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Se para os lisboetas não há dúvidas de que Santo António reina, nada mais natural do que dedicar ao mais popular de entre os santos populares um trono para chamar de seu. Ou dezenas deles.

Este ano, são 180 os Tronos de Santo António espalhados pela cidade, uma tradição que resiste ao tempo e ao esvaziamento dos bairros típicos provocado pela pressão do turismo, e segue a movimentar a população local durante as Festas Populares.

É verdade que a participação já foi maior noutros tempos.

Tanto que, na primeira metade do século passado, a autarquia chegou a organizar concursos para eleger o mais belo trono de Lisboa. Mas se oficialmente a contenda já não existe, a rivalidade bairrista continua viva entre os moradores que, em junho, voltam a travar a “guerra dos tronos”.

O colorido trono de Santo António no museu que leva o nome do santo, em Lisboa. Foto: Rita Ansone

Tronos de Santo António ajudam a recuperar a igreja no Grande Terramoto

É bom deixar claro que o trono em questão não é o conhecido assento real, mas uma estrutura entre altar e um mealheiro, erguido em camadas, como uma escada em formato triangular.

Para além da semelhança semântica, tanto a versão monárquica como a católica ostentam uma posição de poder. A diferença é que ao contrário de um rei, Santo António não está confortavelmente sentado, e sim em pé, no seu trono.

O trono dedicado aos fadistas nas ruas de Alfama: tradição secular que se mantém nos bairros típicos de Lisboa. Foto: Rita Ansone

A tradição, afinal, remonta ao Grande Terramoto de 1755, que poupou muito pouco da Lisboa da época. Entre as estruturas que resistiram ao tremor de terra estava a Igreja de Santo António, que se manteve de pé, é verdade, mas a duras penas.

Para reconstruí-la, a população organizou peditórios e angariação de donativos, e os tronos, montados à porta de casa pelas crianças, tiveram um papel importante na mobilização dos moradores.

“Não há certeza se o dinheiro amealhado foi destinado à reconstrução da igreja ou gasto em guloseimas”, brinca o antropólogo Pedro Teotónio Pereira, desde 2014 coordenador do Museu de Santo António. 

Pedro Teotónio Pereira, coordenador do Museu de Santo António, em Lisboa.Foto: Rita Ansone

A direção da qual faz parte no Museu foi a responsável pelo resgate, por parte da autarquia, da tradição dos Tronos de Santo António. Não no antigo formato de um concurso, mas articulando a participação da sociedade, através da criação de um roteiro urbano ligando os Tronos e de um registo histórico e fotográfico com a publicação anual de um catálogo em formato de livro.

No novo modelo, a exposição é aberta a quem se interessar e foi acolhida de forma ampla. “Há moradores, claro, mas há também tronos construídos em restaurantes, em lojas e bibliotecas, entre outros”, explica Teotónio Pereira.

Pode visitar o roteiro da exposição aqui.

Tronos no Museu e na rua

A história dos Tronos de Santo António está muito bem documentada no museu dedicado ao padroeiro lisboeta, vizinho da igreja recuperada com o dinheiro da população, incluindo a relevante ajuda – pese a dúvida – das crianças.

A verdade é que não era só a tentação das guloseimas a responsável pelos  desvios dos tostãozinhos para o santo.

O trono com referência ao “milagre da jarra partida”, uma metáfora à reconstituição da virgindade de uma rapariga. Foto: Rita Ansone

Diante da montra onde está exposto um vistoso trono, Pedro Teotónio Pereira aponta para um conjunto de moedas ao pé do mesmo, todas com a face perfurada. “As pessoas costumavam e ainda costumam tratar os tostões que são doados nos tronos como amuletos”, explica. “Os furos são para permitir passar um fio e usá-los como medalhas, pulseiras ou junto das chaves.”

Apesar do interessante caráter documental do museu, os Tronos pertencem às ruas e é a caminhar por Lisboa que se tem a exata dimensão da importância da tradição para a população. O que é possível apenas durante as Festas Populares.

Em Alfama, os Tronos multiplicam-se, seja no balcão de uma barraca, no átrio de uma igreja ou pendurado na parede de um restaurante.

O coordenador do Museu de Santo António conduziu a Mensagem num passeio por entre alguns dos Tronos expostos em Alfama, uma caminhada de cerca de uma hora pelas ruas do bairro, já vestidas para as Festas Populares, onde é praticamente impossível caminhar sem dar de caras com um dos Tronos de Santo António, de todos os tamanhos e feitios.

