
Quando falo de um gigante oriental, devem pensar que é da China ou da Índia — gigantes geopolíticos —, mas estou a falar do Clube Oriental de Lisboa. Também devem achar que “gigante” não será o adjetivo adequado para um clube que não vê os relvados da primeira divisão desde a época 1974-75. Mas no contexto desta série, “Chelas é futebol“, que segue cinco clubes de futebol do meu bairro, em Marvila, considerar este clube um gigante não me parece despropositado.
E isso é porque o Oriental parece contar também a história de uma cidade inteira.
Ouça aqui o podcast:
Um desejo: um clube com dimensão
Poucos serão hoje aqueles que sabem que o Oriental nasce da fusão entre o Chelas Futebol Clube, o Marvilense Futebol Clube e o Grupo Desportivo “Os Fósforos”. A ideia foi Rui de Seixas que a teve em 1936. Ele que, num país ainda sob o regime fascista, onde não era permitido o direito à associação, sonhou ver estes clubes unirem-se para dar a esta zona da capital um clube com a dimensão que merecia.
Mas não achem que ele convenceu todos: a ideia foi rejeitada logo à partida, porque havia uma grande rivalidade bairrista entre os clubes vizinhos. Foi preciso esperar dez anos para que o presidente do Chelas FC visse esse sonho concretizado com grande apoio dos sócios dos três emblemas.
Aconteceu finalmente em 1946.
Criou-se o Oriental, uma “poderosa organização desportiva e cultural, um bloco forte e unido na defesa da saúde, da educação, dos interesses, enfim, da juventude da zona oriental de Lisboa”, lê-se hoje no site do clube.
Ser como o Costinha
Este era, e talvez ainda seja, o clube onde muitos jovens desta zona sonhavam em jogar. Claro, o sonho maior era sempre o Benfica ou o Sporting, mas para iniciar o percurso no futebol federado, não havia clube maior que o Oriental. Também sonhei e cheguei a atravessar a linha de comboio para fazer treinos de captação no “campo da CP”, como é conhecido o campo do Clube Ferroviário de Portugal. Igual a mim, iam muitos outros jovens no final da época, em maio ou junho, e no início da seguinte, agosto ou setembro, tentar a sua sorte para conseguir vestir a famosa camisola grená.
Não fui um dos sortudos — ou mais capazes —, mas não deixei de apoiar os meu amigos e primos que já lá jogavam.




Nós que sonhávamos replicar o percurso do Costinha.
Dizer que foi o último grande talento da formação do clube pode ser injusto com os inúmeros talentos que estão lá agora e os que por lá passaram. Mas Costinha, como ficou conhecido no mundo do futebol, é a grande referência de concretização do potencial. Jogou nos escalões de formação, estreou-se na equipa sénior e ascendeu aos mais altos patamares do futebol profissional — Seleção, campeão em França e Portugal, vencedor da Liga dos Campeões e Taça UEFA com o Porto.
Hoje, em 2024, o clube segue na sua missão de cuidar da juventude de Chelas, este bairro de má fama. Quem lhe dá seguimento agora é o presidente Paulo Rosado, um filho da casa. O pai foi jogador de Andebol — uma das modalidades com maior tradição no clube — e treinador. Cresceu a acompanhar a equipa de perto, sendo até considerado a mascote, até começar a praticar também. Esteve durante um período desligado do clube, mas voltou a ser uma presença assídua quando o filho seguiu as pisadas do pai e do avô no Andebol. À semelhança da Patrícia Mendes do Clube Futebol de Chelas (lembra-se? O protagonista do nosso primeiro episódio). Paulo entrou no clube através do Andebol e assumiu a pasta da modalidade que é uma paixão familiar. De presidente interino passou a presidente eleito, em 2022.
Para Paulo Rosado, a história do clube não se conta apenas por número de troféus em campo.
Sendo Chelas uma zona considerada “problemática”, o Oriental assume uma responsabilidade moral e social que transcende as quatro linhas:
“Se conseguirmos colocar estas crianças a praticar desporto, estamos a desviá-los de outros problemas que possam desencadear”.
Na prática, isso faz-se através da gratuitidade das modalidades para jovens e crianças e com uma das taxas mais baixas no futebol até ao escalão de Iniciados B (sub-14).
A proximidade e a abertura com a comunidade local exige que se tenha atenção à situação financeira dos pais. E, em casos mais sensíveis, nenhuma criança é impedida de fazer parte da equipa por falta de pagamento, independentemente do talento ou potencial.
Futebol… e não só
A grandeza institucional e moral do clube permite que possa atuar desta forma. Em contraste com as restantes associações desportivas da Freguesia de Marvila, o Oriental tem infraestrutura para acomodar a prática de várias modalidades: o Estádio Engenheiro Carlos Salema, onde joga a equipa sénior masculina; a sede no Poço Bispo, para os atletas da Ginástica e a Piscina do Vale Fundão.
Apesar de ser um espaço camarário gerido pela Junta de Freguesia, é ao clube a quem cabe a gestão desportiva, tornando possível a prática da Natação e do Polo Aquático. A estes espaços ainda se soma a sub sede de Xabregas, antiga casa das modalidades de salão, onde agora a atividade é residual.
Mas há desejo para se fazer mais.
Em colaboração com a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (FAUL), será feito o plano para o muito aguardado complexo desportivo, composto por um campo sintético próprio, um pavilhão para as modalidades de salão e courts de Padel. O envolvimento com o ensino não ficaria pela parceria com a FAUL. Há a intenção de se construir uma residência para estudantes da área do desporto ou da motricidade humana, garantindo aos mesmos a possibilidade de estágio no clube.
A preocupação com o que está ao seu redor… está na sua fundação. Os muros do estádio, que fica nas traseiras do bairro Zona J, não escondem a relação que o clube tem com a sua comunidade. Toda a gente tem na família ou conhece quem tenha vestido a camisola grená, que se encontra facilmente estendida ao sol nas janelas dos vários bairros de Chelas.
E a descida de divisão da equipa principal aos escalões distritais não irá afastar os 1500 sócios do clube. A cumprirem-se os planos para o futuro, não há razão para não se acreditar num regresso do Oriental ao caminho que o levou à Segunda Liga — onde estiverem nas épocas 2014/15 e 2015/16.
Não há como desconfiar que não poderá regressar aos tempos de glória nas diversas modalidades que viram nascer tantos Costinhas e transformaram a comunidade local.
Ouça outros episódios desta série, aqui:
Esta reportagem faz parte do Projeto Narrativas. Saiba mais aqui


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