Rossio Praça da Figueira hotéis alojamento local baixa pombalina
Foto: Rita Ansone

Mais de um século após a sua morte, Eça de Queiroz volta a “casa”, a Lisboa. A partir de 8 de janeiro, o escritor passa a ser o novo inquilino do Panteão Nacional, ampliando o rol de ilustres moradores da freguesia de São Vicente, ao lado da fadista Amália Rodrigues, do jogador Eusébio e de colegas de pena como Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueira e Sophia de Mello Breyner.

A chegada de Eça de Queiroz não deixa de ser um retorno à cidade. No Panteão, vizinho da Feira da Ladra e com vista para Alfama e o Tejo, Eça de Queiroz juntar-se-á agora a alguns desses personagens que eternizou nas páginas de Os Maias, O Primo Basílio e A Relíquia, entre outros títulos, que costumavam deambular por sítios icónicos de Lisboa. 

Se é verdade que um dos maiores nomes da literatura portuguesa nasceu em 1845 longe da capital, em Póvoa do Varzim, foi Lisboa a grande inspiração para grande parte dos seus livros, as ruas por onde desfilaram João da Ega, Teodorico Raposo, Luísa, o primo Basílio, a família da Maia, o padre Amaro e outros personagens queirosianos.

Morto em agosto de 1900, o escritor foi sepultado em Lisboa, no cemitério do Alto de São João, e lá permaneceu até 1989, quando foi para o jazigo da família, em Santa Cruz do Douro, no município de Baião. 

Em 2021, movido pela lei que destina aos “portugueses que se distinguiram pelos serviços prestados ao país” as honras do Panteão Nacional, o governo decidiu trasladar de volta a Lisboa os restos mortais do autor de Os Maias do pequeno vilarejo em Baião.

eça de queirós estátua
A estátua de Eça de Queirós, na rua do Alecrim. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

A decisão, contudo, não foi pacífica e parte dos herdeiros do escritor – e também o presidente da câmara de Baião – opuseram-se à mudança, provocando uma querela judicial que se arrastou até janeiro de 2024, quando o Supremo Tribunal Administrativo considerou improcedente a quarta ação de seis dos 22 bisnetos de Eça e bateu o martelo favorável à mudança.

Alguns dos roteiros do escritor por Lisboa foram catalogados em dezenas de livros, entre eles Viagem no Portugal de Eça de Queiroz, editado pela fundação do escritor e que serviu de guia para o pequeno roteiro da Lisboa queirosiana aqui resgatado.

  1. Restauradores e Avenida da Liberdade
O obelisco da Praça dos Restauradores, uma novidade nos tempos em que Eça publicou os primeiros livros. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa.

Na altura da publicação de Os Maias (1888), o obelisco dos Restauradores era um monumento novo na cidade. Inaugurado dois anos antes, marcava o novo espaço público que unia a também novíssima Avenida da Liberdade (1886) à Baixa de Lisboa. No capítulo final do livro, o obelisco é descrito como uma construção “com borrões de bronze no pedestal” que erguia “um traço cor de açúcar na vibração fina da luz de inverno”. 

A Praça dos Restauradores marcava o início do chamado Passeio Público (desativado em 1882), uma via gradeada que subia até aos arredores da atual Praça da Alegria e servia de palco para a promenade da pequena burguesia lisboeta. Foi lá, numa tarde de verão, que o engenheiro Jorge conheceu a futura mulher Luísa. No antigo Passeio Público, a mesma Luísa, na companhia da beata D. Felicidade, seria apresentada ao seu futuro amante, o bon-vivant Basílio.

2. Miradouro de São Pedro de Alcântara

A funcionar desde 1884, o elevador da Glória une os Restauradores ao Jardim de São Pedro de Alcântara, um dos sítios de afeto de Lisboa para Eça de Queiroz e não apenas nos seus livros. Num dos prédios que se debruça sobre o atual miradouro ficava o Cenáculo, onde o escritor, sob a batuta de Antero de Quental, fez os preparativos para a carreira diplomática que iria seguir.

Miradouro São Pedro de Alcântara turistas
Os jardins no patamar inferior do miradouro, onde inicia-se o passeio entre o conselheiro Acácio e Luísa. Foto: Inês Leote.

