Vídeo: Inês Leote

Catarina Assis Pacheco escolheu não ler “Martim Moniz”, obra de Ferreira Fernandes lançada este novembro, antes de saber os resultados do concurso público para a requalificação da praça. Tinha medo de agoirar o resultado. Agora, poderá finalmente lê-lo. É que Catarina e a colega Filipa Cardoso de Menezes, arquitetas, são as vencedoras deste concurso que repensou uma das praças mais emblemáticas da cidade e para a qual há tanto se ansiava uma nova vida, o Martim Moniz.

O projeto que saiu do seu atelier foi hoje aprovado em reunião de Câmara e prevê aquilo com que muitos sonharam: a construção de um jardim multicultural, como aliás já antecipava o livro de Ferreira Fernandes.

Mas não foi aprovado sem ser sujeito a algumas críticas por parte da oposição. O Bloco de Esquerda, que votou contra o projeto, os Cidadãos por Lisboa e o PCP, que se abstiveram, denunciam a forma como o processo foi conduzido, uma vez que não houve nenhuma discussão pública sobre as propostas apresentadas. “Não houve suficiente audição da população que exigia um jardim, com espaço de utilização para crianças”, afirma o BE.

Para além disso, o BE diz que o projeto não demonstra integração com a zona da Baixa Pombalina e Rio Tejo, nem com o eixo da Avenida Almirante Reis e Rua da Palma (questão que foi também apontada pelos Cidadãos por Lisboa e pelo PCP). A proposta, reiteram, “enterra definitivamente a Zona de Emissões Reduzida (ZER) que tinha sido planeada para a Baixa e mantém, podendo agravar, o trânsito da zona”.

O PCP voltou a propor a constituição de um Gabinete Técnico Local com o objetivo de “envolver a população em ligação com o processo da Almirante Reis e, superar o enorme período de 3 anos (até 2026) para a finalização do projecto de execução”, relembrando ainda que foi graças à população de Santa Maria Maior e de Lisboa que se “lutou contra a imposição de um projeto de mercantilização e privatização do espaço do Martim Moniz.”

Mas a ideia vai mesmo avançar.

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O Martim Moniz do futuro. Foto: CML

É no Martim Moniz que nos encontramos com as duas arquitetas, essa praça que por enquanto se mantém “árida”, “inerte”, “uma oportunidade perdida”, mas que as duas estão prestes a agarrar.

“É um terraço completamente inerte, num sítio que é uma linha baixa de vale, perdeu-se completamente a leitura. Esta é uma oportunidade para resgatar o significado”, resume Filipa.

A ideia é desconstruir a “ilha”, explicam. “É esta ideia de estarmos nesta ilha, sempre rodeados de trânsito e confusão.” Querem desconstruí-la, transformando-a num jardim com árvores vindas de diferentes climas, que se abre para o seu lado nascente, com o surgimento de uma nova praça, completamente pedonal, onde se situa a histórica Capela Nossa Senhora da Saúde.

O trânsito passa assim a fazer-se do lado poente, onde surgirão quatro faixas, duas bus e duas de carros, e ainda uma ciclovia bidirecional com ligação à Almirante Reis:

Um jardim para honrar a origem daqueles que por aqui passam

Como a maioria dos lisboetas, Catarina e Filipa têm uma relação especial com o Martim Moniz.

Catarina conhece todos os restaurantes da zona, como aliás pudemos constatar quando uma funcionária a cumprimentou mal a viu. “É um dos sítios a que venho ao fim-de-semana”, conta. “Atravesso esta praça mil vezes por ano. Obrigo os meus filhos desde pequenos a vir aqui, e faz parte dessa minha vivência.” 

Para Filipa, que vive aqui perto, a relação é outra:

“Para mim, sempre foi um sítio de passagem. Para a Catarina, um sítio de permanência. Como lisboetas, sempre foi um problema urbanístico por resolver.”

Martim Moniz
O projeto vai transformar por completo o Martim Moniz. Foto: Rita Ansone

A solução teria, pois, de honrar a praça enquanto lugar de confluência de diferentes origens. É por isso que o jardim que aqui nascerá será um espaço multicultural. Um jardim permeável, de terra com diferentes espessuras. “Gostávamos de usar essas espessuras e construir diferentes solos e recriar as várias zonas bioclimáticas que existem no mundo”, explica Catarina.

Assim, para além das espécies mediterrânicas, aqui será possível encontrar-se espécies que remetam para os países de origem daqueles que por aqui passam. “Quem aqui vem, seja visitante, seja lisboeta, seja lisboeta que já viveu noutros sítios, vai encontrar coisas de outros sítios, seja uma flor, um cheiro, uma fruta…”. 

Martim Moniz
O Martim Moniz hoje e no futuro. Fotos: Rita Ansone/CML

Neste jardim, surgirá ainda um parque infantil, pensado para a população que vive nas redondezas, e uma cafetaria, com um miradouro no seu topo. “Para quem desce a Almirante Reis e a rua da Palma, o que vê é uma peça verde de jardim, não é a cafetaria. Esse jardim tem uma espécie de miradouro, que fica com vista sobre todo o jardim”, completa.

Uma praça que valoriza a antiga capelinha

Porém, para a praça ter vegetação, percebeu-se que seria preciso subir a cota do terreno para se ter profundidade por causa do parque de estacionamento. Esse desnível é, então, aproveitado para a criação de uma bancada, com vários degraus, que faz a ligação entre o jardim e a continuação da praça do lado nascente.

