi consultor da Comissão Europeia para as políticas de cidades, e coordenador da Reforma das Juntas de Freguesia de Lisboa, há dez anos. Ocupa, agora, um importante lugar no Conselho Editorial da Mensagem de Lisboa. Uma entrevista longa, para ler com tempo e para quem ama esta cidade, onde se fala do turismo, do Martim Moniz, da Baixa e das relações entre os municípios da Área Metropolitana, e dos desafios do futuro próximo.

Esta pandemia especificamente é anti-convívio, anti-pessoas-juntas e na rua. Que efeitos é que isto poderá ter em Lisboa?
Temos aqui um verdadeiro inimigo da humanidade, e a cidade é um produto da humanidade. Eu sou cientista social e olho para as cidades sobretudo como mares de relações, onde depois se constroem estruturas e infraestruturas físicas para convivermos uns com os outros. Uma favela do Rio de Janeiro ou um bairro na Amadora carenciado é mais cidade do que condomínios fechados. A minha visão urbana de cidade é essa. É esse o [seu]principal capital urbano.

E é onde este vírus mais toca.
Sim, claro. Sempre houve relatos de que quando as pestes surgiam incidam mais nas cidades. As cidades são fabulosos édenes ou horríveis infernos, ao mesmo tempo, à mesma hora e se calhar na mesma rua para pessoas diferentes. O que se prevê que possa acontecer? Que as pessoas fujam da cidade, que regressem? Que estejam ansiosas por estarem de novo na cidade?

Isso tem resposta?

Ao longo da história sempre houve alguns arautos a dizer que era o fim disto ou daquilo. A pandemia é um momento difícil, claro. Depois da peste, em Londres, as pessoas voltaram a Londres. A perspetiva de fuga das cidades sempre existiu, pode-se acentuar nestes momentos. Ontem o Financial Times dizia que pela primeira vez Londres tem menos habitantes que no ano anterior. Na Grande Lisboa não há registo disso. Porque as pessoas saíram para as cidades satélites de Lisboa, para Sintra, Cascais, Oeiras, onde se tornou mais seguro e barato viver, mas não deixaram o círculo de influência de Lisboa. A história de Lisboa, muito antes da pandemia, já é razoavelmente distinta de muitas outras cidades.

Em que sentido?
A metropolização de Lisboa começou muito mais tarde do que a maioria das grandes metrópoles europeias. Até aos anos 60 estava tudo muito concentrado dentro da segunda circular. A grande explosão dá-se a partir dos anos 60 e com pouca escola urbanística insuficiente para o que estava a acontecer. Há vários fatores que contribuíram para que essa explosão acontecesse com pouco planeamento e ordenamento do território. Há uma tendência da metrópole de Lisboa para uma maturação ao fim de décadas de explosão sem grande planeamento, e isso esta a acontecer de facto e já acontecia antes da pandemia e agora a política tem de reinventar de uma forma muito ativa.

“O Martim Moniz mostra-nos ate que ponto o lastro da história pode ser luminoso para umas zonas e sombrio para outras.”

Como é que isso podia acontecer?

Neste momento vivemos o tempo da urgência, – mas temos de dar prioridade à grande transformação, porque uma transformação mais madura e mais inteligente também nos permite ser mais resilientes quando surgem estes momentos, estas crises. A covid é uma crise profunda, acentuou bastante as fragilidades, as desigualdades que esta metrópole já tinha. Ao mesmo tempo também nos permite valorizar os pontos fortes e as mais valias que temos. Há uma palavra rainha para resolver isto: política urbana, que inclui muitas coisas como economia da cidade, ação social, urbanismo, ecologias, participação e envolvimento cívico. Não estamos a olhar para uma cidade qualquer. E Lisboa é uma das cidades mais importantes da história da humanidade. Tendemos a olhar para a história de uma forma um bocadinho pastiche, simbólica, tendemos a ter pouca permeabilidade a entendê-la de uma forma viva. É como o centro de Lisboa que é visto de uma forma muito pastiche, mas devia ser visto como um ser vivo que também tem o seu carácter, a sua alma, os seus pontos fracos e fortes, os seus humores. E isso iria permitir encarar cada espaço, cada bairro da cidade, de uma forma mais atenta, mais cuidadosa.

Podemos falar do Martim Moniz, por exemplo. É um sítio onde a história tem um prolongamento, reflete a história e também reflete, por outro lado, o que o mau planeamento e o que as más decisões políticas podem causar numa área.