Num dos capítulos de O Primo Basílio, Eça descreve a vista a partir do miradouro, onde o Castelo de São Jorge então assentava “atarracado” e “ignobilmente sujo”, ladeado pelos telhados das casas da Mouraria e Alfama, alinhando-se “em ângulos bruscos até as duas pesadas torres da Sé, de um aspecto abacial e secular”.

A vista do Tejo também não escapou ao olhar atento do escritor, batido pela luz, onde “duas velas brancas passavam devagar”, enquanto na “outra banda”, na Margem Sul estendia-se “a correnteza de casarias duma povoaçãozinha dum branco de cré luzidio”. 

Eça costumava passear pelo plataforma inferior do jardim na companhia de Antero de Quental e Batalha Reis. Era possível também avistar-se o então Convento da Encarnação, onde D. Felicidade se refugiou após as frustradas tentativas de conquistar o coração do conselheiro Acácio.

3. Largo de Camões

O conselheiro Acácio é o guia do próximo percurso, na companhia da diletante Luísa, a partir justamente do Jardim de São Pedro de Alcântara, a descer pela rua da Misericórdia, cruzando com o Teatro da Trindade, onde o Barba Azul estava a ser encenado n’A Tragédia da Rua das Flores.

estátua camões
A “estátua triste de Camões”, segundo Eça de Queiroz, no largo onde se passaram algumas cenas dos seus livros. Foto: Inês Leote.

O passeio dos dois personagens cruza o Largo de Camões, de onde outro personagem queirosiano, Carlos da Maia, em Os Maias, “na intimidade daquele velho coração da capital” e na companhia da “estátua triste de Camões”, conclui que o sítio “conservava o mesmo ar mudo e deserto”. Nas últimas cenas de Os Maias esta é a zona onde Carlos e Ega passeiam com uma nostalgia cínica.

A estátua de Camões é também testemunha as reflexões entre o conde de Ribamar, o cónego Dias e o padre Amaro sobre os impactos do progresso na Lisboa oitocentista, num panorama nada otimista na visão do autor, a partir do trote do “moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho”.

A descrição do espaço por Eça de Queiroz em O Crime do Padre Amaro inclui ainda os bancos do largo, tomados por corpos estirados “num torpor de vadiagem”, as fadistas a gingar com cigarros nos dentes e os burgueses enfastiados a lerem nos cartazes os anúncios de “operetas obsoletas”.

O padre Amaro e seus companheiros podiam observar ainda nas “faces enfezadas” dos operários, a “personificação das indústrias moribundas”. 

Nos arredores fica outro largo, o do Barão de Quintela, onde foi erguida em 1903 a estátua em homenagem a Eça de Queiroz, a primeira erguida em Lisboa a uma figura literária desde a dedicada a Camões. Esculpida em arte nova por Teixeira Lopes, tendo como inspiração a epígrafe d’A Relíquia: “Sob a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia”.

4. Chiado

A poucos passos do largo inicia-se o percurso pelo Chiado, através da Rua Garrett, nomeada em homenagem a um dos vizinhos de Eça de Queiroz na nova morada no Panteão. O Chiado é Eça e Eça é o Chiado. Logo no início, surge nas páginas d’O Crime do Padre Amaro a Casa Havaneza, vizinha hoje à Brasileira, onde os telegramas de França traziam notícias sangrentas atualizadas sobre a comuna de Paris.

O Teatro São Carlos, nos arredores do Chiado, também foi cenário nas tramas queirosianas. Foto: Orlando Almeida.

Uma deriva à esquerda, rumo ao Largo Rafael Bordalo Pinheiro leva até o prédio no número 4, onde atualmente está Círculo Eça de Queiroz, fundado em 1940 por António Ferro. 

De volta a Rua Garrett, o passeio de Luísa e o conselheiro Acácio chega em frente à Igreja dos Mártires. A paragem é um artifício da personagem a fim de tentar desvencilhar-se da companhia e poder encontrar-se a sós com o amante Basílio. “Vou aqui fazer uma devoçãozinha. Não o quero fazer esperar”, despista Luísa.

Em vão.

“Ora essa, minha rica senhora!”, responde o conselheiro Acácio e, para o desespero de Luísa, complementa: “Esperarei, não tenho pressa”.

