Desde que me recordo que se fala na ideia de uma Rua Garrett pedonal. Ainda não aconteceu – embora desde este fim de semana haja uma “experiência” sem carros.
No início de 2020, quando se anunciou uma nova Zona de Emissões Reduzidas (ZER), a Câmara Municipal de Lisboa chegou mesmo a anunciar que iria finalmente tornar-se pedonal. Houve planos e desenhos. Mas depois veio a pandemia, e, como se sabe, a ZER caiu e, com ela, também a Rua Garrett pedonal.

Mas a verade é que há muito que quem por ali passa a pé tomou a rua. E, nos últimos anos, a maioria dos condutores age em conformidade: conduzir na Rua Garrett tornou-se uma experiência confrangedora.
O meu olho diz-me que são cada vez menos os que por ali circulam ao volante, o que torna, a cada dia que passa, ainda mais confrangedora a posição de quem decide conduzir no meio da multidão. E mais difícil de explicar por que é que esta ainda não é uma rua pedonal. Não são só os meus olhos: no centro do comércio do Chiado, há cada vez mais peões – segundo números de 2017, a Rua Garrett só ficava atrás da Rua Augusta no trânsito de pessoas a pé.
A preponderância do automóvel na cidade doutrinou quem se deslocava a pé. O lugar destinado ao peão obrigou-o a sair do centro para a margem, onde estavam os passeios. O atravessamento da rua começou a fazer-se em local próprio – a passadeira.
Em 1935, aqui mesmo, na Rua Garrett, lia-se num pano colocado entre fachadas: “Peões, por favor, transitem pelos passeios”.
Para acomodar com conforto o automóvel – e colocando o embaraço em quem circulava a pé, uma ação da Polícia de Trânsito, com agentes alinhados nos limites do passeio e ao longo da rua, ensinava que a subida a pé se fazia pela direita e a descida pela esquerda. Regras que sem o automóvel não teriam razão de ser e que com a sua chegada havia que aprender e acatar.
Mas hoje, 90 anos depois, conduzir na Rua Garrett é uma experiência confrangedora.
Quem sobe a Rua Nova do Almada, depara-se com a Rua do Carmo já totalmente pedonal. Na curva que é obrigado a fazer, à esquerda para a Rua Garrett, a multidão, a pé, impõe-se e põe o automóvel a representar o papel de tímido convidado. Perante a ocupação da rua por quem anda a pé e traz vida ao Chiado, o automobilista circula à cautela e sem se mostrar demasiado. Não abusa da buzina, como tem por hábito fazer em todas as outras ruas. Rapidamente percebe que esta rua é das pessoas a pé.
Por força desta enorme utilização pedonal, a Rua Garrett adquiriu uma escala notavelmente humana. A qualquer altura do dia, a presença de quem se desloca a pé sobrepõe-se claramente à presença automóvel. O automóvel que ali circula é frequentemente engolido pela massa de pessoas que, em momentos de maior afluência, é obrigada a extravasar os limites dos passeios.

Talvez seja um regresso ao passado. A inconveniência que era do peão dá hoje lugar à inconveniência para o automóvel – ou quem vai ao volante – sente.
Ou seja: a rua Garrett é uma das ruas mais pedonais da cidade e só assim é por insistência e teimosia reiteradas das pessoas.
Isto embora a distribuição do espaço ainda seja sintoma de uma prolongada injustiça: o exíguo espaço destinado ao peão, nas margens, não acomoda com o mínimo de conforto o volume de transeuntes. Os passeios não chegam para tanta gente e a estrada é larga demais para tão pouco carro. Não há bancos, não há sombras, o piso, sobretudo no final da calçada, escorrega ao primeiro indício de humidade. E, acima de tudo, não há acessibilidade. Nesta, que é uma das mais famosas (e, volto a dizer, pedonais) ruas da cidade, não há uma única passadeira adaptada. Cadeiras de rodas, aqui, não.
Além da faixa rodoviária, aqui continua também a ser permitido o estacionamento de automóveis do lado direito quem sobe. Na rua Nova do Almada, dos dois lados. A escolha continua a ser apertar os peões.

Talvez como acontece com a água, também o fluxo de pessoas acaba por transbordar. Em vários momentos do dia, os passeios não chegam e a faixa de rodagem torna-se no prolongamento natural de quem por ali anda. E porque o espaço escasseia, quem leva o passo apressado testa a paciência atrás de quem se passeia.
Apesar de ainda não lhe ter sido concedido o merecido título de rua pedonal, a Rua Garrett já ocupa esse lugar na mente e na prática quotidiana de muitos lisboetas que passeiam no Chiado – o verdadeiro centro da cidade. Entre os que veem as montras e os que têm para onde ir, torrentes de turistas, e muitos lisboetas que ainda há nesta rua.
Mas aqui, e somente aqui, este comportamento foi interiorizado pelos poucos que aqui ainda conduzem. Em qualquer outra rua da cidade, a invasão da faixa de rodagem por teimosos peões seria alvo de um insistente buzinão.
Na Rua Garrett isso não parece acontecer. O automobilista compreende – afinal, não é esta uma rua pedonal?

Parece existir pouco sentido na manutenção da circulação rodoviária na Rua Garrett. A zona da Baixa e do Chiado é, afinal, uma das zonas mais bem servidas de transporte público da cidade. Num raio de deslocação de 15 minutos a pé, é servida por duas linhas de comboio, duas linhas de metro (e várias estações), duas estações fluviais, mais de 15 carreiras da Carris, dez praças de táxi e mais de cinco mil lugares em parques de estacionamento automóvel – os números foram avançados em 2020 pela própria Câmara Municipal de Lisboa.
A Câmara Municipal de Lisboa decidiu encerrar a Rua Garrett ao trânsito motorizado durante três fins de semana, até 7 de janeiro. O objetivo é “mitigar os efeitos da concentração de pessoas na zona do Chiado nesta época festiva” e “aumentar a segurança de peões e permitir a sua livre circulação”.
Mas porquê só na época festiva? A Rua Garrett já é pedonal! Falta só saber quando será oficial.

Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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Eu diria que, na rua Garret, há uma verdadeira massa crítica de peões que reclama o espaço que já foi seu e que, subtilmente, lhe foi roubado durante décadas. Como a rua Garret, muitas outras ruas da cidade já deviam ter tido o seu perfil redefinido. Não aconteceu porque o governo da cidade tem sido incompetente e anacrónico.
Caro Sr.
Eu se calhar diria
Fechem as ruas todas
Será mais facil
O respeito começa de ambos os lados
Condutores e pedestre
Mas por vezes o que se vê é falta de respeito de parte a parte são só direitos
Se um semáforo estiver vermelho o peão passa quer lá saber a cor está na passadeira se quizer locais onde constatar eu também posso indicar
Quanto a foto da rua do Carmo com transito
Tem barbas e já chegam ao chão
Somos um País de atletas e de pessoas que só têm uma preocupação fazer valer os valores que mais lhes interessa
Feliz Natal