Sim, o Martim Moniz mostra-nos ate que ponto o lastro da história pode ser luminoso para umas zonas e sombrio para outras. Foi onde colocaram os mouros – na Mouraria – após a reconquista de Lisboa pelos cristãos, tem sido onde se colocam alguns restos, alguns lastros do centro histórico principal. E é naquele eixo dorsal da cidade que depois vai pela Almirante Reis até ao Areeiro – é onde pulsam algumas das vivências mais extraordinárias desta cidade. Nos estudos que fiz para a câmara, há vinte anos, com os censos de 2001, nós dividimos a cidade em zonas para as podermos estudar – na altura tínhamos os dados finíssimos – casa a casa – havia a confidencialidade estatística, mas podíamos fazer alguns tipos de indicadores compostos: cruzar densidade residencial com atividades económicas, com qualidade dos edifícios, cruzar com pessoas que tinham chegado há pouco tempo àquele bairro… E de todos os bairros de Lisboa onde pulsava mais atividade humana era na zona de Anjos e Arroios, em Benfica também. E se formos olhar as novas gerações, interventivas, vemos por ali muita gente e muita atividade…

Foi das zonas que melhor resistiu à crise económica da pandemia.

Lembro-me de ir ao Martim Moniz nos anos 70, 80, com a minha mãe – ainda havia lá uns pequenos centros comercias pré-fabricados que foi onde colocaram alguns dos comerciantes que tinham vindo do mercado da Praça da Figueira nos anos 50. Havia um plano enorme para ficar de uma forma muito modernista e não foi avante, depois foi esburacado pelo Estado Novo para fazer alguma coisa que nunca foi feita e depois houve aquele projeto que ainda lá está – aquela praça que deixa imenso a desejar, os centros comerciais que são extraordinários em termos de vitalidade humana e multiétnica.

João Seixas a fotografar Lisboa, a cidade da sua análise.

Parecem formigueiros…

Com uma qualidade arquitetónica e urbanística que deixa muito a desejar, esta praça merece uma atenção muito grande. É um caso exemplar daquilo que durante muito tempo se menosprezou na cidade de Lisboa mas também é simbólico daquilo que poderá ser importante para o futuro.

Que é…

Participação, debate, discussão de projetos fundamentais para a cidade, a questão do jardim também me toca devido às questões ecológicas. Aquilo que a cidade fizer do Martim Moniz para o futuro terá uma mensagem muito forte porque é um espaço grande, de charneira, de ligação entre zonas nobres da cidade e onde muita gente passa. Pode ser exemplar para aquilo que pode ser a gestão da cidade como um tudo.

Lisboa está com uma crise de identidade, contava muito com o turismo – era uma das espinhas dorsais do centro da cidade e desapareceu. O que é que podia ser prioritário? Se fizesse parte de um executivo camarário o que faria?

A minha primeira reflexão era essa: estamos no tal tempo da urgência, mas não podemos descurar a preparação do tempo da transformação. E o tempo da transformação já existia antes da pandemia, a crise financeira de 2008 mostrou a todo o mundo que alguns paradigmas de desenvolvimento tinham de ser alterados. Uma parte substancial da crise financeira de 2008 é provocada pelos modelos de progresso que incluem de uma forma muito importante os modelos de urbanização muito baseados no consumo do solo, no endividamento, no crédito. Durante décadas o processo da urbanização foi-se alimentando, os autarcas aprovavam, os bancos financiavam, os empresários construíam, era uma coligação imbatível. Quem criticasse era o velho do Restelo. É preciso ver que no 25 de abril quase um terço da população de Lisboa vivia em condições precárias, mas não se criou habitação acessível como outros países da Europa fizeram. Consegue-se construir um SNS, um sistema de educação para um país que estava muito analfabetizado, uma série de outra estruturas de providência social do Estado e em relação à habitação isso não se fez.

“O Martim Moniz é um caso exemplar do que durante muito tempo se menosprezou mas também é simbólico do que poderá ser importante para o futuro de Lisboa. O que a cidade fizer do Martim Moniz terá uma mensagem muito forte “

Ou seja, não se criou um programa de renda acessível?

