
Sabe quantas árvores de fruta existem em Lisboa? Dessas, livres, à mão de semear (ou colher)? Azeitonas, laranjas, limões, romãs, figos, amêndoas, uvas, amoras, figos da índia, nêsperas, marmelos, peras, cerejas, tâmaras? Sim, há de tudo isso na cidade, embora ninguém saiba ao certo onde, nem a própria Câmara. Mas há neste momento um esforço coletivo para conseguir saber: a plataforma colaborativa Falling Fruit, criada nos EUA, está também presente em Portugal e já tem mas de 50 mil localizações de árvore de fruta em Lisboa, introduzidas no sistema por voluntários locais.
“Em Portugal, adicionámos recentemente milhares de árvores dos inventários municipais de Lisboa e Cascais, e um único utilizador de Portugal (que deseja manter-se anónimo) adicionou mais 498 árvores ao mapa ao longo de 23 dias. Conheces alguma planta comestível perto de ti?”, diz a organização numa das publicações recentes dedicadas a Portugal, apelando à participação.
Esta plataforma foi ideia de dois amigos, Ethan Welty e Jeff Wanner, e começou porque ambos, ainda nos EUA, tiveram a ideia de fazer cidra artesanal. Para fazer cidra precisavam de maçãs: “E se procurassemos nas ruas?” A ideia era melhor do que imaginavam. Havia muitas maçãs disponíveis em árvores e que não eram aproveitadas na cidade de Boulder, Colorado, nos EUA, onde moravam na altura.

O objetivo era simples: marcar no mapa a comida que se produzia ao virar de cada esquina e era desperdiçada.
Logo surgiu a ideia de criar a plataforma onde pudessem registar as árvores de fruto que iam encontrando pela cidade, um mapa para não perderem o rasto das árvores que serviam o hobbie da cidra, mas também para irem registando as épocas de colheita e outras árvores úteis. Juntaram-se a Caleb Phillips, informático.
Na verdade, logo em 2013, há mais de um ano que Ethan já aproveitava o que a cidade lhe dava, em vez de depender dos supermercados. Assim nasceu a Falling Fruit, um projeto digital onde se mapeiam árvores de fruto, mas não apenas árvores, pelo mundo fora – e também em Lisboa.
Em Lisboa já são quase 50 mil localizações.
Antes ainda de Ethan chegar a Lisboa para adicionar as bases de dados municipais que tinha recolhido, já havia um utilizador anónimo que, sozinho, já tinha registado mais de duas mil árvores.
A maioria das localizações no mapa ou são das Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia ou de anónimos. O português Rui Sebastian foi um dos contebuidores: descobriu um abacateiro na Amadora. Rui descobriu a plataforma da Falling Fruit através de um colega de trabalho, em 2018. Perto da sua casa, reparou primeiro nos abacates desperdiçados que caiam chão quando havia ventanias, e só depois no abacateiro.
“Percebi que os conseguiria colher se lhes desse uma paulada com umas canas altas que encontrei lá perto”, conta Rui.
Levou alguns consigo e registou a árvore no mapa da Falling Fruit.
Explore o mapa e veja que plantas tem na sua rua:
Uma certa visão de cidade
O projeto Falling Fruit tornou-se mais ambicioso com o tempo, e é nessa ambição que cabe Lisboa. Começaram a importar bases de dados de cidades, inventários municipais com listas das árvores e também a receber registos de outras pessoas, como aconteceu com Lisboa e Cascais.
“A plataforma tornou-se numa forma de comunicar uma visão de cidade, levar as pessoas a pensar de forma diferente sobre o que se pode esperar das cidades hoje e no futuro. Queríamos mostrar às pessoas o que estava a crescer nas suas cidades. É como um serviço de matchmaking entre os residentes das cidades e as fontes de alimentos no seu bairro. Existem utilizadores para quem comer é realmente uma parte importante, para outros uma necessidade, e algumas outras pessoas fazem-no simplesmente por lazer e pela aventura de descobrir as suas cidades pela sua natureza”, conta Ethan.
Neste momento já contam com mais de um milhão e meio de localizações registadas no mapa, espalhadas pelo mundo inteiro.

Lisboetas registam árvores e FCSH recolhe nêsperas
Lisboa está repleta de árvores, mas, segundo Ethan, como na maioria das cidades, são árvores pouco interessantes em termos de frutos. Escolhidas por razões estruturais, para dar sombra ou porque crescem rápido. Mas numa passagem de olhos pela lista de espécies na cidade, Ethan identificou bastantes laranjeiras, limoeiros, pinheiros-mansos e até algumas romãzeiras e nespereiras.
Há uma cidade por descobrir nestas espécies. “Lisboa pode ser mais biológica e orgânica do que a agricultura convencional, mesmo com a poluição. Sim, é uma boa ideia lavar a comida que retiramos delas, mas como qualquer outra que se compre”, explica Ethan.
O facto deste projeto ser digital fez com que o mapa ultrapassasse as fronteiras da cidade em que foi pensado. Em papel, tinha ficado no papel e no bolso de quem o fosse preenchendo. Assim tornou-se colaborativo e universal.
Além disso, Ethan acha que este projeto ajudou a baixar as barreiras que as pessoas têm em relação à colheita de fruta das árvores da rua, identificando-as e lançando o exemplo de que podem ser, mais do que decoração, um alimento.
Esta mesma ideia foi repescada recentemente em Lisboa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, em plena Avenida de Berna. Quando as árvores ditam que é tempo da colheita, a direção espalha a mensagem pela internet e chama os alunos e não só a apanharem as nêsperas do campus.
A organização fica a cabo de Carlos Sacramento, funcionário na faculdade, e do projeto ECO Campus da faculdade. Este é o terceiro ano em que fazem a colheita: o escadote mais alto que conseguem encontrar não chega nem perto do topo da árvore, por isso, apanha-se o que dá. Enchem-se baldes e distribuem-se nêsperas por sacos de plásticos ou embrulhos improvisados feitos de folhas de jornal. Aos funcionários e alunos que por lá passam é lhes oferecido um ramo (ou mais).



Ao lado da nespereira da FCSH há também uma árvore de abacate – ambas já estão referenciadas na Falling Fruit. Esta árvore é tão alta que só se apanham abacates quando há algum problema nos telhados e alguém lá sobe. Maria da Luz, também funcionária na faculdade, sabe as árvores que existem no campus todas de cor. Ali há também uma bananeira, ao longe uma ameixeira e mais duas outras nespereiras noutro lado, mas a única árvore que dá bom fruto é mesmo aquela.
A Falling Fruit está a fazer com que todas estas árvores deixem de ser segredo: “Algumas pessoas podem achar complicado usar uma plataforma digital como intermediário para o mundo físico, mas a maioria das pessoas que usam a plataforma estão a habituar-se a ela. Pode ser uma ferramenta muito poderosa, porque a colheita não é fácil, é um trabalho árduo quando se quer fazê-la numa escala maior do que de forma acidental aqui e ali. Há muitos locais para lembrar numa cidade com milhões de árvores. Obviamente, é muito útil poder marcar e identificar, por exemplo, onde um dia se encontrou uma árvore de alperces, para lá voltar na época da colheita”, diz Ethan.
Uma nova cidade, em que o digital e o real se cruzam numa nova ideia.

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A Lisboa das av novas e pós Pombalina NO EIXO COMPO GRANDE /SALDANHA AMOREIRAS CAMPO DE OURIQUE ETC .NESTAS zonas OS QUINTAIS NO INTERIOR DOS QUARTEIRÕES FUNCIONAM COMO PEQUENOS PULMÕES DA CIDADE . HOJE ESTÃO A SER DESTRUIDOS PARA CONSTRUIR PARQUEAMENTOSEM NOME DA “”MODERNIZAÇÃO”” DACIDAD
ESTA LISBOACONSTRUIDANO FINAL DO SÉCULO DEZANOVE E VINTE ERA BEM MAIS INTELIGENTE E MODERNA QUE O QUE SE faz HOJE
Não entendo porque se planta laranjeiras bravas em vez de laranjeiras boas para se comerem.
Nos Olivais existem muitas árvores de fruto (nespereira, pessegueiros, figueiras, oliveiras).
Cumprimentos