As pessoas estão à espera de que eu me queixe, mas a minha vida não é isso. Perguntam assim:

– Então, como está a correr a gravidez?

E eu digo, polida:

– Muito bem, obrigada.

Ora, isto desilude qualquer um – quem não se satisfaz no charco alheio que atire a primeira pedra. A mim não, se faz favor, para não me acertarem na barriga. Insatisfeitos, os inquisidores continuam:

– Mas nem enjoos nem nada?

– Não, nada de nada. O único enjoo que tive foi ao ver o Vizela jogar contra o Braga há dias.

Coçam o nariz, torcem-no, desiludem-se, desconfiam:

– Então, mas gémeos deve ser complicado.

Lá continuo:

– Faz-se bem. Sem espigas.

Sem deitarem a toalha ao chão, prosseguem:

– A minha cunhada esteve grávida e teve muitos enjoos, muitas dores, muito inchaço. E tu não tens?

Tranquila da vida, respondo:

– Nada, só barriga. E mesmo isso é divertido.

A insatisfação fica à vista:

– E os bebés já dão pontapés?

– Sim, o tempo todo. E viram-se e tal.

De repente, o júbilo, a seta atirada ao alvo:

– Ah! Isso é que deve ser uma chatice!

E então o júbilo do meu lado:

– Nada, é uma maravilha. Adoro. É a melhor sensação do mundo, um fogo-de-artifício em permanência. Quero estar grávida mais vezes só para ter mais pontapés.

Por fim, lá desistem do meu corpo. Mas é preciso arranjar uma confissão. É preciso que nem tudo corra bem. Houve um momento qualquer da história da vida em que tudo virou drama. A gravidez é drama, o parto é drama, a maternidade é drama. De repente, mudar fraldas é drama: os tempos modernos descobriram que os nabos dos bebés não sabem usar casas-de-banho. Até os leitores começaram a ser sensíveis. Em vez de gente rija, o mundo começou a focar-se em produzir flores de estufa. Em vez de reivindicação política, a gente voltou-se para a confissão das suas dores, incapacidades, angústias. Derrama-se intimidade onde anteriormente se meteram cravos na boca de espingardas. Cabe a quem vive, então, tactear, como quem pisa ovos, numa qualquer pontadinha de sofrimento que possa tolher alguém. 

– E o hospital onde estás a ser seguida?

– É bom, tem corrido tudo bem. Todas as médicas são óptimas

– Todas? Não é sempre a mesma?

– Não, tem havido várias alterações, parece que vou agora para a quarta.

– Meu Deus. Deve ser caótico gerir isso.

– Não é. Marcam consulta e apareço. Muda o nome da médica, vá. É-me indiferente.

– É privado?

– Não, é público.

– E tem mesmo corrido bem?

– Sim, sem problema nenhum.

– Mas não há stresses com urgências e assim?

– Sim, eu é que não tenho tido problemas. E sempre que tive de ir às urgências o serviço foi rápido e bom.

– Então mas não dizem nas notícias que as urgências fecham e não se sabe onde se vai ter os bebés?

– Sim, mas, se vir que estão para nascer, ligo para a Saúde24 e pergunto para onde vou.

– Ah, pois. Isso é que deve ser uma enorme fonte de stress, não?

– Não. Nenhuma mesma. Ligo no dia e logo se vê. Escusado pensar nisso na véspera, até porque nem sei quando é a véspera.

– Mas não ficas stressada por não saberes qual é o hospital?

– Não, é-me igual ao litro.

– Mas não fizeste o teu plano de parto?

– Sim: o meu plano para o parto é aparecer. Os médicos que tratem do resto.

– Mas como é que não planeaste isso?

– Sabes como é, a Humanidade existe há muito tempo, o que significa que as fêmeas também, e a reprodução não há-de ser um bicho. Logo se vê.

– Mas eu sempre ouvi dizer que isto em Lisboa estava um caos.

– E está.

– Ah, então afinal tem sido caótico!

– Pois, mas para mim não. A situação em geral sim.

– E porque é que não vais antes ao privado, então?

– Tenho gostado muito do tratamento no público. É lindo ser pessoa em vez de ser cliente.

– Então mas se está caótico…

– Pois, mas caos maior é um serviço de saúde a querer sacar dinheiro. Chegar a uma consulta e não se saber se, meia hora depois, se vai ter dinheiro na conta para pagar a luz em casa. E, claro, saber que, ao mínimo problema durante o parto, me recambiariam para o público.

– Afinal, estás preocupada com potenciais problemas.

– Não, nada. É só fazer por evitá-los.

– Não te percebo. As outras grávidas estão sempre stressadas e dizem que custa muito. E queixam-se de que as pessoas lhes põem a mão na barriga.

– Ah, eu não. É giro: gesto de ternura, não abuso. Amor com amor se paga. Claro que, volta e meia, custa qualquer coisinha, mas nada que se compare à amigdalite que apanhei em Marrocos e que quase me levou. Sobrevivi como uma estóica. Ainda hoje bardos cantam sobre aquele dia em que, apesar das dores, consegui esmigalhar e sorver um Clonix em Casablanca.

– E a barriga não te faz doer as costas?

– Um bocadinho.

– Deve ser horrível.

– Nem por isso. Tive dores de costas toda a vida. É mais do mesmo. Como andar sempre de mochila.

– Ai. Estás a guardar as queixas para o pós-parto?

– Não estou a guardar nada. O pós-parto logo se vê o que será.

– Não ficas ansiosa ao pensar em tomar conta de gémeos?

– Fico, mas no sentido de ficar aos saltinhos de alegria.

– Mas não foi um susto saber que iam ser dois?

– Não, foram planeados e sempre sonhei com gémeos, tanto quanto sonhei com a Champions ou com saber falar francês. Destes, só consegui os gémeos: é escolher o copo meio cheio, que aqui fica meio cheio duas vezes. Ou seja, é o copo a transbordar.

– E as noites sem dormir e as fraldas?

– É o que é. Hei-de viver. Sem dormir já eu fico ao ver o Vizela a jogar tão mal.

– Mas deve ser muito cansativo.

– Sim, mas responder a inquéritos também. Ou ir aos treinos de jiu jitsu e levar porrada de toda a gente.

– Olha que a minha cunhada queixava-se muito por ficar noites sem dormir.

– Não há-de ser o mesmo que um sono reparador, mas a vida avança. É assim, os bebés não nascem ensinados. Toda a gente que existe há-de ter dado noites sem dormir.

À minha volta, os inquisidores indignam-se. Se um tem uma cunhada que se queixou muito, outro tem uma prima que lhe garante que a aleijaram na MAC, e há ainda quem conteste o parque de estacionamento do S. Francisco Xavier, ou quem caia no privado e, ainda a pingar líquido amniótico, tenha de mostrar os papéis do seguro para ver se é digna de lá estar.

– Mas agora a sério. Isso só pode ser farsa. O que é que, nesta fase, te preocupa?

E eu lá confesso, que há sempre tristezas na vida, com um cinzentismo que me chega logo à cara, esta que anda com uma pele de Caudalie por causa da gravidez:

– Às vezes, preocupa-me falhar em qualquer coisinha, não os educar bem e que, um dia, a meio da adolescência, me cheguem a casa a dizer que querem ser poetas…

Mas, claro, isto é não é um medo exclusivo meu: é a preocupação natural de qualquer mãe. Pelo sim, pelo não, ao lado do fraldário, já instalei há vários meses, por ordem alfabética, várias colecções de clássicos em prosa e de grandes dicionários da língua portuguesa.

A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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