Estamos ainda, este ano, a celebrar o centenário da maior artista que alguma vez este pequeno país viu nascer: Amália Rodrigues. Digo ainda porque o centenário cumpriu-se em 2020 mas, devido à pandemia, o Museu do Fado – mestre de cerimónias desta efeméride – resolveu (e bem!) prolongar os festejos até junho deste ano.

Por mim, poder-se-ia e dever-se-ia celebrar Amália todos os dias de todos os anos, tal foi a magnitude e a significância cultural e artística daquele Ser superior. O seu papel na divulgação e promoção da nossa língua, do Fado, de Portugal além-fronteiras, ainda hoje não se consegue dimensionar com precisão, mas arrisco dizer que talvez ninguém tenha feito tanto e em tantos lugares.

Serve esta brevíssima introdução para vos contar um episódio que vivi com a Diva e que me marcou profundamente (embora na altura, fruto da inconsciência da idade, não tivesse tido a real noção da sua importância): o dia em que dancei com Amália.

O meu querido João Braga celebrou, a 29 de Maio de 1992, 25 anos de carreira com um grandioso espetáculo de Fado no São Carlos. Era apenas a segunda vez que a canção de Lisboa pisava aquele maravilhoso palco, depois de – claro está – Amália Rodrigues.

Foram muitos os convidados, de entre cantores, músicos e amigos que iam desfilando pelo engalanado palco, para prestar tributo ao fadista, cujo contributo para a evolução e renovação do Fado ainda está, infelizmente, por reconhecer. Entre eles estávamos a minha querida amiga Maria Ana Bobone (que tinha começado a dar os primeiros passos na sua fantástica carreira havia poucos meses) e eu, magérrimo, imberbe e um pouco desconfortável no meu smoking alugado.

Alguns sabiam que, no meio da assistência, estava a voz maior do Fado. Ninguém poderia prever que, no final do concerto, iríamos assistir a um dos momentos mais inacreditáveis da nossa vida.

Findas as atuações e os discursos, com todos no palco – de flûte de espumante em punho – em clima de festa e euforia, João Braga dirige-se ao camarote onde Amália aplaudia de pé e pede-lhe que desça para se juntar aos festejos. Ela, do alto dos seus 72 anos, não se negou e, sabendo-se da estima que tinha pelo seu amigo João, desceu para o abraçar.

Já em palco, cumprimentou os músicos e fadistas um por um e deu um longo e sentido abraço ao homenageado. Depois… pegou no microfone, agradeceu os ruidosos aplausos e disse que iria cantar “uma cantiga”. Êxtase total. Amália chegou perto dos músicos (nessa noite tocaram os saudosos Pedro da Veiga, Paquito e Joel Pina, com Jaime Santos Jr. à viola e António Parreira à guitarra) e cantarolou o tema que queria cantar. Como nenhum dos músicos presentes conhecia o tema composto por Carlos Gonçalves para um poema da própria Amália (percebemos depois tratar-se de um inédito), avançou sozinha e a capella para a boca de cena:

Que culpa tem o destino
Deste destino que eu tenho
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho
É meu destino
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho

Se o desespero matasse
Eu já teria morrido
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido
Talvez alguém
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido

Sinto que cheguei ao fim
Das ilusões que não tive
Mas se alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive
Cheguei ao fim
Mas se alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive

Adeus que chegou a hora
Há muito a venho esperando
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando
Já vou embora
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando

Escusado será dizer que, sabendo todos que Amália estaria já próxima do final de carreira (abandonaria os palcos dois anos depois), o efeito das suas palavras na lotada plateia do Teatro Nacional de São Carlos (e de todos nós em palco) foi arrasador. Por alguns segundos fez-se um silêncio estranho, creio que estaríamos todos a tentar recuperar do choque do que acabáramos de ouvir e ver. Depois, um aplauso tão vibrante, tão ruidoso, tão esfuziante… que sobressaltou a própria Amália! Que momento incrível aquele. E que sorte a nossa de o ter vivido tão de perto.

Momentos depois, com toda a audiência em pé a aplaudi-la, mudou radicalmente o registo e disse: agora vamos cantar uma marcha! Enquanto os músicos iam tocando a introdução do “Lisboa à noite”, Amália aproximou-se da Maria Ana e de mim, pegou-nos nos braços e levou-nos para o centro do palco, como que – num gesto de extraordinária generosidade que só os maiores têm! – nos dando a bênção e aprovação pelas nossas esforçadas atuações nessa noite de gala.

A seguir, já só comigo de braço dado, quis passar-me o microfone para que com ela cantasse o refrão que já todos entoavam. Recusei, atrapalhado, mas como ela insistisse, lá me atrevi a cantar a seu lado, sem ter bem a noção da enormidade e da fortuna daquele momento.  Aos 20 anos julgamo-nos imortais e não temos a real noção da nossa própria – e da dos que nos são próximos – finitude.

Olhando para trás, talvez tivesse absorvido aqueles mágicos minutos de forma diferente. Mas o que ficou, o que me ficará sempre guardado na memória, foi o facto de ter dançado e cantado, de braço dado, com Amália no palco do São Carlos. Mesmo que mais tarde me tenha encontrado algumas vezes com a Diva, inclusive em sua casa, aquele dia será, para sempre, o mais especial da minha carreira.

Foi ali, também, que percebi que só os verdadeiramente grandes têm a humildade e a generosidade de dar a mão aos simples mortais. Obrigado, eternamente obrigado, Amália!


Rodrigo Costa Félix

É lisboeta, fadista com trinta anos de carreira, letrista, produtor, agente e coproprietário do restaurante Fado ao Carmo. Tem quatro discos editados, vários prémios e distinções – nacionais e internacionais – e uma vida inteira dedicada à promoção e divulgação da “canção de Lisboa”.

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1 Comentário

  1. Eu estava na primeira fila de maquina de vídeo na mão a filmar tudo tremido tal era a emoção.

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