Madu descia a Travessa das Mónicas quando um entre tantos grafitis na parede capturou o olhar dela. Levou um tempo até perceber o porquê: pintada no muro da antiga Casa de Correção na Graça, sobre a tinta já desbotada, lia-se “Teu ardor me tempera”, parte da letra de Gabriela, música composta pela cantora brasileira.

“Primeiro, pensei que era uma frase que tinha lido em algum lugar, só depois a ficha caiu e falei alto: ‘gente, isto é a minha letra!’”, conta Madu.

A estrofe grafitada na parede de uma prisão desativada, ladeada pelas claustrofóbicas janelas com grades do prédio, contrastava com o sentimento de liberdade que tomou conta da jovem cantora de 23 anos, que há quatro anos trocou o Recife por Lisboa – assim como tantos imigrantes, em busca de um sonho.

Um sonho que Madu começou a ver escrito nas paredes de Lisboa.

As letras das músicas de Madu tem sido postadas num perfil do Instagram, mas a identidade de quem as pinta segue um mistério. Foto: Rita Ansone.

Além do muro na Travessa das Mónicas, Madu passou a ver trechos das suas músicas grafitados em outros sítios da Graça, no prédio em frente ao convento ou no caminho em direção ao miradouro da Senhora do Monte, e também em Alfama e na Mouraria. Sabia que as letras eram dela, só não fazia ideia quem era o autor dos grafitis.

“Havia uma assinatura em algumas delas que me levou a um perfil no Instagram chamado Pixo com Serifa. É o máximo que consegui saber, mas ainda não sei precisamente quem é ele ou ela que anda a grafitar as minhas letras”, diverte-se Madu, sobre a identidade ainda ignorada de um dos seus fãs lisboetas.

Do bar irlandês em Cacilhas para palcos maiores

Há pouco mais de um ano, Madu era apenas a jovem Maria Eduarda Gaioso que sonhava em ser artista e ganhava a vida a trabalhar num bar irlandês em Cacilhas. Ainda sem palco, músicas, letras grafitadas nas paredes de Lisboa e fãs, anónimos e com rosto.

Milhares de rostos.

No Carnaval, Madu comandou o desfile do bloco Colombina Clandestina, a maior agremiação carnavalesca da comunidade brasileira em Lisboa, que costuma arrastar milhares de foliões nos seus desfiles. Neste ano, 15 mil foram embalados pela voz doce e enérgica da conterrânea a cantar e dançar no coreto do Largo da Graça.

Em outubro, em vez de um coreto, Madu estreou-se num grande palco e abriu o concerto do também pernambucano Alceu Valença no Casino Estoril, para um público que esgotou os 1,4 mil lugares.

Se no Carnaval, a cantora recorreu ao repertório de outros músicos brasileiros, já estava pronta para mostrar o seu trabalho autoral.

A jovem cantora de 23 anos decidiu largar o trabalho num bar irlandês para apostar no seu talento como artista. Foto: Rita Ansone.

Um trabalho que resultou no primeiro EP e que leva o nome da artista, apresentado no concerto no dia 25 de novembro, no Bar Bota, nos Anjos, um dos palcos que compõem o circuito alternativo musical de Lisboa – como o Valsa e o Samambaia, por onde Madu começou a apresentar-se, semeando ao vento as suas letras.

As mesmas letras que pintaram os muros de Lisboa.

Cantar por respeito às mulheres da família

A cristalização da metamorfose da jovem que trabalhava num bar irlandês em artista começou durante a pandemia, quando, sozinha trancada num quarto em regime de lay off e recém saída de uma relação, Madu subitamente começou a cantarolar as suas músicas. 

Cantarolava as próprias músicas, pensando tratar-se das músicas de outros artistas.

“Foi muito louco. Estava distraída e me peguei a cantar uma música, com letra, melodia e tudo. Estava tão certinha que pensei que era uma música que havia ouvido. Fui no Google, digitei a letra e nada. Não apareceu nada. Só aí percebi que esse era o meu processo de criação”, conta.

A letra em questão era de Contratempo, uma das músicas do EP, cuja estrofe inicial remete à solidão do quarto vazio e do calafrio em não mais ver o rosto de quem ama.

O metafísico processo de composição, no qual a música surge pronta na cabeça de Madu, repetiu-se nas outras letras do EP. Madu acredita que a explicação é fruto da sua ancestralidade, às vozes sopradas pelas mulheres da sua família, muitas com talentos artísticos, reprimidos pelo patriarcalismo do Nordeste brasileiro.

