Rua da Prata Baixa
Foto: Rita Ansone

Sou dos dedos enfiados na terra a fazer dos copos de vidro de iogurte forminhas de bolos imaginários, dos pés descalços na erva do quintal (e nas urtigas!), das galinhas e dos perus desvairados a correr para a minha avó Luísa, ávidos pelo milho que ela trazia no avental, do pão quente acabado de sair do forno de lenha da minha mãe e das muitas fatias que comi com manteiga.

Sou das copas das árvores vistas de baixo, deitada no chão porque aquela perspetiva me fascinava, e do pauzinho com um fio de sisal, espetado numa batata, que me servia de microfone nos espetáculos que dava para a plateia de cães de caça do meu pai – eles faziam coro a ladrar – e para os vizinhos a quem eu não poupava às minhas estridentes canções, com os pés sobre uma caixa da fruta invertida, o meu palco, com o sol a servir-me de holofote.

Sou de correr campo fora, de braços abertos a desafiar o vento, e de apanhar papoilas, o meu sinal de que a Primavera chegara. Sou de partir a casca dos pinhões com uma pedrinha, de andar empoleirada no trator do meu avô Fernando e de ir com ele na carrinha de caixa aberta à Festa da Senhora da Luz, a 17 de novembro, comprar um fio de pinhões e rezar uma Avé-Maria com a mão dele, sempre quentinha, entrelaçada na minha.

Sou de me levantar cedo ao sábado para ir ao mercado com a minha mãe. E ao domingo para o ritual da missa na capela, seguido da catequese numa sala sem luz natural e sem tinta na parede onde conviviam de forma deprimente um banco de madeira corrido e uma lâmpada solitária pendurada num casquilho. Reprovei um ano na catequese, acrescentando mais 365 dias àquela tortura, novamente numa sala escura, uma hora por semana, tão incompatível com um espírito livre.

Sou da plantação do cebolo com o meu pai, da apanha da azeitona (um enfado!), das batatas arrancadas da terra e das vindimas que me deixavam nas mãos o açúcar pegajoso e desconfortável das uvas. Sou de me deliciar com um pêssego acabado de apanhar da árvore, como as ameixas e as nêsperas. Sou da matança do porco e das morcelas feitas em casa pelas minhas tias, que passavam uma tarde inteira a lavar tripas com uma mistura de cebola, laranja, limão e sal, num alguidar de barro vidrado a verde, para depois as riparem com vime em infinitos cuidados para não as romper.

Sou de ser feliz, com toda esta bagagem que o campo me deu e que só mais tarde compreendi.

Hoje vivo na cidade. Foi Lisboa que me acolheu, quando me apaixonei por um projeto profissional que me continua a encantar, já lá vão 4 anos. Moro e trabalho na Baixa Pombalina onde o frenesim constante não podia contrastar mais com a pacatez das minhas origens.

Habituei-me a deitar e a levantar cedo. Por isso, também em Lisboa o meu dia madruga quando para todos os outros ainda é noite.

E essa é a minha Lisboa, onde o amanhecer é silencioso. Naquele momento a cidade é só minha, com as ruas sem gente e os primeiros raios de sol a baterem-me na cara como fazia o vento no campo. O silêncio é interrompido pelas gaivotas do Tejo, recordando-me as praias da infância – Nazaré e Paredes da Vitória –, oferecendo-me um bilhete para mais uma viagem à memória.

Lisboa é vitalidade, é a minha conquista pessoal, o meu passo em frente. É um recomeço todos os dias, tantas vezes inesperado. As pedras da calçada que já sei de cor, a amplitude da Praça do Comércio onde gosto de imaginar pinheiros e eucaliptos, o Cais das Colunas onde vou aclarar as ideias e respirar fundo, a Igreja de São Domingos junto à Rua das Portas de Santo Antão, cujas colunas e arcos queimados pelo incêndio de 1959 me remetem para aquela sala escura da catequese.

Lisboa é A Brasileira do Chiado por onde passei tantas vezes a caminho da Rua do Alecrim, onde estudei quando cá cheguei numa primeira vez aos 17 anos. Na altura limitava-me a contemplar a fachada sem me atrever a entrar, por achar que era um espaço demasiado chique para uma rapariga do campo como eu.

Lisboa também são as sardinhas assadas da Nazaré. As mercearias resistentes com as caixas de fruta arrumada, os pêssegos, as ameixas, as nêsperas. Os artistas de rua? Sou eu, de microfone feito de pauzinho, batata e fio de sisal na mão. Lisboa é a luz refletida no Tejo de forma tão perfeita como as copas das árvores vistas de baixo deixam transparecer os raios de sol. Lisboa são os azulejos da cozinha do forno de lenha da minha mãe, são as colinas por onde eu corria, sem cimento nem gente dentro.

Lisboa é minha mesmo quando as ruas se enchem de gente e barulho e eu sou mera figurante naquele rebuliço urbano. Quando cai a noite a cidade já não é minha, como o campo também não era. Talvez a verdade seja que nem Lisboa é assim tão frenética, nem o campo é assim tão pacato, e eu, como dizia um poeta que ia muito à Brasileira, “sou qualquer coisa de intermédio”.*

*Do poema “7”, de 1914, em Indícios de Oiro de Mário de Sá-Carneiro, livro póstumo, publicado em 1937:

Eu não sou eu nem o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro”

Sónia Santiago

Depois de anos no marketing de duas multinacionais — Navigator Company e Roca — percebi que o que realmente me movia são as marcas com história. Hoje sou Diretora de Marketing do Grupo O Valor do Tempo, onde lidero a comunicação de 13 marcas que têm em comum a mesma missão: contar a História de Portugal de forma autêntica, original e com elevação. More by Sónia Santiago

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2 Comments

  1. Admirável relato.
    Mergulho nas nossas origens comuns, incluindo Lisboa.

  2. Olá mensagem mouraria
    Gostaria de chamar atenção, para o estado de abandono e desleixo, das inúmeras casas do bairro mouraria.
    São património de uma Lisboa após terramoto. Como é possível estarem neste estado…. vão vêr!!!

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