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Todos os dias é local de passagem para milhares de pessoas e a explosão do turismo só veio agudizar a situação. A Rua de São Pedro de Alcântara, em pleno centro histórico de Lisboa, é o caminho óbvio para quem, vindo do Chiado, pretende chegar ao Príncipe Real ou ao Rato (e vice-versa). Aqui chega o elevador da Glória e é apreciada a vista do miradouro de São Pedro de Alcântara – em frente está o Bairro Alto e, poucos metros acima, o Príncipe Real.

Mas quem dobra as esquinas da Igreja de São Roque, a subir ou a descer, depara-se com um passeio de tal forma estreito que duas pessoas não conseguem cruzar-se em segurança.

Cadeiras de bebé circulam com dificuldade e quem utiliza cadeira de rodas não consegue simplesmente aqui passar.

No chão, o calcário polido por muitos pés e a inclinação das pedras da calçada obrigam a cuidados redobrados para não se escorregar para a estrada – sobretudo quando chove. E, nestas ocasiões, é melhor esquecer o guarda chuva.

Entre o muro da igreja e o trânsito intenso, há quem se encoste à parede, com receio, sempre que passa um veículo pesado – cujos espelhos retrovisores se aproximam perigosamente da cabeça de quem passa – um autocarro – idem – ou o elétrico.

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O trânsito em tempo real, na Rua de São Pedro de Alcântara

Nas horas mais concorridas, formam-se filas de espera para a travessia, e, quando alguém se aproxima no sentido oposto, fica difícil saber como avançar: ou se encosta à parede, ou se encolhe, ou se desce à estrada, partilhando o espaço com automóveis. 

Prioridade aos carros. Que importam as pessoas?

Em pleno centro histórico e da atração turística, a Rua de São Pedro de Alcântara é uma rua onde o peão é obrigado a encolher-se para permitir o fluxo do trânsito automóvel, que continua com duas vias.

Não há espaço vital num passeio que chega a ter pouco mais de 60 centímetros de largura. Sim, é isto mesmo, medido esta semana: ou seja, menos de metade do definido pela lei das acessibilidades, que exige “uma largura livre não inferior a 1,5 metros”.

E isso acontece para que continuem dois sentidos de circulação automóvel, que, segundo números apresentados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), permitem a entrada de 7700 automóveis por dia no centro da cidade.

O estado da rua é motivo de crítica e discussão há vários anos e recentemente um projeto do município prometia mudanças, a ZER. Mas ainda não avançou – estava, aliás, prevista o seu cancelamento na última reunião da Assembleia Municipal.

O especialista em mobilidade, Mário Alves, considera que esta rua representa “uma situação extremamente perigosa”, já que a largura do passeio, perante o “congestionamento pedonal”, leva a que os peões circulem na via, muitas vezes com tráfego pelas costas.

Em 2009, com o problema em mente, o engenheiro civil e especialista em transportes apresentava à cidade uma outra visão: “Criar um curto circuito para retirar o tráfego a todo aquele eixo”, conta.

Quem morasse ou tivesse negócios ali, podia chegar de carro, tanto a partir de sul, do Chiado, como a partir de norte, do Rato, mas sem nunca poder atravessar de um lado para o outro, garantindo que se eliminava o tráfego de atravessamento, responsável pela maioria do trânsito que ali se verifica. Este tráfego não tem origem ou destino nestas áreas, antes atravessa-as para chegar a outros pontos da cidade ou fora desta. “Impedir-se-ia que alguém vindo do Rato pudesse chegar ao Chiado [de carro]”, exemplifica Mário Alves.

O estado atual da Rua de São Pedro de Alcântara (à esquerda) e a requalificação proposta pela Câmara Municipal de Lisboa, na ZER, em 2020 (à direita). Fonte: CML

Essa era também a ideia do anterior executivo camarário. Fernando Medina apresentou as mudanças nesta rua como “aquelas obras que todos são capazes de reconhecer como absolutamente essenciais há 25 anos”, em janeiro de 2020, na sessão pública sobre o plano para a ZER.