“Quando canto, sinto que represento essa minha ancestralidade, que represento as mulheres da minha família que tinham arte no sangue, mas que nunca a exerceram por causa da época em que viveram”, explica Madu.

O Brasil e o Nordeste felizmente mudaram e, diferente das suas ancestrais, Madu teve todas as possibilidades de exercitar a verve artística. Desde pequena. Aos seis anos, ingressou no conservatório de música para ter aulas de canto, uma trajetória que cedo a levou aos palcos do Recife em apresentações num grupo de coral.

Depois, vieram as lições de guitarra, teatro, circo e acrobacia. Vem daí a duradoura relação com “Lorenzo”, a faixa de tecido em poliéster com 16 metros de comprimento que trouxe do Brasil, utilizada na prática do tecido acrobático, atando as pontas da liga nos ramos das árvores da cidade, especialmente no parque da Bela Vista.

E foi assim, na leve companhia de “Lorenzo”, que Madu passou a andar Lisboa sem tocar os pés nos chão.

A artista que matou a saudade aos brasileiros de Lisboa

A habilidade com o tecido acrobático rendeu a Madu uma das suas maiores valias como cantora: a forte presença no palco. 

“Antes, não tinha consciência de palco. Sentia-me exposta, com vergonha, intimidada por aquelas pessoas estarem a olhar. Isso até desenvolver uma persona em cena. Agora, quando subo no palco me transformo e essa performance é muito importante para mim”, explica a cantora.

Madu tem investido na carreira, com foco na divulgação do trabalho e o lançamento do seu primeiro EP. Foto: Rita Ansone.

Madu acredita que a performance marcante dessa sua persona em palco é responsável pelo número cada vez maior de fãs que acompanham as suas apresentações – inicialmente restrito à comunidade brasileira em Lisboa, agora um bocadinho mais eclético. 

“No começo, as minhas apresentações eram uma forma de os brasileiros encontrarem-se e matarem um pouco a saudade de casa. Depois, começaram a vir os portugueses, o que era muito doido, pois sabiam cantar as minhas músicas. Ultimamente, começaram a aparecer também os gringos!”, diverte-se.

Além da técnica com o tecido como suporte à presença no palco, Madu faz uma certa acrobacia para viver da sua arte, desde que em 2022 decidiu deixar em definitivo o emprego no bar irlandês para ter uma vida full time de artista. Com a carreira de cantora ainda a descolar, tem dado aulas particulares e em escolas de canto.

O último ano desta transformação também foi marcado por maior profissionalismo, presente no investimento na divulgação do seu trabalho com o apoio de uma assessoria de comunicação e na produção de ensaios fotográficos e de clips, além do lançamento do EP.

Com a mentoria do conterrâneo Alceu Valença, Madu agora faz parte do catálogo da Altafonte, uma distribuidora musical internacional que, no Brasil, gere tanto o repertório de cantores que despontam na cena como também de gigantes da música brasileira, como Arnaldo Antunes, Criolo e Gilberto Gil. 

E, por falar no Brasil, a carreira em Portugal promete, mas Madu ainda sonha em ouvir a sua voz ecoar pelo Atlântico. 

“Desde que vim para Portugal, ainda não voltei ao Recife. E queria voltar para fazer um concerto lá e mostrar à minha família a minha música. Noutro dia, ouvi numa entrevista do cantor Roberto Mendes algo que me tocou, de que a gente só sabe se é bom quando é reconhecido pelos vizinhos. Quero ser ouvido pelos meus vizinhos”, conta.

Um sentimento retratado num dos grafitis pintados nos muros de Lisboa com as letras de Madu, onde se lê a estrofe que diz “Saudade tem nome e endereço”.

Este sábado, dia 25 de novembro, a artista dará um concerto no Bota Anjos, às 21h.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt


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3 Comments

  1. Matéria lindamente construída, regada à poesia na descrição da cantora, que quase a materializa e nos permite tocá-la, para matar a saudade que nos deixou como companhia quando decidiu ir além-mar…

  2. Pessoalmente não gosto de ver paredes grafitadas, mas adoro a musica dela.
    A musica para mim é uma terapia que ajuda a libertar todos os maus sentimentos e devolver a saúde física e mental.
    Belo trabalho, parabéns!

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