Houve um pequeno período – do secretário de Estado Nuno Portas – em que essa possibilidade existiu mas a partir de certa altura as políticas sociais de habitação começaram a ser sobretudo o crédito bonificado. Foi uma escolha política, mas não se criou outro pilar, o de habitação acessível. As cidades da Europa têm, incluindo para a classe média-alta. E depois, a crise financeira surge e impacta muito os países do sul da Europa, porque eram sociedades muito endividadas. Já antes da pandemia estávamos em fase de transição. Chegámos à nova década de 2010 com um centro histórico muito degradado e uma crise profundíssima na construção civil, com uma crise muito séria no endividamento das famílias, e com a troika instalada. Um dos grande objetivos foi a atração de investimento externo, de fluxos financeiros e humanos para a sociedade e economia portuguesas e aí [aconteceu] uma revitalização urbana. Era uma espécie de bomba atómica.

Era juntar a fome com a vontade de comer, como o povo diz.

Agora falta outro pilar, o das políticas urbanas. O turismo, obviamente é essencial e ainda por cima numa cidade como Lisboa que tem o ADN de ser cidade aberta e multicultural. Mas faltou força, músculo, política, para valorizar os recursos endógenos da cidade.

O que era duplamente difícil tendo em conta que a propriedade era toda privada…

Mas o planeamento e o ordenamento do território faz precisamente isso: a regulação, que é um instrumento essencial.

O que é que é possível fazer agora para que não se desperdice esse tempo?

O que Lisboa deve defender em cada um dos seus espaços é ser mistura. E há uma tendência dos mercados privados para uma especialização. Num bairro do centro histórico de Lisboa é natural que haja menos diversidade do que em Benfica ou em Arroios. Temos de ter diversidade residencial. Essas multifunções e multi-oportunidades têm de ser bem geridas. O pior que pode acontecer a cada tecido urbano, tal como nos tecidos humanos, é ficarem demasiado monoculturais, demasiado dependentes de uma fileira ou social ou económica. Isso aconteceu de uma forma demasiado perigosa em Lisboa. Parece fácil falar agora que a pandemia chegou e arrasou tudo…

“Lisboa é uma cidade muito dual: é periferia, centro de um país, centro metropolitano, forte, já foi centro de um império durante 500 anos, mas ao mesmo tempo sempre se sentiu na periferia da Europa.”

Mas é evidente que aquilo que se sentiu na pandemia foi o efeito disso: os bairros que estavam melhor preparados para ela eram os que estavam mais misturados, os que tinham multifunções.

Os que têm residentes. Ser residente é importante e é um conceito que está a mudar. Vai deixar de ser a fórmula clássica: pessoa residente no sítio tal. Hoje existe o conceito de city user: eu vou seis meses estudar para Oxford, sou ou não residente? É um conceito muito interessante; gerir a cidade em termos de território mas também em termos de tempo. Seria mais importante que os diferentes bairros de Lisboa tivessem essa capacidade de emancipação. Claro que as zonas mais turísticas – e nós queremos turistas – estarão mais dependentes de uma única fileira e o turismo é uma fileira extraordinária, é exportação quase pura.

Em relação ao turismo fomos pacóvios ou cosmopolitas?

As duas coisas. Vou mudar o termo: provincianos. Lisboa é uma cidade muito dual e sempre jogou com vários elementos aparentemente contraditórios: é ao mesmo tempo periferia, centro de um país – e um dos mais antigos da história da humanidade -, centro metropolitano, forte, já foi centro de um império durante 500 anos, mas ao mesmo tempo sempre se sentiu na periferia da Europa, da periferia cultural e às vezes na periferia do império. Acho que todos nós como sociedade e individualmente somos assim e principalmente os lisboetas e por isso somos cosmopolitas e provincianos em simultâneo, o que é fascinante do ponto de vista de análise, porque às vezes surgem umas coisas muito estimulantes e não temos a maturidade suficiente para as receber.

Aconteceu por exemplo com a possibilidade que o Airbnb coloca.

Como a Uber, assim como mil e uma apps e plataformas digitais que estão a surgir para o futuro da cidade. Permite-nos uma abertura dimensional da cidade às pessoas que chegavam: opções, ofertas, possibilidades, isso é extraordinário. Mas é preciso saber governar bem estes agentes novos de progresso que surgem, porque senão as desigualdades de acesso, em primeiro lugar, e depois as desigualdades nos impactos, podem ser muito grandes. Por exemplo, a era digital… Hoje em dia ainda há muito pouca política fiscal sobre o assunto, tudo isto é um mundo em construção.

Qual é o nível a que essa regulação pode chegar? Qual é o nível de regulação que um organismo tão vivo como é uma cidade permite?

