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O nevoeiro adensa quando as portas da Gare Marítima de Alcântara são destrancadas. João Pardal Monteiro, arquiteto e antigo presidente da Faculdade de Arquitetura de Lisboa, entra na gare da sua infância com uma pasta debaixo do braço. Nessa pasta, guarda documentos que terão pertencido ao seu tio-avô, Porfírio Pardal Monteiro, o homem por detrás deste edifício.

Aqui, o desgaste já se anuncia, mas mesmo assim a memória de outros tempos permanece. Memórias que urgem ser preservadas. Foi por isso mesmo que recentemente esta gare, tal como a sua vizinha Gare da Rocha do Conde de Óbidos, foi selecionada como um dos 25 lugares a preservar pela World Monuments Fund (WMF), depois de o conjunto já ter sido classificado Monumento de Interesse Público em 2012.

Não são apenas edifícios com grande valor arquitetónico. Nestas gares, fez-se História: “aqui, os soldados embarcaram para a guerra colonial, os portugueses vieram de África depois do 25 de Abril e os migrantes chegaram a Lisboa”, recorda Ricardo Medeiros, vogal do conselho de administração do Porto de Lisboa. “As gares foram para estas pessoas um ponto alto: de partida ou de chegada”.

No entanto, continua a não ser fácil entrar neste conjunto: as gares podem ser visitadas mediante marcação, só estando abertas ao público um fim-de-semana por mês. Um problema para quem quer recordar: e há muitos que o querem, não fosse a lista de passageiros o documento mais consultado nas gares marítimas de Alcântara.

Ainda há dias, Manuel Loureiro, responsável pela comunicação do Porto de Lisboa, deparou com dois judeus ortodoxos que pediam para entrar na Gare Marítima de Alcântara.“O nosso avô embarcou aqui e foi salvo por vocês portugueses”, terão dito. “Hoje é um importante rabi nos Estados Unidos”.

Comovido, Manuel Loureiro acabou por deixá-los entrar. Foi ali, na Gare Marítima de Alcântara, que estes dois homens se puseram a rezar, recordando o dia em que o avô, fugido aos nazis, atracava em Lisboa.

É por isso importante abrir estas portas àqueles que por ali passaram e dar a conhecer a história dos lugares àqueles que não os conhecem. Já há esforços a ser empreendidos: com a selecção do WMF e a consequente participação no programa Watch 2022, as gares procuram mecenas internacionais para a sua restauração e preservação.

O objetivo principal: abrir as gares marítimas de Alcântara ao público.

Mas não só. O Porto de Lisboa está também a trabalhar com o Instituto de História da Arte da Universidade de Lisboa de forma a encontrar uma solução que permita manter a vocação funcional das gares mas também criar um polo que conte a importância destes edifícios no contexto da atividade portuária.  

A relação da arquitetura com a arte

Quem conhece bem a história destas gares é, claro, o sobrinho-neto de quem as projetou. João Pardal Monteiro sobe ao amplo salão da gare de Alcântara, decorado com os míticos painéis de Almada Negreiros, e espreita pelas varandas, com a vista hoje encoberta pelos contentores. Quando era pequeno, dali contemplava o Tejo e os navios que zarpavam por esses mares fora: os paquetes Vera Cruz e o Santa Maria.

Nesse tempo, os lenços ainda abanavam no ar, os namorados beijavam-se no cais e os pais choravam a partida dos filhos para a guerra. Os anos passaram sobre essa realidade e João Pardal Monteiro viu as portas da gares fecharem-se com o aumento das restrições de segurança. Entretanto, tornou-se arquiteto, como o pai, António Pardal Monteiro, que trabalhara durante anos com o tio-avô Porfírio.

O arquiteto ouviu muitas histórias das gares na infância. Mas foi em 1978, quando assumiu as rédeas do atelier do tio-avô com o seu irmão Manuel, também arquiteto, que as verdadeiras descobertas começaram, com a recuperação da documentação de Porfírio.

O resultado dessas pesquisas acabou por ser a sua tese de doutoramento, Para o Projeto Global – Nove Décadas de Obra: Arte, Design e Técnica na arquitetura do atelier Pardal Monteiro, na qual o arquiteto se debruça sobre a obra do tio-avô mas mais concretamente sobre a relação da arquitetura de Pardal Monteiro com a arte.

