O nevoeiro adensa quando as portas da Gare Marítima de Alcântara são destrancadas. João Pardal Monteiro, arquiteto e antigo presidente da Faculdade de Arquitetura de Lisboa, entra na gare da sua infância com uma pasta debaixo do braço. Nessa pasta, guarda documentos que terão pertencido ao seu tio-avô, Porfírio Pardal Monteiro, o homem por detrás deste edifício.
Aqui, o desgaste já se anuncia, mas mesmo assim a memória de outros tempos permanece. Memórias que urgem ser preservadas. Foi por isso mesmo que recentemente esta gare, tal como a sua vizinha Gare da Rocha do Conde de Óbidos, foi selecionada como um dos 25 lugares a preservar pela World Monuments Fund (WMF), depois de o conjunto já ter sido classificado Monumento de Interesse Público em 2012.
Não são apenas edifícios com grande valor arquitetónico. Nestas gares, fez-se História: “aqui, os soldados embarcaram para a guerra colonial, os portugueses vieram de África depois do 25 de Abril e os migrantes chegaram a Lisboa”, recorda Ricardo Medeiros, vogal do conselho de administração do Porto de Lisboa. “As gares foram para estas pessoas um ponto alto: de partida ou de chegada”.
No entanto, continua a não ser fácil entrar neste conjunto: as gares podem ser visitadas mediante marcação, só estando abertas ao público um fim-de-semana por mês. Um cenário que está prestes a mudar. Esta segunda-feira, dia 8 de julho, a Administração do Porto de Lisboa, a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação Turismo de Lisboa preparam-se para apresentar um projeto que mudará a vida destas gares: um Centro Interpretativo “Os Murais de Almada nas Gares Marítimas”.
A iniciativa conta com as intervenções do ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, do presidente do Conselho de Administração do Porto de Lisboa, Carlos Correia, e do presidente-adjunto da Associação Turismo de Lisboa, José Luís Arnaut.
Este polo turístico e cultural será inaugurado em breve (data a anunciar nesta apresentação) e abrirá as Gares Marítimas à população para permitir o acesso às pinturas murais de Almada Negreiros, o maior conjunto de pintura mural do século XX.


Um problema para quem quer recordar: e há muitos que o querem, não fosse a lista de passageiros o documento mais consultado nas gares marítimas de Alcântara.
Manuel Loureiro, responsável pela comunicação do Porto de Lisboa, recorda o encontro com dois judeus ortodoxos que pediam para entrar na Gare Marítima de Alcântara.“O nosso avô embarcou aqui e foi salvo por vocês portugueses”, terão dito. “Hoje é um importante rabi nos Estados Unidos”.
Comovido, Manuel Loureiro acabou por deixá-los entrar. Foi ali, na Gare Marítima de Alcântara, que estes dois homens se puseram a rezar, recordando o dia em que o avô, fugido aos nazis, atracava em Lisboa.




É por isso importante abrir estas portas àqueles que por ali passaram e dar a conhecer a história dos lugares àqueles que não os conhecem. Já há esforços a ser empreendidos: com a selecção do WMF e a consequente participação no programa Watch 2022, as gares procuram mecenas internacionais para a sua restauração e preservação.
O objetivo principal: abrir as gares marítimas de Alcântara ao público.
Mas não só. O Porto de Lisboa está também a trabalhar com o Instituto de História da Arte da Universidade de Lisboa de forma a encontrar uma solução que permita manter a vocação funcional das gares mas também criar um polo que conte a importância destes edifícios no contexto da atividade portuária.
A relação da arquitetura com a arte
Quem conhece bem a história destas gares é, claro, o sobrinho-neto de quem as projetou. João Pardal Monteiro sobe ao amplo salão da gare de Alcântara, decorado com os míticos painéis de Almada Negreiros, e espreita pelas varandas, com a vista hoje encoberta pelos contentores. Quando era pequeno, dali contemplava o Tejo e os navios que zarpavam por esses mares fora: os paquetes Vera Cruz e o Santa Maria.
Nesse tempo, os lenços ainda abanavam no ar, os namorados beijavam-se no cais e os pais choravam a partida dos filhos para a guerra. Os anos passaram sobre essa realidade e João Pardal Monteiro viu as portas da gares fecharem-se com o aumento das restrições de segurança. Entretanto, tornou-se arquiteto, como o pai, António Pardal Monteiro, que trabalhara durante anos com o tio-avô Porfírio.
O arquiteto ouviu muitas histórias das gares na infância. Mas foi em 1978, quando assumiu as rédeas do atelier do tio-avô com o seu irmão Manuel, também arquiteto, que as verdadeiras descobertas começaram, com a recuperação da documentação de Porfírio.
O resultado dessas pesquisas acabou por ser a sua tese de doutoramento, Para o Projeto Global – Nove Décadas de Obra: Arte, Design e Técnica na arquitetura do atelier Pardal Monteiro, na qual o arquiteto se debruça sobre a obra do tio-avô mas mais concretamente sobre a relação da arquitetura de Pardal Monteiro com a arte.
Uma relação que surge bem forte nestes dois edifícios. Basta olhar para os painéis de Almada Negreiros que decoram o salão da Gare Marítima de Alcântara para perceber melhor. “Os quadros não são pinturas nas paredes, fazem parte do edifício, como o próprio imobiliário”, diz o arquiteto.
Nos painéis da Gare Marítima de Alcântara, contam-se as histórias de Portugal e dos Descobrimentos: a lenda da Nau Catrineta e o milagre de D. Fuas Roupinho, que foram aliás alvo de grande polémica para o regime do Estado Novo.
Mas mais polémica houve ainda com os trípticos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, onde se ilustra a vida dos cais e o drama da partida dos migrantes.

O historiador e crítico de arte José Augusto França escreveu: com os frescos da Rocha, e sobretudo com a composição dos “emigrantes”, Almada realizou “a obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século”.
Mas não foi fácil mantê-los na gare, houve muita discussão sobre se deviam ser retirados. Quem os terá salvo foi o diretor do Museu de Arte Antiga, João Couto, depois de Porfírio Pardal Monteiro muito os ter defendido.
Construir as gares marítimas de Alcântara
Esta relação entre a arte e a arquitetura foi o ponto de partida do trabalho de João Pardal Monteiro – que lhe permitiu estar mais próximo da obra do tio-avô, e das gares.
Nascido em Pêro Pinheiro, Sintra, e filho de pedreiros, Porfírio Pardal Monteiro crescera fascinado com o trabalho do pai com arquitetos como Ventura Terra e José Luís Amorim.

Foi assim que descobriu a sua vocação, seguiu para Belas Artes em Lisboa e propôs-se a percorrer o mundo à procura da inspiração e do modernismo que se alastrava pela Europa. Queria trazê-lo para Portugal.
E conseguiu-o com obras como o Instituto Superior Técnico, a Biblioteca Nacional e, claro, as gares marítimas de Alcântara.
A construção destas gares esteve em discussão durante anos. Nos anos 1920, pensara-se em transferir-se o Arsenal da Marinha, então instalado entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, para a margem esquerda do Tejo de forma a libertar-se as zonas de atracagem. Porém, as confusões da implantação da República acabariam por adiar estes planos.
Em 1932, Duarte Pacheco assumia o cargo de ministro de Obras Públicas e Comunicações e apontavam-se duas soluções para a renovação das estruturas portuárias: a construção de uma gare central, possivelmente no Arsenal da Marinha, ou a construção de várias estruturas ao longo de Alcântara. Esta segunda solução era apoiada pelo Porto de Lisboa – e por Porfírio Pardal Monteiro, a quem em 1934 foram encomendadas as gares.
Os edifícios de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos foram projetados entre 1934 e 1939 e a ideia era que estivessem prontos a tempo da Exposição do Mundo Português em 1940, o que não aconteceu. Em 1943, inaugurava-se finalmente a Gare Marítima de Alcântara, com o seu belíssimo salão, o “coração do conjunto”, como escreve João Pardal Monteiro na sua tese, de onde se viam os navios partir. Em 1948, era a vez da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos.


O plano inicial seria a criação de uma galeria que unisse as duas gares a céu aberto, mas essa ligação nunca chegou a ser concretizada. O mesmo se pode dizer de uma torre farol, inspirada pelas estações marítimas francesas e italianas que Porfírio visitara nas suas muitas viagens e que serviria para marcar a doca e para indicar a altura das marés.
O resultado final foram estas gares modernas, feitas em betão, que contrariam a tendência de se usar alvenaria de pedra, material que era mais barato e que requeria mais mão-de-obra. É que, por um lado, Salazar queria “mostrar obra nova”, explica João Pardal Monteiro, mas também queria acabar com o desemprego, daí o uso das paredes de alvenaria. “Estas gares marcaram um salto”, diz.


O restauro das gares
Hoje, a passagem do tempo é visível nos edifícios. As gares precisam de restauro, começando mesmo pelos painéis de Almada Negreiros, sobre os quais se têm feito algumas descobertas interessantes. O laboratório HERCULES da Universidade de Évora está neste momento a fazer um trabalho de identificação daquelas que foram as técnicas e os materiais usados por Almada Negreiros nos painéis.
Já houve uma pequena intervenção nos painéis de Alcântara, mas o trabalho continua, e com surpresas: num dos painéis de Alcântara, uma mulher vestida com mangas brancas está debruçada sobre uma cesta de peixe.


Descobriu-se que as suas mangas afinal não eram originalmente brancas – mas sim brancas com tiras amarelas e desenhos de flores-de-lis. “Os amarelos sofreram mais degradação ao longo do tempo”, explica Ricardo Medeiros.
Para além disso, foram encontrados documentos na quinta de Almada com faturas e trocas de correspondência com a empresa francesa que fornecia o pigmento com o qual Almada pintou os painéis. A investigadora da Universidade de Évora que descobriu esta informação entrou em contacto com a empresa, e foi até convidada para uma visita.


O trabalho de recuperação também foi permitindo descobrir como Almada evoluiu de painel para painel. “Nota-se um grande entusiasmo de Almada na criação de determinadas figuras”, diz Ricardo Medeiros. “Houve um envolvimento afetivo e efetivo nestas pinturas”. Algumas foram resolvidas rapidamente pelo artista, mas outras demonstram um “grande nível de esforço, bem para lá do necessário”.

Claro que o trabalho de recuperação não se restringe aos painéis. Foram feitas intervenções nas gares ao longo do tempo, mas é urgente continuar o trabalho de preservação, que vai alargar-se aos salões e às varandas. “Vai ser uma intervenção financeiramente muito pesada, mas vamos ter de encontrar as soluções”, especifica Ricardo Medeiros.
Tudo isto para que se cumpra aquele que é o caminho: “Procurar soluções para reforçar a utilidade mas também um património com estas características”. Acima de tudo, contar, para além da história institucional, a vida daqueles que por aqui passaram e que aqui trabalharam. “As gares foram as testemunhas mais claras de experiências marcantes da vida portuguesa da segunda metade do século XX”, relembra o vogal.




Testemunhas até de acontecimentos mais insólitos, como uma história que já passou de boca em boca pela família Pardal Monteiro. Diz-se que um indivíduo terá atracado nestas gares, pedindo 100 contos emprestados pois teria feito uma grande invenção que lhe permitiria depois devolvê-los: a caneta esferográfica.
Reza a lenda que os 100 contos foram devolvidos e que ele fora de facto o inventor da esferográfica. Seria ele Laszló Biró, judeu húngaro que fugira de Budapeste, passando por Lisboa a caminho de Buenos Aires, o inventor da esferográfica? É bem possível.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

Excelente registo dado a conhecer.
De escrita agradável, ficamos à espera de mais.
Muitos parabéns. Pardal Monteiro é um arquitecto fascinante e Almada sublime.
História interessante esta das Gares Marítimas. Fico sempre triste com a resignação dos Portugueses e a vergonha que sinto que apenas a “mendicidade” nos ajuda a preservar o Património Cultural que herdámos. Lamento que das dezenas de milhões consumidos por politicas de gestão imbecis não se possa retirar algum dinheiro para preservar Património Histórico único e irrepetível! Resta registar o empenho daqueles que não desistem e àqueles que não sendo portugueses nos ajudam a cuidar do que é nosso e da Humanidade. Bem hajam.
Gostei deste artigo, chamando a atenção para um património desconhecido de muitos.
Espero ter a oportunidade de conseguir visitar estas gares, pois os painéis são lindos. Estes como os próprios edifícios marcam uma época, com a estética própria da mesma.
Já que se gasta muito dinheiro em projetos “elefantes brancos”, porque não preservar um pouco do património existente?
Extremamente interessante!! Redescobrir locais e sítios que se nos passam por abandonados ou sem importância à primeira vista. Obrigado pelo artigo!!
Excelente, bem documentada e completa reportagem. Um verdadeiro serviço público ! Um prazer ler e revisitar. Parabéns aos autores, e à Mensagem de Lisboa, por tão excelentes colaboradores.