Deixe-me falar então da terceira dualidade da cidade de Lisboa, que é ser uma cidade capital – em política – mas ao mesmo tempo também situar-se num país chamado Portugal que é um dos estados mais centralizados da Europa, onde o poder local ainda tem muito pouco poder, competências e recursos. Estamos no século XXI onde as cidades têm de ser agentes ativos de progresso, agentes transformadores de ecologia, agentes fundamentais para a habitação protegida, de interligação entre as pessoas, de empreendedorismo económico e social. Mas também estamos com um grande problema de equilíbrio entre as competências e os recursos políticos das cidades. Aqui há um dos maiores desfasamentos; eu como lisboeta vivo perfeitamente bem, se o perceber, com a dualidade centro/periferia. Às vezes exaspero-me com alguns provincianismos todos nós somos um bocado assim e é bom assumirmos isso, acho que é uma prova de maturidade, agora este é um problema mais sério, o desfasamento da política, o descompasso da política.

Quer dar exemplos onde isso seja importante?

Temos questões importantíssimas para governar em Lisboa a começar na escala metropolitana: quem governa o estuário do Tejo, o maior da Europa ocidental? Uma data de entidades. Começou agora a governação finalmente integrada dos transportes públicos – há décadas que quase todas as grandes cidades europeias fazem isso. Aqui andamos sempre a correr atrás do prejuízo. E é verdade, o avanço que se fez na mobilidade é extraordinário embora seja necessário um grande investimento na infraestrutura rodoviária, nos transportes mais pesados, o que também é importante – e já está a ser estudado.

Uma entidade como a CM de Lisboa pode fazer muitas coisas. Tem alguma singularidade em relação às outras – tem um orçamento diferente, vem sobretudo da estrutura fundiária da cidade que é mais valorizada, tem uma capacidade tributária diferente e tem outros recursos. Vemos em autarquias à volta de Lisboa, Cascais, Sintra, Oeiras, Loures, há iniciativas muito interessantes, políticas mais inovadoras do que as propostas pelo Estado e que estão a ser dinamizadas pelas autarquias que não têm os recursos que o Estado tem, mas têm outra facilidade, outra proximidade em relação às realidades. Há muitas coisas que estão a acontecer e de uma forma muito estimulante; essa política tem de ser acarinhada e acompanhada com os devidos recursos.

“Pensa-se que Lisboa é uma região rica, por ser a capital. Se virmos o PIB per capita é de facto a região mais rica de todo o país, mas também a mais desigual.”

Temos ainda a menor recolha de impostos para o poder local – Lisboa e a sua área metropolitana sofrem de uma macrocefalia, mas depois em termos de recursos é bastante menor do que parece.

Outra dualidade: pensar-se que Lisboa é uma região rica, por ser a capital. Se virmos o PIB per capita é de facto a região mais rica de todo o país, mas também a mais desigual: muita gente rica e também muita gente pobre, mas esta sempre foi a história das metrópoles.

Ou seja… e voltando à pergunta – o que fazer agora?

Há um trabalho a fazer no reforço da capacidade política do poder local; e isso beneficiaria as diferentes regiões, permitia-lhes desenvolver melhor a sua maturidade. Um dos argumentos contra a descentralização é que há uma dispersão do poder. Pode haver, mas tem de ser compensada com mecanismos de estratégias comuns e de avaliação. Se queremos que haja maturidade política temos de a construir. É possível com a importância política que têm as diversas câmaras à volta de Lisboa e com a dispersão partidária que existe à volta de Lisboa.

É possível que haja essa maturidade para conversar, juntar, unir – sendo que aqui existem sempre os pesos pesados da política partidária?

Eu acho que sim, porque é uma sobreposição de vários tipos de agendas e as cidades sempre foram isso. Não é fácil, mas creio que será muito estimulante. Mas não podemos olvidar que vivemos num país muito centralista e que ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa não é ser só o presidente da câmara municipal de Lisboa.

Como o comprovam os seus antecessores…

Sim. Comparando com o exemplo francês: muitos ex-presidentes da câmara de Paris vieram a tornar-se Presidentes da República. O Erdogan – mal comparando, eu sei – foi presidente da câmara de Istambul… O cargo político com mais cosmopolitismo do país é o do presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Porque está a gerir uma cidade, capital com um elemento simbólico e cultural fortíssimo, até igual ao próprio país.

Os movimentos cívicos em Lisboa são, mesmo assim, mais raros do que em outras cidades. 