Uma relação que surge bem forte nestes dois edifícios. Basta olhar para os painéis de Almada Negreiros que decoram o salão da Gare Marítima de Alcântara para perceber melhor. “Os quadros não são pinturas nas paredes, fazem parte do edifício, como o próprio imobiliário”, diz o arquiteto.

Nos painéis da Gare Marítima de Alcântara, contam-se as histórias de Portugal e dos Descobrimentos: a lenda da Nau Catrineta e o milagre de D. Fuas Roupinho, que foram aliás alvo de grande polémica para o regime do Estado Novo.

Mas mais polémica houve ainda com os trípticos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, onde se ilustra a vida dos cais e o drama da partida dos migrantes.

Os trípticos de Almada Negreiros da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, onde se ilustra a vida dos cais e o drama da partida dos migrantes. Foto: Orlando Almeida

O historiador e crítico de arte José Augusto França escreveu: com os frescos da Rocha, e sobretudo com a composição dos “emigrantes”, Almada realizou “a obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século”.

Mas não foi fácil mantê-los na gare, houve muita discussão sobre se deviam ser retirados. Quem os terá salvo foi o diretor do Museu de Arte Antiga, João Couto, depois de Porfírio Pardal Monteiro muito os ter defendido.

Construir as gares marítimas de Alcântara

Esta relação entre a arte e a arquitetura foi o ponto de partida do trabalho de João Pardal Monteiro – que lhe permitiu estar mais próximo da obra do tio-avô, e das gares.

Nascido em Pêro Pinheiro, Sintra, e filho de pedreiros, Porfírio Pardal Monteiro crescera fascinado com o trabalho do pai com arquitetos como Ventura Terra e José Luís Amorim.

Porfírio Pardal Monteiro projetou as gares marítimas de Alcântara.

Foi assim que descobriu a sua vocação, seguiu para Belas Artes em Lisboa e propôs-se a percorrer o mundo à procura da inspiração e do modernismo que se alastrava pela Europa. Queria trazê-lo para Portugal.

E conseguiu-o com obras como o Instituto Superior Técnico, a Biblioteca Nacional e, claro, as gares marítimas de Alcântara.

A construção destas gares esteve em discussão durante anos. Nos anos 1920, pensara-se em transferir-se o Arsenal da Marinha, então instalado entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, para a margem esquerda do Tejo de forma a libertar-se as zonas de atracagem. Porém, as confusões da implantação da República acabariam por adiar estes planos.

Em 1932, Duarte Pacheco assumia o cargo de ministro de Obras Públicas e Comunicações e apontavam-se duas soluções para a renovação das estruturas portuárias: a construção de uma gare central, possivelmente no Arsenal da Marinha, ou a construção de várias estruturas ao longo de Alcântara. Esta segunda solução era apoiada pelo Porto de Lisboa – e por Porfírio Pardal Monteiro, a quem em 1934 foram encomendadas as gares.

Os edifícios de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos foram projetados entre 1934 e 1939 e a ideia era que estivessem prontos a tempo da Exposição do Mundo Português em 1940, o que não aconteceu. Em 1943, inaugurava-se finalmente a Gare Marítima de Alcântara, com o seu belíssimo salão, o “coração do conjunto”, como escreve João Pardal Monteiro na sua tese, de onde se viam os navios partir. Em 1948, era a vez da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos.

O plano inicial seria a criação de uma galeria que unisse as duas gares a céu aberto, mas essa ligação nunca chegou a ser concretizada. O mesmo se pode dizer de uma torre farol, inspirada pelas estações marítimas francesas e italianas que Porfírio visitara nas suas muitas viagens e que serviria para marcar a doca e para indicar a altura das marés.

O resultado final foram estas gares modernas, feitas em betão, que contrariam a tendência de se usar alvenaria de pedra, material que era mais barato e que requeria mais mão-de-obra. É que, por um lado, Salazar queria “mostrar obra nova”, explica João Pardal Monteiro, mas também queria acabar com o desemprego, daí o uso das paredes de alvenaria. “Estas gares marcaram um salto”, diz.

O restauro das gares

Hoje, a passagem do tempo é visível nos edifícios. As gares precisam de restauro, começando mesmo pelos painéis de Almada Negreiros, sobre os quais se têm feito algumas descobertas interessantes. O laboratório HERCULES da Universidade de Évora está neste momento a fazer um trabalho de identificação daquelas que foram as técnicas e os materiais usados por Almada Negreiros nos painéis.