A poucos passos dali fica o Teatro São Carlos, cenário de várias histórias queirosianas, entre elas Os Maias, numa cena entre João da Ega e Carlos da Maia, durante o intervalo da peça Huguenotes

As históricas livrarias Bertrand (na novela Alves & Companhia) e a recém desativada Ferin (O Capital) também entraram nas páginas escritas por Eça de Queiroz. 

Luísa e o conselheiro Acácio terminam o passeio no fim da Rua do Carmo, já ao pé da Rua do Ouro, quando Luísa finalmente consegue despistar a indesejada companhia ao entrar no consultório do dentista Vitry, alegando ter de “chumbar um dente”, quando na verdade viria-se finalmente livre para ir ter com o amante.

5. Rossio

A Praça do Rossio e os arredores são um sítio icónico na obra e na vida de Eça de Queiroz. Os pais do escritor moravam no quarto andar do prédio do Café Nicola. Na janela do quarto andar o escritor escreveu alguns dos seus textos, entre eles O Mistério da Estrada de Sintra

O andar para o qual Eça de Queirós se mudou aos 21 anos, em Lisboa, no Rossio. Foto: Inês Leote

De lá também imaginou os cenários para o consultório de Carlos da Maia e o cartório de Alípio Abranhos em O Conde de Abranhos

Em O Primo Basílio, o Rossio surge através de peões que passeavam “com o chapéu na mão, abanando-se, o colete desabotoado”, atenuando o calor com “água fresca d’o Arsenal”, observados pela estátua de D. Pedro, que na noite escura exibia-se num “tom baço e pálido de uma vela estearina colossal e apagada”.

A estátua diante do Teatro Nacional, onde ao lado, no Café Martinho, o doutor Margaride comia “a melhor torrada de Lisboa”, segundo lê-se n’A Relíquia. O livro também traz um dos mais divertidos personagens queirosianos, Teodorico Raposo, o Raposão, que após ser expulso da casa de Titi abriga-se no fictício Hotel Pomba d’Ouro para assim vender os itens trazidos da viagem à Terra Santa.

Bancos Baixa Rossio Rita Ansone
A praça do Rossio, cenário e inspiração para algumas das obras de Eça de Queiroz. Foto: Rita Ansone.

6. Panteão Nacional

Embora não surja nas histórias escritas por Eça de Queiroz – foi inaugurado em meados do século XX – , o Panteão Nacional a partir de agora faz parte do registo queirosiano. Um monumento que vale a visita pela sua beleza arquitetónica, destacando-se imponente pela sua abóbada, que pode ser vista praticamente de todos os miradouros lisboetas e até da outra margem do Tejo. 

Dedicado a perpetuar a memória dos grandes nomes portugueses, o Panteão ocupa as dependências da Igreja de Santa Engrácia, na freguesia de São Vicente. A construção do belo prédio carrega uma história curiosa e que bem poderia figurar num livro de Eça: a primeira pedra foi posta em 1682, mas daí até a inauguração transcorreram longos 284 anos, o que viria ocorrer em 1966. 

A demora obrigou os portugueses a escolherem outras igrejas para a panteonização dos seus grandes nomes, entre elas o Mosteiro dos Jerónimos, que mesmo após a aguardada inauguração do panteão oficial acabou por manter o estatuto.

Turista observa a imponente abóbada do Panteão, a nova “casa” de Eça de Queiroz em Lisboa. Foto: Rita Ansone.

Mas nem só conhecidos nomes da literatura portuguesa passaram por lá. Em 2003, o Panteão Nacional abriu as portas para… Harry Potter, no lançamento do quinto livro da série do famoso mago, Harry Potter e a Ordem da Fênix. O Panteão também recebeu jantares de gala e eventos de negócio, até um decreto de 2017 decidir por um ponto-final na história de comensais sobre os túmulos dos grandes nomes da história portuguesa.

Há obviamente outros percursos possíveis nas páginas das obras e da vida de Eça de Queiroz, entre eles o que parte em busca da atual morada do prédio que inspirou o Ramalhete, de Os Maias, reinvindicada por vários palacetes lisboetas. Roteiros que podem ser consultados e percorridos nas inúmeras obras dedicadas ao ilustre vizinho de Lisboa que agora retorna à cidade que tanto o inspirou.


Imagem do avatar

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

1 Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *