Se fizermos uma pesquisa pelos motores de busca da internet por Casal da Boba, na Amadora, a maioria das notícias e páginas levam-nos a histórias sobre realojamentos, habitação e crime. Até há uns tempos, a pesquisa por Chelas levava-nos sobretudo a cenas de tiroteios, suspeitas de tráfico e embates entre a polícia e o que seria a comunidade moradora. Já sobre Algueirão-Mem Martins, em Sintra, ficaríamos a saber pouco ou mesmo nada, esta que é a maior freguesia do país. Por isso é que estes três lugares são chamados “desertos de notícias”, onde os media não chegam ou de onde só saem histórias envoltas em grandes e velhos estigmas.

“Isso está a mudar”, disse Sinho Baessa de Pina, do Casal da Boba, sentado no painel que abriu o Festival Política, na quarta-feira, dia 3 de abril. Está a mudar com a ajuda do projeto Narrativas, que a Mensagem pôs de pé com uma bolsa do Journalismfund Europe, apoiada pela União Europeia.

Foi sobre ele que fomos falar para o auditório Manoel Oliveira, no cinema São Jorge, acompanhados por representantes das três associações e coletivos que nos ajudaram a montar este projeto (Unidigrazz, Kriativu e Cavaleiros de São Brás) e António Brito Guterres, investigador com anos de intervenção e estudos nos mais variados territórios da Área Metropolitana de Lisboa.

A cobertura habitual sobre assuntos destes lugares é quase nula: foi o que confirmaram, num trabalho prévio de análise, Dora Santos Silva, do Obi.media, da Universidade Nova de Lisboa e António Brito Guterres. E, quando existe, é negativa.

Por isso, nos últimos meses, a Mensagem de Lisboa mudou a redação para Algueirão-Mem Martins, Chelas e Casal da Boba para responder a uma pergunta: “se as pessoas que moram nestes desertos de notícias pudessem contar histórias daqueles lugares, que histórias contariam?”.

Nas redações pop-up montadas em cada um deles, com a ajuda destes coletivos e associações locais, trabalhámos diretamente com os jovens de cada sítio para contar estas mesmas histórias, onde participaram com os seus talentos e interesses em escrita, fotografia, vídeo e ilustração.

O que encontramos foram dezenas de pessoas e lugares com histórias que aguardavam há anos para serem contados: como Ventura, o ator nacional, estrela dos filmes de Pedro Costa, distinguido em Cannes e esquecido pelo país; e Filipe, o morador de Chelas que cuida de um jardim para o bairro; mas também a história por trás do fim de um dos lugares mais emblemáticos da linha de Sintra, o cine-teatro Chaby Pinheiro.

Sinho, do Casal da Boba, Nuno Varela, de Chelas, e Rodrigo Faria, de Mem Martins, contaram a este auditório como as comunidades que representam se sentem mais informadas e empoderadas depois da publicação destas histórias. “O esquecimento leva ao que vemos, ao descrédito na política”, lembrou Rodrigo. Por isso, alguns destes territórios foram também daqueles onde o partido populista mais colheu votos nas últimas eleições.

Do projeto Narrativas nasceu também a Gazetta do Bairro, um jornal hiperlocal, de Chelas. Como contou Nuno Varela:

Veja aqui fotos deste encontro:


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