Esta a mudar. E só agora porquê? Vimos de décadas de explosão metropolitana de dispersão de comunidades, não tem sido tão fácil criar movimentos associativos, de intervenção cívica, como noutras cidades. Temos uma densidade humana em Lisboa que é um terço da de Barcelona – literalmente pessoas por metro quadrado é um quinto, quase um sexto da de Paris. Se abres uma loja num bairro banal de Lisboa ou de Barcelona – à partida em Barcelona passam três vezes mais pessoas à frente da tua loja. A fragmentação metropolitana de Lisboa fez com que tivéssemos de construir equipamentos, saneamento, esgotos, água para as zonas mais dispersas. Houve pouco ordenamento do território e permitimos fragmentar a metrópole e deixámos muitas zonas da cidade fragilizadas, desde logo o centro histórico. Se o nosso centro histórico tivesse mais população, incluindo das suas elites que também o foram abandonando, quando chegou a vaga da reabilitação urbana e do turismo, claro que a história teria sido algo diferente, mais madura.

“O grande desafio para o futuro é construir comunidades, estarmos mais interligados uns com os outros. Numa palavra, grande desafio das cidades: mistura.”

O grande êxodo é nos anos 80, curiosamente.

Nos Censos de 81 parece haver um empolamento demográfico de Lisboa, mas porque chegou muita gente das ex-colónias – a baixa estava cheia de gente. Lisboa tem uma densidade urbana esplanada – não é pouca, está espalhada. No centro do Cacém ou de Massamá, num dia útil, há mais densidade do que no Chiado, em termos de residentes. Se o Chiado estiver com três mil turistas dá a sensação que tem mais pessoas. E os usos da cidade são diferentes para residentes e turistas…

Atribui a isso a falta de vigor cívico na cidade?

Sim atribuo, é uma das razões mais estruturantes, é por isso também que ao lado da questão política o grande desafio para o futuro da cidade – embora isto pareça muito conceptual – é construir comunidades, estarmos mais interligados uns com os outros. Numa palavra, grande desafio das cidades: mistura. De quê? De tudo. Residentes, turistas, city users, de todas as cores, raças, de todos feitios todas as empresas, de todas as atividades económicas. É a mistura que faz vigor, que permite resiliência e agora sendo muito político, é a mistura que permite ser mais maduro e  compreensivo e relação ao outro.

Ou seja, está nas cidades o combate à polarização?

Há vários estudos que mostram uma evolução no voto político eleitoral consoante estares a viver em espaços onde encontras muitas pessoas diferentes mo teu quotidiano em oposição às que estão mais fechadas e que acabam por ter uma visão mais fechada das realidades.

Há estudos que baseiam a polarização americana por exemplo na suburbanização da vida quotidiana.

O modelo de Lisboa está a meio caminho entre os modelos europeus e norte-americanos. Fizemos um inquérito interessante onde se relacionou a consciência cívica da cidade e os quotidianos urbanos das pessoas. Se viveres em quotidianos urbanos com muita diversidade, isso é bom para os olhos, para a tua mente, isto é muito interessante, o Manuel Villaverde Cabral chamou a isto o efeito cidade.

Lisboa viveu muito por arranques baseados em grandes projetos: Expo 98, antes disso até a Exposição do Mundo Português, o bairro de Alvalade, será que estamos a precisar disso outra vez, ou não?

Eu preferia que não. Acho que houve um tempo para os grandes projetos. Os ingleses têm um termo engraçado – os flagship projects. Houve um tempo em que havia a perspetiva em que desenvolvendo um grande projeto havia a chamada trickle-down economics em que depois todo iam atrás da inovação e da modernidade que esse projeto permitiria e depois verificou-se mais tarde que não era bem assim e que os projetos eram grandes consumidores de recursos, sobretudo de recursos públicos. E que embora conseguissem uma série de objetivos próprios, como se conseguiu com o Parque das Nações – um dos projetos mais bem conseguidos até a nível europeu, a perspetiva de que toda a cidade ia atrás desse projeto isso quase um nunca aconteceu. Eu defenderia agora que houvesse uma miríade de pequenos e médios projetos.

As juntas de freguesia estão a fazer um caminho muito interessante. É um processo com um grande sucesso e quase o único de descentralização do país que foi feito de facto agora.

O Martim Moniz poderá ser um desses.

Claro, se queremos dinamizar um bairro, construir uma biblioteca, fazer um centro cívico: são grandes projetos à escala do bairro.

Dez anos depois, qual é o balanço da mudança das freguesias em Lisboa?