A implementação da Zona de Emissões Reduzidas, tal como anunciada pelo ex presidente da autarquia, previa para aquele troço um novo esquema de circulação que prometia tornar acessível aos peões toda a largura da rua, cortando-a ao tráfego automóvel e permitindo apenas a circulação de autocarros e elétricos onde a rua é mais estreita.

Toda a largura da rua seria pedonal, levando o passeio a descer ao nível da estrada e uniformizando o piso, permitindo a criação de uma continuidade pedonal. Os peões teriam apenas de se afastar quando um autocarro ou um elétrico estivesse a precisar de passar mas, sempre que isso acontecesse, contariam com mais espaço do que contam hoje para prosseguir caminho em segurança, já que as duas linhas de elétrico convergiriam no centro da faixa de rodagem, obrigando à circulação alternada destes veículos e possibilitando o alargamento da atual zona de passeio, protegida de qualquer trânsito particular.

Esquema de circulação proposto para a Rua de São Pedro de Alcântara pela CML, em 2020 (assinalado a amarelo). Segundo a proposta, a rua seria dedicada à circulação de transportes públicos e peões. Fonte: CML

“Seria um ponto partilhado entre peões e elétricos e os peões iriam abrindo alas, conforme passassem os elétricos, com o trrim-trrim tradicional da cidade. As coisas funcionariam dessa forma. Não vejo outra maneira”, diz Mário Alvez.

A rua não alarga, as construções à volta não o permitem, e “sem eliminar o tráfego de atravessamento não é possível, com o tráfego que lá está hoje, fazer esta zona partilhada. As zonas partilhadas têm de ter pouco tráfego”, sublinha.

Junta defende corte de trânsito

Carla Madeira, a presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, onde está a Rua de São Pedro de Alcântara, lamenta o facto de o projeto da ZER estar “na gaveta” e assume que a visão da freguesia é essa: “Há uma parte da rua que é impossível alargar, está entre prédios e a igreja. Para se alargar passeios, é preciso cortar definitivamente o trânsito ou colocar lá apenas um sentido. O que a junta de freguesia defende é que esse projeto seja implementado”.

Nessa altura, chegaram a realizar-se sessões públicas de esclarecimento do projeto em que foram apresentadas algumas propostas de alteração. O que “não se previa era que chegasse uma pandemia e que o novo presidente da câmara não concordasse com a ZER ou que, pelo menos, não lhe desse luz verde. Mas o grosso do projeto está feito”, garante Carla Madeira. A gaveta onde este entrou “é uma grande mágoa” para a autarca da freguesia.

A chegada da pandemia e dos períodos de confinamento, com o consequente abrandar da atividade económica, ditaram a suspensão da implementação da ambiciosa área de acesso automóvel restrito. O executivo de Carlos Moedas, atual presidente da autarquia e sucessor de Fernando Medina, já anunciou que não pretende implementar medidas de restrição à circulação automóvel como as propostas pela ZER.

Na quarta-feira, 20 de julho, a Mensagem enviou à CML um conjunto de questões relacionadas com a Rua de São Pedro de Alcântara que, até à data de publicação deste texto, não tiveram resposta.

Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 30 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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1 Comentário

  1. Boa tarde.
    Óptimo artigo, muito obrigada.
    Esta rua e estas dificuldades lembram-me das da Rua da Graça, sobretudo no troço próximo do Pingo Doce. Nesta zona os passeios são muito estreitos e não passam 2 pessoas lado a lado. E quando vem o eléctrico é pior, as pessoas têm mesmo que se encostar contra as paredes dos prédios…
    No sábado passado assisti a algo inédito: o eléctrico teve que parar para que uma senhora adiantasse caminho com um carrinho de bebé, porque os 2 ao mesmo tempo não passavam.
    O que fazer à Graça? Quando é que se vai alargar a via naquela zona? E pelo caminho aproveitavam e fechavam o trânsito aos transportes privados…
    Um abraço!
    Cláudia G.

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