É nesta nova praça pedonal, com quatro faixas que viram calçada, que se revaloriza um outro elemento histórico com grande importância: a Capela de Nossa Senhora da Saúde.

Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

“Sempre menorizada, a capelinha é, pois, a amostra simbólica do seu largo. As restaurações que aconteceram a ambos – à capela e ao largo Martim Moniz – parecem sempre obra daquela velhota espanhola, a do fresco centenário com a imagem de Cristo num santuário de Saragoça. Ela pegou nuns pincéis e borrou a pintura. A pintura era o Ecce Homo, da apresentação feita por Pilatos ao povo: “Eis o homem!” – e lá estava ele, Cristo, dorido mas digno, antes da velhota. Com ela, virou um borrão espantado.

Aconteceu o mesmo com os sujeitos da nossa discussão. A capela ficou com o mamarracho do Centro Comercial da Mouraria pespegado às suas costas; e a praça foi sujeita a demolições absurdas e com outro trambolho, o Centro Comercial do Martim Moniz, à ilharga. Mudanças sem sentido, sempre.”

em “De Belarmino a Severa, o Martim Moniz é uma praça de misturas e inspirações”, de Ferreira Fernandes

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A zona da capela transformar-se-á numa grande praça. Fotos: Rita Ansone/CML

Para Filipa, o retomar desta capela faz todo o sentido, até porque permite toda uma vista sobre a Mouraria: “O facto de haver uma praça-jardim deste lado e uma praça mais pavimentada faz com que as pessoas estejam a viver o espaço muito mais nesta direção. O redesenhar do espaço em torno da capela para nós fez todo o sentido para se estabelecer esta relação com a cidade.”

Será fácil atravessar a praça de uma ponta à outra, com a criação de uma grande passadeira de atravessamento na rua da Palma (que será renovada), e que se liga ao jardim através de uma rampa. No jardim, há ligação à praça, claro, e às Escadinhas da Saúde.

Repor a história das muralhas de Lisboa 

O Martim Moniz é um lugar que pulsa com a história do passado e que nos faz viajar à famosa lenda de um cavaleiro “entalado” às portas de Lisboa, cujo feito permitiu que os portugueses entrassem no Castelo dos Mouros.

Mas esta é uma figura sobre a qual não resta documentação nenhuma. Resta apenas esta praça com o seu nome.

Se pouco se sabe sobre Martim Moniz, a verdade é que esta praça registou muitos outros momentos históricos, como a cerca fernandina. E essa é uma memória que as arquitetas querem preservar: “Quando entrámos no concurso, além de tudo aquilo que nós já sabíamos e sentíamos da praça, percebemos que a muralha era um elemento que fazia sentido repor”, explica Catarina.

Martim Moniz
A estrutura que hoje recorda a lenda de Martim Moniz. Foto: Rita Ansone

A muralha divide assim o espaço: de um lado, a praça; do outro, uma rotunda, junto ao Hotel Mundial, que facilitará a circulação rodoviária.

“Repor não só do ponto de vista de linha sem significado, mas mesmo repor a sua importância reestruturante para o espaço. Esta muralha significa a definição do que é predominantemente pedonal e do que é predominantemente viário, resolvendo-se o conflito entre a circulação”, esclarece Filipa. 

Para lá da muralha, será ainda instalada uma cisterna com água, uma espécie de instalação artística para apelar a reflexão sobre um bem escasso. Com um jardim permeável, a água que bate na laje será retida e a ideia é que seja encaminhada para essa cisterna. “Gostávamos que viesse cá a cima, como um poço, para poder ser visto como sistema de recolha”, diz Catarina.

Como cuidar do Martim Moniz

Com este projeto, as arquitetas têm uma expectativa: que os lisboetas se apropriem deste espaço. “Se conseguirmos que as pessoas se apropriem desse espaço, que sintam que este espaço também é delas, talvez depois se envolvam na sua manutenção”, diz Catarina.

Foi essa a experiência que as duas tiveram quando projetaram o Parque Urbano de Albarquel, em Setúbal. “Foi apropriado por um grupo de senhores que vestem coletes refletores e tratam da sua manutenção. Durante a obra, as pessoas estavam sempre céticas, mas depois percebeu-se que as pessoas usam tanto o espaço…”, conta ainda.

Filipa traduz por outras palavras:

“O espaço cuidado, quando consegue estabelecer essa relação de empatia com as pessoas, faz com que as pessoas o protejam. As pessoas quanto mais usam, mais cuidam.”

É esse o sentimento que as duas esperam que o Martim Moniz despolete na população que por ali sempre passou: o de pertença.

Martim Moniz
Filipa Cardoso de Menezes e Catarina Assis Pacheco são as vencedores do concurso para a requalificação do Martim Moniz. Foto: Rita Ansone

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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2 Comments

  1. Depois de a Câmara Municipal anterior ter gasto milhões na anterior requalificação, vem esta nova Câmara derreter mais dinheiro dos contribuintes. Um excelente projecto seria transformar o actual Martim Moniz uma cópia da praça de Marraquexe, porque a Medina já existe já há vários anos. Passar por lá há noite só com seguranças privados. Senhor Carlos Moedas tenha pelo menos um pouco de vergonha, andou a retirar os sem abrigo da Almirante Reis nas Jornadas da Juventude a apregoar o enchimento dos cofres. E agora vai encher os cofres de mais alguém num centro Marroquino. Se houver alguém curioso de ver a Medina e a praça central de Marraquexe, basta vir ao Martim Moniz em Lisboa.

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