Quando fizemos a proposta da reforma administrativa de Lisboa – o coordenador científico foi Augusto Mateus e eu, o político foi António Costa– propusemos uma descentralização municipal para aproximar a política dos cidadãos, mas também tínhamos a noção de que estar a mexer em estruturas que tinham oito séculos – a freguesia dos Mártires tinha sido fundada no tempo de D. Afonso Henriques– não era uma coisa simples. Fizemos três propostas. A opção B, e que a foi a escolhida, era uma proposta nova de freguesias – houve uma série de critérios: não se poderia demorar mais de 40 minutos a percorrer uma freguesia de ponta a ponta, nunca uma fronteira de freguesia deve passar no meio de uma via. O poder político acabou por se decidir pela opção B, mas não no nosso mapa. Tive imensa pena, porque andei seis meses a construir o mapa. A terceira opção, era criar nove grandes territórios dentro do município que teriam  mais poderes e mais competência porque já eram bastante consideráveis; 80, 100, 120 mil pessoas, que eram muitos parecidos aos arrondissements de Paris, aos distritos de Madrid ou de Barcelona, às comuna de Roma e de Milão. Era um nível intermédio mas muito empoderado – mas seria preciso mexer com leis nacionais, era muito mais difícil em termos de proximidade dos cidadãos. As juntas de freguesia estão a fazer um caminho muito interessante, maduro. Não sei se me fica muito bem dizer isto, porque fui um dos responsáveis, mas acho que é um processo com um grande sucesso e quase o único de descentralização do país que foi feito de facto agora – a nível municipal.

Então o que ficou a faltar para que aquilo que esta a acontecer no Martim Moniz seja raro e não a prática? A parte da participação dos cidadãos…

Acho que há aqui um trabalho que está a ser feito pelos cidadãos, difícil, porque estávamos muito fragmentados, porque o tema urbano em Portugal ainda era filho de um Deus menor e há caminho que está a ser feito ao longo destes dez anos de transição que é muito estimulante – tem as suas falhas, não sem tentativas de apropriação política, faz parte, mas acho que este caminho em Portugal é histórico. Como pode este caminho ser acarinhado? O Orçamento Participativo foi o mais conhecido, mas na minha perspetiva – e da de todos os presidentes de junta – era que houvesse conselhos de bairro. Ter as forças vivas do bairro: os diretores da escola, a policia, os centros de saúde, as ONG. Ou qualquer cidadão. Meramente consultivo, mas também analisa as políticas. Há um nível de maturação entre a democracia representativa e a democracia mais participativa e até a deliberativa que acho que as cidades poderiam desenvolver.

A falta de jornalismo local é um sinal dessa fragilidade cívica ou terá oura explicação ou se é pela macrocefalia política de Lisboa. Porque é que não há uma tradição de jornalismo local em Lisboa?

Por todas as razões que falámos e por ser capital. Ser capital às vezes desvia uma parte importante parte importante das nossas questões políticas, culturais, sociais, para questões mais nacionais, mais globais e deixa pouco espaço para as questões do local. O Zygmunt Bauman dizia que hoje trabalhar a nível local é muito trabalhar a nível global porque são as questões globais que estão em cima da mesa. Há um trabalho em Portugal a fazer em termos de maturação.

E é isso que os especialistas têm sentido – é muito raro discutir-se estes assuntos.

Muitíssimo. E é um enorme paradoxo, porque de facto os temas urbanos são temas profundíssimos de pensamento contemporâneo, não é apenas arquitetura ou urbanismo -e já não seria nada pouco. São temas de política económica, de política ecológica, de cidadania. A mim, e se calhar estou a puxar a brasa à minha sardinha, ao estarmos a discutir as questões da cidade estamos a discutir as questões da humanidade. A cidade é um ato de vontade humana – não fui eu quem o disse, foi o Orlando Ribeiro.


Catarina Carvalho

Jornalista desde as teclas da máquina de escrever do avô, agora com 48 anos está a fazer o projeto que melhor representa o que defende no jornalismo: histórias e pessoas. Lidera redações há 20 anos – Sábado, DN, Diário Económico, Notícias Magazine, Evasões, Volta ao Mundo… – e segue os media internacionais, fazendo parte do board do World Editors Forum. Nada lhe dá mais gozo que contar as histórias da sua rua, em Lisboa.

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2 Comentários

  1. Um óptimo contributo para a “maturação” necessária é este jornal.

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