Miguel Guilherme é amante de catos, e isso tem-lhe valido uma maior relação com o bairro dele. Vídeo: Líbia Florentino

Falar de Natal é falar de pinheiros e azevinhos, sobretudo. Mas não só. Não nesta história. Passou anos a chamar-se “ator florista”, por conta da plantação de catos que guarda em casa e que vendia para fora, mas foi por um acaso que Miguel Guilherme, ator português e lisboeta, a viver no Príncipe Real, viu nos catos muito mais do que uma possibilidade de negócio. Encontrou nesta espécie uma maneira de se aproximar do bairro dele. E, agora, de servir o Natal de outros.

Em criança, Miguel só se conseguia imaginar com duas profissões: talhante e florista. O correr da vida trocou-lhe as voltas e, aos 21 anos, já era ator profissional.

“Nunca tinha tido nenhum hobbie, a não ser a leitura”, até que num dia de pandemia resolve comprar um cato num horto. “Não sei explicar bem porquê”, conta o ator de 65 anos. “E não é que, ao final de tantos anos, eu acabo por ir rebuscar isso de ser florista e começo a colecionar e a vender catos?”

A entrevista decorreu na Estufa Fria, onde Miguel Guilherme confessou nunca ter estado. Foto: Líbia Florentino

Um hobby que se tornou um exercício comunitário

Um cato viraram vários. “Fui comprando e comprando e depois pensei: não, eu não sou um colecionador solitário, não sou um tipo que vai ter o seu hobby ali guardadinho para si. Quero partilhar isto com as pessoas.” Seguiram-se meses a descobrir como poderia passar a ideia do papel para a realidade.

“A minha primeira ideia era fazer uma banca para ver se as pessoas iam gostar ou não, para depois passar para uma loja. Mas se tu abres uma loja já não pensas nas pessoas nem nos catos. Só pensas em números, em pagar a renda e em pagar às pessoas que te ajudam. Desisti dessa ideia”, conta.

Então, restava apenas encontrar um espaço onde se pudesse instalar. “Contactei a Junta de Freguesia e concorri a um espaço aqui no Príncipe Real. Consegui um espaço que se chama Portugal Real, um local que tem atividade mês sim mês não.”

Está lá desde 2022.

Dois dias a cada dois meses é o suficiente para Miguel ganhar raízes. Tanto no Príncipe Real, como em Lisboa. Ali, o ator recebe clientes de todo o tipo: desde entendedores de catos que trazem pedidos exigentes, a pessoas que visitam a banca apenas para contactar com Miguel, o ator que conhecem do teatro e das novelas. “Muitas pessoas nem me compravam catos. Ficávamos só ali a conversar. Iam lá para conversar comigo – e eu não me acho conversador. Falo mais em dois dias a vender catos do que em três meses, ou mais.”

“Acabei por me integrar melhor dentro do meu bairro. Pude ser mais ativo dentro do meu bairro e da freguesia”, conta.

Quase dois anos se passaram desde que os catos de Miguel Guilherme conheceram os vizinhos do Príncipe Real. “Eu já fiz amigos fora do meu círculo de ator, que é muito saudável. Pessoas do bairro que me compraram catos e depois acabámos por conversar, almoçar ou jantar.”

Catos de Natal

Mais recentemente, este ano, com a passagem pelo Mercado de Natal do Campo Pequeno, que aconteceu entre 30 de novembro e 10 de dezembro, veio a oportunidade de associar a sua banca de catos à época natalícia. “As pessoas que organizam estes mercados, como o do Campo Pequeno, são duas raparigas muito simpáticas que me convidaram para ser o padrinho do mercado. Aceitei o convite e gostei da experiência.”

Hoje, a banca de Miguel abarca uma vasta variedade desta espécie. Umas mais pequenas, outras maiores, de cores e formatos distintos. E faz tudo sozinho: “Acaba por precisar muito da minha criatividade. Temos que ir comprar catos, escolher catos, envasar os catos, fazer fotografias para o Instagram para as pessoas verem. Faço tudo sozinho. Quero que isto seja uma coisa muito pessoal.”

Para o ator, partilhar os seus catos é uma espécie de meditação. Foto: Líbia Florentino

No entanto, o ator florista, como se intitula, mantém-se fiel a uma das suas premissas base de negócio: só vender aquilo que gosta. “Com o tempo, tu começas a perceber que há coisas que vendes mais que outras, mas eu não penso dessa maneira. Eu só vendo aquilo de que gosto. Às vezes vêm perguntar-me: mas vende suculentas? Não não, só vendo catos.”

De banca desmontada e sem atividade até ao ano que vem, Miguel faz balanços desta “ideia maluca” que o uniu ao catos, mas que hoje o associa mais e melhor ao Príncipe Real e a Lisboa. ”O contacto que tenho com as pessoas na banca abranda-me o stress, dá-me uma certa paz e calma que me agrada. De certa maneira, para mim a banca funciona como um género de meditação. E é uma coisa que tem que ver com o bairro, com a vida da cidade.”

Mês sim, mês não, lá o encontramos, na banca do Portugal Real.

Foto: Líbia Florentino

Tomás Delfim

A paixão pelo jornalismo aflorou apenas durante a própria licenciatura em jornalismo, mas, como se costuma dizer, mais vale tarde que nunca. Entrou para a Mensagem com a missão de praticar o jornalismo que lhe proporciona uma maior realização pessoal e profissional: contar histórias de pessoas e da sua cidade. Mas, para ele, “o jornalista é apenas o mensageiro das histórias que as pessoas têm a contar.”

*Editado por Catarina Reis


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