Já houve uma pequena intervenção nos painéis de Alcântara, mas o trabalho continua, e com surpresas: num dos painéis de Alcântara, uma mulher vestida com mangas brancas está debruçada sobre uma cesta de peixe.

Descobriu-se que as suas mangas afinal não eram originalmente brancas – mas sim brancas com tiras amarelas e desenhos de flores-de-lis. “Os amarelos sofreram mais degradação ao longo do tempo”, explica Ricardo Medeiros.

Para além disso, foram encontrados documentos na quinta de Almada com faturas e trocas de correspondência com a empresa francesa que fornecia o pigmento com o qual Almada pintou os painéis. A investigadora da Universidade de Évora que descobriu esta informação entrou em contacto com a empresa, e foi até convidada para uma visita.

O trabalho de recuperação também foi permitindo descobrir como Almada evoluiu de painel para painel. “Nota-se um grande entusiasmo de Almada na criação de determinadas figuras”, diz Ricardo Medeiros. “Houve um envolvimento afetivo e efetivo nestas pinturas”. Algumas foram resolvidas rapidamente pelo artista, mas outras demonstram um “grande nível de esforço, bem para lá do necessário”.

Ricardo Medeiros, vogal da administração do Porto de Lisboa, fala do entusiasmo de Almada Negreiros a criar algumas das figuras dos painéis nas Gares Marítimas de Alcântara. Foto: Orlando Almeida

Claro que o trabalho de recuperação não se restringe aos painéis. Foram feitas intervenções nas gares ao longo do tempo, mas é urgente continuar o trabalho de preservação, que vai alargar-se aos salões e às varandas. “Vai ser uma intervenção financeiramente muito pesada, mas vamos ter de encontrar as soluções”, especifica Ricardo Medeiros.

Tudo isto para que se cumpra aquele que é o caminho: “Procurar soluções para reforçar a utilidade mas também um património com estas características”. Acima de tudo, contar, para além da história institucional, a vida daqueles que por aqui passaram e que aqui trabalharam. “As gares foram as testemunhas mais claras de experiências marcantes da vida portuguesa da segunda metade do século XX”, relembra o vogal.

Testemunhas até de acontecimentos mais insólitos, como uma história que já passou de boca em boca pela família Pardal Monteiro. Diz-se que um indivíduo terá atracado nestas gares, pedindo 100 contos emprestados pois teria feito uma grande invenção que lhe permitiria depois devolvê-los: a caneta esferográfica.

Reza a lenda que os 100 contos foram devolvidos e que ele fora de facto o inventor da esferográfica. Seria ele Laszló Biró, judeu húngaro que fugira de Budapeste, passando por Lisboa a caminho de Buenos Aires, o inventor da esferográfica? É bem possível.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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6 Comentários

  1. Excelente registo dado a conhecer.
    De escrita agradável, ficamos à espera de mais.

  2. Muitos parabéns. Pardal Monteiro é um arquitecto fascinante e Almada sublime.

  3. História interessante esta das Gares Marítimas. Fico sempre triste com a resignação dos Portugueses e a vergonha que sinto que apenas a “mendicidade” nos ajuda a preservar o Património Cultural que herdámos. Lamento que das dezenas de milhões consumidos por politicas de gestão imbecis não se possa retirar algum dinheiro para preservar Património Histórico único e irrepetível! Resta registar o empenho daqueles que não desistem e àqueles que não sendo portugueses nos ajudam a cuidar do que é nosso e da Humanidade. Bem hajam.

  4. Gostei deste artigo, chamando a atenção para um património desconhecido de muitos.
    Espero ter a oportunidade de conseguir visitar estas gares, pois os painéis são lindos. Estes como os próprios edifícios marcam uma época, com a estética própria da mesma.
    Já que se gasta muito dinheiro em projetos “elefantes brancos”, porque não preservar um pouco do património existente?

  5. Extremamente interessante!! Redescobrir locais e sítios que se nos passam por abandonados ou sem importância à primeira vista. Obrigado pelo artigo!!

  6. Excelente, bem documentada e completa reportagem. Um verdadeiro serviço público ! Um prazer ler e revisitar. Parabéns aos autores, e à Mensagem de Lisboa, por tão excelentes colaboradores.

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