José Maria Eça de Queiroz nasceu em 1845. Foi diplomata, escreveu uns livros muito bonitos e depois morreu, coitadinho. Estávamos em 1900 e, em vez de fim, era o início. Morto em Paris, tratou-se de trazer o cadáver para Portugal no mês seguinte. Aqui ficou, um morto como os outros, defunto como os demais, num jazigo de família no Alto de São João. Lisboa recebia o seu ilustre e metia-o na terra, que é onde costuma estar quem já morreu. Ali ficou até 1989.
Vai daí e já se sabe como é o imobiliário em Lisboa. Está mau para os vivos, quanto mais para os mortos. Ora, o jazigo pareceu indigno de um renomado autor de prosa longa e curta. Considerado devoluto, teve de se arranjar um novo pouso. E lá foi Eça, os restos de Eça, para um jazigo em Santa Cruz do Douro, perto da casa de Tormes, que inspirou A cidade e as serras. Já vi gente a passear menos do que aquele cadáver que só via bem de um olho.
O tempo passou e os ossos, ou o pó, ou lá o que é Eça agora, ficaram ali sossegados mais uns tempos. É uma coisa que se deseja a um defunto. Pior do que um homem morto, só um homem morto vivo. Não perguntem às viúvas chorosas se querem mesmo que os maridos se levantem. Foi o que aconteceu em Pet Samitery, embora com gatos, e aquilo é coisa que não se deseja a ninguém: vindos do cemitério de animais, onde haviam sido enterrados, os gatos mortos ainda eram mais horríveis do que os vivos.
Um dia, o parlamento quis dar mais uma voltinha ao Eça. Era hora de lhe dar a honra máxima, o tecto que não cai, que tem bilhete e tudo. Viria então o escritor para o Panteão Nacional, consagrando-o finalmente entre os grandes: quem é par de Eusébio não pode almejar mais nada. O parlamento votou a trasladação por unanimidade. Entre os eleitos, nem uma só alma quis o homem fora de Lisboa.
Viesse pois então para cumprir o sim, o sim, o sim. Estávamos em Janeiro de 2021 e ainda hoje cá estamos, e Eça está onde estava. Não se pode pedir-lhe que faça a A1 a correr, pelo menos sem quem lhe conduza o carro funerário. Volvidos anos, o Eça prometido não chegou a chegar.
É que depois disto os egos tontos deram saltos. Seis bisnetos – de 22 – resolveram armar barulho a uma semana da trasladação dos restos. A comunicação social, sedenta de sangue e coça, deu-lhes palco. Por esta altura, rumores segredavam que Eça estava em pulgas, farto de estar sob a terra, carcomido pelo tempo. Antes em pulgas do que em larvas.
E um passeio de carro já é bom para qualquer carcaça. E, em vez do nada, sempre veria – vá, se visse – o céu azul de Lisboa, que é capaz de acordar mortos. Ora, o tribunal resolveu analisar o pedido de providência cautelar e a cerimónia foi adiada. A decisão de um país parara devido a meia dúzia, ainda por cima para se ver pouco depois que a contestação não tinha ponta por onde se pegasse. Vinda do tribunal, a resposta do juiz aos contestatários fez lembrar Mohammed Ali. Entretanto, a data agendada já tinha passado.
Que os seis bisnetos sejam uma minoria familiar nem chega a interessar. Se família é memória, as reclamações já nem de família são. Não há ninguém vivo que tenha tocado na mão viva de Eça de Queiroz. Sobrou-lhes o apelido – e apelido sonante, capaz de gritar em público. Ora, os seis bisnetos lá gritaram: era a desonra, era o ai-jesus, era o deus me livre. E deus livrasse alguns de terem um ascendente sepultado ao lado de quem morrera às mãos da PIDE. Aqui, meteu-se o ego: contra a decisão democrática de parlamentares – que nos representam a todos –, veio a justificação do sangue.
Em 2024, um bisneto de Eça de Queiroz é só alguém que tem coincidência de ADN. O ADN foi usado uma e outra vez, e o parlamento cedeu à pressão gritante, indiferente, já agora, ao facto de a maioria “familiar” desejar outra coisa – e a democracia também. É que, tomada a decisão pelo tribunal, o morto continua sem dar passos.
Ora, eu, que nunca tive apreço por cadáveres, vivos ou mortos, estou pouco me lixando para o destino de Eça de Queiroz. Vindo para Lisboa, não terei interesse em vê-lo – nem vivos os escritores me interessam, a não ser que estejam quietinhos a sussurrar-me do papel. Mas não vejo como se pode aceitar que o parlamento fique refém de uma iniciativa cidadã, composta por seis pessoas, sem fundamento legal, sem fundamento que não seja uma vontade que se sustenta em ADN.
Em 2024, isto já é como a Disney: em vez de herdeiros, já só há descendentes. E o parlamento fala por si, não é porta-voz de desejos de descendentes de ninguém. No dia em que votou a trasladação, também votou por mim. E eu, que dei o voto a quem lá estava, gostava de ver o voto a servir para alguma coisa, mesmo que o assunto em questão me seja igual ao litro. Se assim não for, admita-se que a democracia pode ficar refém de qualquer meia dúzia que tenha dinheiro na mão e tempo a mais. Por isso, que Eça não tenha feito ainda a sua – quem sabe – última viagem envergonha-nos a todos.
Também não se sabe quem poderia ter feito tanto barulho, ter condicionado cerimónias e decisões unânimes. É um país inteiro a baixar a cabeça a um apelido sonante – e nem sequer é o de quem o fez, só de quem ficou com ele porque foi filho de um filho de um filho. Naqueles seis, nem sequer há a força da crença ou a do argumento. Há simplesmente um conjunto de nomes que não são Elma da Costa Silva ou Zé Manel do Talho Azul.
Entretanto, Lisboa espera por Eça de Queiroz. O homem que se despache, a ver se se fecha este episódio, mais longo do que as descrições do Ramalhete. Isto assim não é vida para ninguém, quanto mais morte. Mas muito menos vida – vida de um Portugal democrático que mete os seus parlamentares a trabalhar e a votar para nada. Já noutra legislatura, isto chega ao ponto de ser queiroziano.
Valeria a pena ter Eça vivo só para descrever isto, embora seja mais rocambolesco do que o romance entre dois irmãos ou um chinês morto de forma aleatória. Talvez tudo isto, afinal, fosse demais para as suas mãos. Perdoem-me os descendentes que se acham filhos amados: aposto que Machado de Assis era menino para conseguir sem se esforçar. Enfim. Num impasse, mais vale perguntar ao próprio. Foi o que fiz, de escritora para escritor.
Bem conheço os desejos do pós-morte. Também eu já dei indicações à família. Quando morrer, eis o meu epitáfio: “Antes morta aqui do que viva e a resolver equações.” Acerquei-me da estante, baixei a voz para que ninguém me ouvisse. Olhos no olho, sussurrei-lhe: “Diz lá, Zé Maria, afinal o que preferes?”
Com um ar inconsolável, uma voz velha – voz de morto –, Eça de Queiroz disse-me assim: “Ó menina, eu já só quero que me levem.”

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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