Num dos epicentros da festa no bairro, o Largo de São Miguel e arredores, nas ruas da Adiça e da Regueira, os Tronos multiplicam-se, seja no balcão de uma barraca, no átrio de uma igreja ou pendurado na parede de um restaurante. Num deles, Pedro Teotónio Pereira chama a atenção para uma jarra partida. 

“Remete para um dos milagres do santo, de uma rapariga que havia ido ao rio apanhar água, mas distraiu-se a namorar e partiu a jarra. Ficou desesperada, mas Santo António reparou o vaso e evitou que a rapariga tivesse problemas com a mãe”, conta Pedro, chamando a atenção para a metáfora envolvida no milagre: “jarra partida representa a virgindade perdida, depois restaurada pelo santo”.

Tronos para todos os gostos e clubes

De simbolismo mais claro é o trono erguido por Anabela Moisés, 62 anos, em frente ao seu restaurante, na rua de São Miguel. Um modelo pintado de azul e decorado com taças douradas, dedicado ao título de campeão nacional do FC Porto. Uma das funcionárias do estabelecimento não esconde o espanto. “Nunca vi tal coisa, nascida em Alfama e portista”, diz. 

O corajoso trono dedicado ao campeão nacional FC Porto, no coração de Alfama: Foto: Rita Ansone

Anabela responde à provocação com um sorriso.

Anabela Santos: fé em Santo António e no FC Porto. Foto: Nuno Golçalves/EGEAC

A portista tem expetativas de que o trono dedicado ao FC Porto resista intacto até ao fim das Festas Populares em terreno inimigo. “Vai, sim, Santo António não é só dos sportinguistas e benfiquistas”, afirma Anabela, convicta, no que pode ser mais um milagre na conta do santo.

A caminhada segue em direção ao Miradouro de Santa Luzia, onde um pouco antes, na Rua Norberto Araújo, está um dos maiores Tronos de Santo António expostos este ano, feito pelo reformado João Matos, 62 anos. A estrutura conta com um Santo António de tamanho natural, metido numa túnica franciscana – com direito a capucho e tudo – que levou dois meses a ser construída. 

“Demorei um pouco mais do que o costume, porque estava com os netos em casa”, conta João Matos, que, assim como a vizinha Anabela, é um dos lisboetas que fazem questão de manter viva a tradição, bem antes de a Câmara Municipal de Lisboa retomar a tradição dos Tronos, em 2014.

Pedro Teotónio Pereira ressalta que, apesar de a iniciativa do Museu de Lisboa não ter um caráter competitivo, há uma disputa velada entre os participantes e a publicação do catálogo, logo após as Festas Populares, serve para dirimir as possíveis dúvidas sobre qual é o trono mais belo do ano.

Mapa virtual dos tronos espalhados na cidade

Para quem tem curiosidade em mergulhar nessa tradição, o Museu de Lisboa organizou no início de junho duas caminhadas guiadas por um percurso urbano através de alguns dos tronos em exposição. 

Para quem não teve a oportunidade de se juntar aos caminhantes, a alternativa é fazer o próprio roteiro, usando como GPS o mapa virtual disponibilizado pela entidade, utilizado pela primeira vez em 2021, ainda durante a pandemia, quando nem o confinamento foi capaz de abalar a relação dos lisboetas com o santo e, mesmo com a suspensão da festa dos Santos Populares, chegou a mobilizar 160 participantes.

O Museu de Santo António estimula a participação da população nos Tronos de Santo António com um circuito pelos tronos nas ruas da cidade. Foto: Rita Ansone.

Os Tronos de Santo António estão longe de ser a única vez que o santo foi alçado a um sítio pouco ortodoxo. Em 1655, Santo António foi “convocado” por D. Pedro III para o Exército português, alistado como soldado – chegaria a general, com direito a vencimentos de mil e quinhentos réis – e como tal esteve em várias batalhas, todas elas com a sua imagem a combater, montada a cavalo. 

A carreira militar do santo duraria cerca de 200 anos, até o general seguir para (a mais do que merecida) reserva. E, desde então, Santo António vive dias de paz, até junho chegar e ser novamente convocado para participar de mais uma batalha da guerra dos tronos.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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